Sem abraços, sem aperto de mão e sem beijo no rosto. As mudanças bruscas nas rotinas e a necessidade de cumprir os protocolos de distanciamento influenciaram consideravelmente o convívio social. O chamado “novo normal” veio repleto de obstáculos comportamentais e enfrentá-los sem comprometer as emoções ainda está sendo um grande desafio.

Doenças psiquiátricas ou transtornos mentais
As mudanças e transformações no modo de viver e se relacionar com outras pessoas, foi algo comum na vida de qualquer cidadão ao longo dos últimos meses. A população precisou passar por um processo de adequação com a nova realidade e se adaptar às novas condições impostas durante a pandemia causada pela covid-19. No entanto, muitas não conseguiram seguir com a saúde mental inabalável.
O novo momento vivido provocou um aumento considerável das doenças psiquiátricas, chamadas também de transtornos mentais. De acordo com uma pesquisa do instituto Ipsos, encomendada pelo Fórum Econômico Mundial e cedida à BBC News, 53% dos brasileiros afirmaram que sua saúde mental piorou no último ano.
Os transtornos mentais atingem mais de 20 milhões de brasileiros atualmente, dando ao país o título de mais ansioso do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e o quinto mais depressivo.
As doenças psiquiátricas ou neurológicas são provocadas por diversos fatores e podem aparecer em qualquer pessoa, de qualquer faixa etária. Essas doenças são descritas por qualquer tipo de anormalidade, comprometimento e sofrimento de ordem psicológica ou mental. Tais transtornos podem aparecer em momentos de crise ou de tensão, acarretando em alterações do sistema emocional e da produção de neurotransmissores cerebrais e problemas hormonais.

Entre as doenças psiquiátricas existentes, algumas têm sido mais incidentes durante o período de isolamento social e merecem destaque.
- Transtorno de Ansiedade
Provocando um medo que aparentemente não tem motivo, o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é capaz de gerar uma preocupação excessiva ao indivíduo, desconforto e sentimentos constantes de tensão e apreensão. Causam também sintomas físicos como tensão muscular, taquicardia, dificuldades para respirar, além de calafrios ou ondas de calor.
- Depressão
A depressão é uma das doenças psiquiátricas mais comuns no mundo. Ela afeta mais de 400 milhões de pessoas e a tendência é de que as mulheres sofram mais do mal do que os homens.
O sintoma principal da depressão é o sentimento de tristeza, a pessoa perde o interesse em fazer atividades mais simples do dia e carrega consigo sentimentos de culpa. Pode perder o sono, além de sofrer alterações no apetite e na concentração. Em seu estado critico, a depressão pode levar ao suicídio.
- Transtorno Mental Comum
O Transtorno Mental Comum (TMC) é um transtorno definido pelos sintomas depressivos, sintomas de ansiedade, irritabilidade, situações repentinas que causam tristeza profunda, fadiga, insônia entre outros sinais. Pessoas que recorrem a especialistas apresentando alguns desses indícios, mas não atendem as condições de classificação de depressão e ansiedade, geralmente recebem o diagnóstico do TMC.
Após o diagnóstico, o paciente precisa seguir as devidas recomendações, com o objetivo de tratar e favorecer um resultado satisfatório, já que o TMC é o transtorno inicial para outras doenças, ou seja, uma boa articulação no tratamento da saúde mental pode evitar prejuízos psicológicos futuros.
- Síndrome do Pânico
A doença de síndrome ou transtorno do pânico é conhecida pela incidência inesperada e sem explicação de crises de ansiedade bastante fortes, definida por um medo muito agudo e desespero que ocasionam sintomas físicos e emocionais considerados apavorantes.
As causas para o aparecimento dessa doença ainda não foram totalmente esclarecidas, mas estudiosos relatam que fatores genéticos, o uso excessivo de medicamentos, álcool e drogas podem contribuir.
Os principais sintomas de síndrome do pânico são náuseas, taquicardia, suor e calafrios, desespero incontrolável e sensação de morte.

Efeitos psicológicos do isolamento social
Manter relacionamentos familiares, sociais e afetivos, e as trocas interpessoais são essenciais para o bem-estar e a qualidade de vida de pessoas de todas as idades. A mudança repentina que alterou os modelos de convívio social, afetou as emoções e gerou sentimentos de insegurança, medo, frustração e angústia.
O ser humano necessita de contato físico para a construção de melhores relações afetivas. Esse tipo de contato é capaz de induzir reações neuronais complexas na espécie humana, como explica a médica psiquiatra Carolina Tajra. A liberação de neurotransmissores cerebrais e as mensagens que esse contato humano transmite são diversas.
O contato físico nos mostra que não estamos sozinhos no mundo, gera sensação de conforto e acolhimento, contribuindo para o controle do estresse. O toque físico, portanto, tem uma função social central.
Carolina Tajra, médica psiquiatra.
Tajra conta que a procura por atendimento em saúde mental nos últimos meses aumentou consideravelmente e que, sem dúvidas, a pandemia é principal causa desta demanda. Os quadros de ansiedade são prevalentes, mas o trauma da perda também.
“O luto e episódios depressivos também são muito frequentes e, surpreendentemente, os quadros de estresse pós traumático”.
Carolina Tajra, médica psiquiatra.
A universitária Nátalie Lima, 22 anos, tinha uma rotina intensa antes da pandemia. Conciliava o seu tempo entre faculdade, academia, igreja e reuniões com os amigos aos finais de semana. Para ela, se adaptar aos novos protocolos de convívio não foi nada fácil, o que agravou seu quadro psicológico. A estudante de odontologia morava com seus avós antes da pandemia, mas há 1 ano e meio teve que aprender a conviver consigo mesma. Amedrontados com vírus e sem perspectiva de vacinas, seus familiares já idosos, decidiram se mudar logo no primeiro semestre de pandemia para uma casa na zona rural. Foi um meio de evitar contaminação.
“Eu sempre tive problemas com depressão e ansiedade, e o isolamento piorou muito, porque eu sou o tipo de pessoa que necessita de contato físico, da presença de amigos e da minha família, mas tive que me afastar de todo mundo”.
“Durante todo o ano de 2020 eu vi minha família pouquíssimas vezes e pra mim isso foi horrível, eu me sentia muito sozinha. A saudade dos meus familiares piorou muito as minhas crises de ansiedade”,
Nátalie Lima, 22 anos.

