Os registros de queimadas e incêndios têm aumentado a cada ano. Em 2020, o fogo, que atingiu a vegetação sobre áreas de preservação no território brasileiro, atraiu a atenção do mundo. A região do Pantanal, os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, vêm sofrendo com grandes focos de incêndio desde o início deste ano. É o maior incidente da última década e já destruiu nove vezes mais do que a área desmatada nos últimos dois anos. A fauna e a flora foram duramente afetadas. Aumentaram os casos de doenças respiratórias causadas pela fumaça e fuligem. O Brasil arde e precisa de ajuda. As medidas adotadas para combater o fogo e preservar a área verde do país não se mostram suficientes.

Nessa publicação vamos fazer um panorama das queimadas de 2020 e dos efeitos sobre a fauna, a flora e o agronegócio.
Poluição
Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o número de focos de incêndio até o final de outubro deste ano já supera o total relatado em 2019. As leis no Brasil autorizam as queimadas controladas como técnica agrícola, mas quando descontroladas, de acordo com a Embrapa, elas se tornam focos de incêndios.
Com os períodos de seca, há o aumento das queimadas em biomas como o Pantanal, o Cerrado e a floresta Amazônica, levando a consequências como poluição do ar, da água e do solo. Com isso, é possível observar diversos danos climáticos e malefícios à saúde das pessoas, além das perdas na fauna e na flora que agravam os ecossistemas.

Mesmo com a chegada das chuvas, após a estiagem, os danos causados pelas queimadas continuam. As cinzas geradas pelo fogo são levadas para os rios e as nascentes, contaminando as águas. Já para o solo, a poluição, após os incêndios, prejudica os nutrientes da terra, que nem sempre conseguem ser reparados de imediato, atrapalhando o crescimento da vegetação local.
O Distrito Federal foi uma das áreas mais atingidas pelos efeitos das queimadas e incêndios, o que exigiu ações coordenadas das autoridades públicas, como da Secretaria de Meio Ambiente. Na entrevista acima, em formato de mesa redonda, a líder das ações, Carolina Schubert, apresenta um panorama da situação em Brasília e entorno. Coordenadora do Plano de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais PPCIF, ela detalha o plano de prevenção e combate, os métodos usados e a forma como a população pode ajudar a prevenir esses incêndios.
Diferente da poluição comum que acontece em cidades grandes, que tem uma longa duração e uma baixa intensidade de partículas ruins, a poluição do ar causado pelas queimadas apresenta um período menor de tempo, porém a concentração é muito alta.

Dessa forma, as incidências de doenças relacionadas a isso tendem a ser maiores quando as queimadas estão mais presentes.
No que diz respeito à saúde física dos seres humanos, a poluição do ar impacta principalmente o sistema respiratório, desenvolvendo crises de asma ou rinite, bronquite e até câncer de pulmão. Além disso, doenças cardiovasculares, como infarto ou acidente vascular cerebral (AVC), também podem ser desencadeadas com a elevada exposição ao ar poluído.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que mais de quatro milhões de pessoas morrem anualmente em decorrência da poluição do ar ambiente em todo o mundo. Isso é ocasionado por conta da concentração de partículas inaláveis acima do recomendado pela organização. Com o ar poluído, ocorre uma liberação maior de carbono na atmosfera, reduzindo a quantidade de oxigênio e transformando o ar bom em ruim.

Fauna prejudicada pelas queimadas no pantanal
O Pantanal, região que se estende pelos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, sofre com sua maior temporada de queimadas intensas nas últimas décadas. De acordo com dados obtidos pelo Prevfogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais), uma área de 2,34 milhões de hectares – equivalente ao estado de Sergipe – foi afetada pelas chamas neste ano. O espaço atingido representa 15% do Pantanal, área que corresponde à região metropolitana de São Paulo.
Mesmo com o baixo volume dos rios e o aumento da temperatura, grande parte do total de queimadas é ilegal. O Prevfogo assegura que uma das principais causas é a transformação do solo em área de plantio ou pastagem de gado. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a região sofreu um aumento das queimadas em 210% em comparação com o ano passado.

Com o avanço rápido do fogo no pantanal, a biodiversidade do local acaba sendo afetada drasticamente. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, vivem no bioma cerca de 650 espécies de aves, 260 de peixes, 100 de mamíferos, quase 50 de répteis e 41 de anfíbios. Nesses grupos estão a onça-pintada e o lobo-guará, espécies em extinção, que estão estampados nas notas de 50 e 200 reais, respectivamente.

Um exemplo dessa situação crítica é um macho de onça-pintada que foi encontrado com queimaduras de segundo grau nas patas e graves sintomas de desidratação. O animal foi batizado de “Ousado”, devido a sua bravura ao ser resgatado por um helicóptero da Marinha do Parque Estadual Encontro das Águas. Ousado foi levado para um ONG em Goiás, onde foi tratado e teve alta no dia 15 de outubro.
As onças-pintadas entraram na categoria “quase ameaçadas de extinção” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês). Já para o Ministério do Meio Ambiente, a espécie é considerada vulnerável (categoria que significa o risco de entrar em extinção).
O Parque Estadual Encontro das Águas, local onde existe a maior concentração de onças-pintadas do mundo, possui uma área de 108 mil hectares e foi um dos mais afetados pelo fogo. Analisando imagens de satélite da cidade de Poconé, em Mato Grosso, o Instituto Centro de Vida (ICV) estima que mais de 85% da área de reserva do parque foram devastadas.

Fernando Tortato, pesquisador do Instituto Panthera, ressalta a importância do Parque Estadual Encontro das Águas.
“O parque possui um corredor protegido que sempre garantiu um bom habitat para a vivência das onças. Além de ser um importante lugar de estudos, acaba favorecendo o turismo também.”
Fernando Tortato
Segundo especialistas, a onça-pintada é um animal importante no ecossistema em diferentes biomas do Brasil. É o caso da bióloga Lilian Elaine, coordenadora da associação Onçafari, conhecida pela atuação para preservar as onças-pintadas e lobos-guarás.

“Por serem totalmente carnívoras, elas podem controlar o número de presas na região, como veados e capivaras. Como as onças-pintadas estão no topo da cadeia alimentar, elas não permitem uma explosão populacional de espécies inferiores.”
Lilian Elaine
Os registros do Prevfogo revelam ainda que a Fazenda São Francisco do Perigara, em Barão de Melgaço (MT), teve 92% dos seus quase 25 mil hectares devastados pelas queimadas. O local é conhecido por abrigar 15% das araras-azuis que vivem na natureza no mundo.

A bióloga e doutora em Ecologia e Conservação Letícia Larcher, coordenadora técnica de projetos do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), explica que os animais não morrem apenas pela carbonização, mas também sofrem com a falta de alimento, abrigo e ambiente propício para a procriação. A doutora atua na Serra do Amolar, no Mato Grosso do Sul, onde existem oito espécies consideradas em risco de extinção pela IUCN.
Larcher ainda destaca a dificuldade das aves atingidas pelo fogo.
“Elas (as aves) tentam fugir para o mais longe possível, mas não têm local para pousar, pois a floresta está pegando fogo. Além disso, não possuem alimentos ou lugar para fazer seus ninhos.”
Letícia Larcher
Os animais aquáticos também sofrem com as queimadas, como é o caso das ariranhas. Larcher explica que essa espécie vive nas margens dos rios e lagoas e também está ameaçada de extinção. Destaca ainda que, na primeira chuva na região, as cinzas advindas do incêndio serão levadas para os rios, modificando o pH da água e causando grandes problemas no ecossistema na região.
Não existe um estudo para estimar quantos animais morreram ou sofreram danos em razão do fogo. Isso se dá pelo fato de que cada espécie dá uma resposta diferente às queimadas e depende da quantidade de bichos no local.
Estima-se que arbustos e gramas levam no máximo cinco anos para renascer, porém as florestas e os animais irão levar de 20 a 30 anos para uma total recuperação, é o que calcula a professora da Universidade Federal de Mato Grosso, Cátia Nunes.
“É bem difícil fazer um cálculo de estimativa assim pelas poucas pesquisas financiadas atualmente, mas analisando queimadas na década de 60 é possível pensar que vai levar no mínimo 20 anos e no máximo 30 anos para uma recuperação completa.”
Cátia Nunes

Os incêndios também deixam em situação crítica as reservas indígenas. Muitas aldeias sofreram.
As tribos vêm cobrando medidas do governo federal. A principal preocupação dos chamados povos originários é com o uso indevido da terra.
O agronegócio no centro do debate
O desafio de usar a tecnologia e a sustentabilidade para superar a motosserra e o fogo.

A produção no campo entre o passado e o futuro
Historicamente, o mercado interno sempre absorveu a maior parte da oferta de carne bovina do Brasil e o excedente tem sido destinado à exportação. Por isso, a indústria frigorífica nacional não se empenhava em melhorar os padrões de qualidade exigidos pelo consumidor externo.
Em meados dos anos 1970, diversos programas de crédito voltado para pecuaristas foram criados, sendo os mais relevantes: Programa Nacional de Pastagens (Pronap), Programa Nacional de Desenvolvimento da Pecuária de Corte (Propec) e o Conselho de Desenvolvimento da Pecuária (Condepe). Com o incentivo do governo, foi possível que a indústria se desenvolvesse melhor e passasse a atender as exigências dos mercados internacionais, como a rastreabilidade dos animais abatidos, cortes diferenciados e técnicas especiais de abate.
Porém, as mudanças só foram sentidas de maneira significativa na década de 1980. Isso porque, com mais investimento, foi possível que os grandes agricultores apostassem em vacinas e medicamentos para tratar melhor os animais. Foi nessa mesma época que a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Sistema Emater) surgiu para ajudar o ramo. Assim, foram iniciados estudos para melhorar a nutrição e a genética dos bichos.

Segundo dados da Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carnes Industrializadas (ABIEC), entre os anos 1990 e 98, a pecuária foi responsável por 90% de toda a exportação nacional. No gráfico abaixo, da própria ABIEC, é possível ver os impactos econômicos na pecuária brasileira. Em 1989, já revela os impactos das medidas adotadas no governo Collor (1990-1992). Em 1995, a decadência da quantidade de exportações se dá ao segundo ano do Plano Real (1994), pois o brasileiro passou a ter mais poder aquisitivo e, consequentemente, passou a consumir mais carne, ou seja, a produção ficou voltada para o consumo interno.
Em 2019, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil foi de R$ 7,3 trilhões, dos quais 8,5% se dão à atividade pecuária. Mesmo com a grande quantia de dinheiro que a área movimenta, os produtores rurais sempre buscam alguma forma para diminuir os custos de produção e aumentar o lucro. Desse modo, é comum que produtores ainda ateiem fogo nas áreas onde querem colocar os animais para se alimentarem, uma forma simples de eliminar a vegetação natural e crescer pasto.
Atualmente, o pantanal é o bioma brasileiro que tem mais sofrido com essas queimadas. Com mais de 250 mil km² de extensão, a área está localizada na região centro-oeste do Brasil, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e também, em pequena parte, no norte do Paraguai e leste da Bolívia. É considerada a maior planície alagada contínua do mundo, com 140.000 km². O lugar começou a ser explorado com a chegada dos portugueses no Brasil, por volta de 1525. O primeiro a começar a destrinchar as terras foi Aleixo Garcia, um português que conheceu o local por meio do Rio Paraguai e passou a garimpar por pedras e metais preciosos, cultura essa que segue até hoje. Porém, o Pantanal também foi explorado pelos pecuaristas. Na década de 1960, em uma tentativa de ajudar no desenvolvimento do Centro-Oeste, o governo brasileiro criou medidas fiscais atrativas para os grandes produtores de gado de corte. Segundo o Instituto SOS Pantanal, cerca de 15% da área do Pantanal foi convertida em pastagem.
Fotos da Associação de Guarda-Parques do Distrito Federal, cedidas pelos brigadistas e voluntários que atuaram no combate ao fogo.
De janeiro a julho deste ano, foram registrados 4.218 focos de incêndio em todo o Pantanal, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Infelizmente, esse não é um caso isolado. O Inpe registrou, em 2009, o total de 2.527 focos. Esses incêndios estão diretamente ligados com as queimadas de pasto. Ainda segundo dados da Abiec, o aumento da criação de rebanho bovino tem crescido, principalmente, na região do Centro-Oeste.
Outro problema que afeta o Pantanal é a situação dos rios. A bacia do Paraguai, que envolve todas as nascentes do Rio Paraguai, nasce ainda no Cerrado e, quando desmatado, influencia no nível da água que vai pelo rio até chegar ao bioma. Além disso, com o desmatamento do Cerrado, as chuvas tendem a levar os sedimentos dessas regiões para o rio. Antes esse fluxo era barrado pela própria floresta. Com o sedimento indo para o rio, as bordas passam a ficar assoreadas, deixando o nível das águas mais baixo, alterando a pureza e afetando o ciclo hídrico.

Você sabia que dá para o agronegócio crescer de forma sustentável e sem desmatar? É o que você confere no episódio de hoje.
Trabalho experimental realizado pela turma 2020 2 de Redação Digital do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Supervisão do professor Alexandre Kieling.
Estudantes:
AMANDA CARNEIRO FREITAS
GABRYEL JACKSON SACRAMENTO LINHARES
JULIA ELEUTÉRIO MARTINS
LUIZ FERNANDO FERNANDES
MARIANA ALBERNAZ MUNDIM TAVARES
MARIANA SOUSA DE ARAUJO
NICOLY SILVA DE SOUSA
YASMIN IBRAHIM DE FARIA