Já o funcionário público e arquiteto, Jônatas Bueno, 36 anos, está trabalhando de home office desde março de 2020. Ele tem ficado mais recluso em casa com sua esposa e seu filho de 2 anos durante a pandemia, evitando sair até mesmo para atividades essenciais como mercado. O arquiteto tem usufruído ainda mais de aplicativos de delivery e não tem frequentado eventos sociais. Seu filho também não vai mais à escola e nem em parquinhos de criança.
Com mais de 500 mil mortos no Brasil e milhares de pessoas sofrendo a dor do luto, Jônatas também teve de enfrentar, sem o abraço e o consolo de pessoas queridas, a perda de seu pai, que faleceu em março de 2020.
“O isolamento social retardou uma recuperação de um processo psicológico que eu estava passando devido ao falecimento do meu pai. O medo de perder mais alguém era muito grande, então esse processo de luto foi muito mais difícil do que eu acho que seria, se a gente pudesse encontrar nossos parentes normalmente para nos abraçarmos e chorar juntos”.
Jônatas Bueno, 36, arquiteto
A psiquiatra Carolina reforça que, devido à pandemia, surgiram os atendimentos on-line e que a saúde psicológica muito ganhou com isso, uma vez que pacientes podem realizar consultas diversas com maior conformo, praticidade e comodidade.
A instabilidade gerada por essas transformações na rotina sugere a busca por ajuda profissional especializada em saúde mental. Sobretudo nos casos em que se percebem desajustes emocionais muito intensos e persistentes. O ideal é recorrer ao apoio profissional o quanto antes.

Na linha de frente
Apesar do sofrimento generalizado, a situação pandêmica pode ter sido mais intensa para uns do que para outros. Entre essas pessoas, algumas profissões exigiam, além do enfrentamento da pandemia, o convívio com mortes, números e situações de crises. Como foram com profissionais da saúde e jornalistas.
Mesmo que acostumados a lidarem com notícias ruins e grandes perdas, profissionais da saúde lidam com essa situação de uma forma mais acelerada, além das pressões emocionais e mentais. É o caso de Anna Paulina Carneiro, 29 anos, que atua como clínica geral.
Anna Paulina explica que a falta de preparo dos profissionais da saúde para enfrentar com toda a situação, uma carência durante o período de formação, foi um obstáculo. Ela relata que teve inclusive muita dificuldade para se ‘desligar’ do trabalho, mesmo durante folgas mais prologadas.

“Tive problemas de relacionamentos pessoais por conta disso porque o meu celular virou um instrumento de trabalho todos os dias. Sempre tinha alguém que conseguia meu número e perguntava informações sobre a Covid ou mesmo pacientes que tinham uma piora e eu precisava voltar. Até agora não consigo me desligar e não é porque a gente não quer, é porque não conseguimos mesmo’’
Anna Paulina, clínica geral.
A pandemia também tem sido desafiadora para os jornalistas, que possuem papel fundamental em informar e conscientizar a população. No entanto, durante esse período, os profissionais batalham como nunca contra a infodemia, termo utilizado pela OMS que caracteriza o excesso de informações, muitas vezes imprecisas e equivocadas, a respeito da doença.
Para o repórter do Metrópoles Tacio Lorran, a experiência de cobrir as mortes e os trágico números deixados pela covid-19 foi uma experiência complicada. Apesar de lidar bem com as situações que a profissão envolve, o jornalista foi a Manaus, capital do Amazonas, para cobrir a falta de oxigênio nas unidades de atendimento saúde da cidade, o maior colapso sanitário da história daquela capital.

“Em Manaus eu vi gente perto de morrer, vi gente morrendo, vi gente na fila para conseguir pegar oxigênio, vi gente que estava internada e em desespero por não saber se faltaria oxigênio”. (…)”Mudou muito meu ponto de vista, até mesmo o meu olhar sobre a pandemia”.
Tacio Lorran, jornalista
A jornalista e repórter do Correio Braziliense Bruna Lima também conta sobre as dificuldades de fazer uma cobertura sobre a maior pandemia enfrentada pelo mundo nesse século.
Para Bruna, o sentimento é de estar “remando contra a maré”, pois a dificuldade de fazer seu trabalho nunca foi tão grande. A repórter ainda explica que essa situação tem afetado não só sua vida profissional, mas, também, sua saúde.
“Eu acho que ninguém está bem e quem precisa estar perto e lidar com essas notícias e números também não está”. (…) “Eu perdi parentes próximos para a covid. É muito triste ter que continuar escrevendo sobre isso”.
Bruna Lima, jornalista

Na área de educação, não é diferente. Os professores precisam cuidar do estado emocional deles e dos alunos. A professora da educação infantil, Jéssica da Silva, 30 anos, foi um desses profissionais que enfrentou os desafios para desenvolver a aprendizagem adequada dos seus alunos.
Ela afirma que o comportamento dos estudantes mudou consideravelmente durante o ensino remoto. Conta que para se manter bem durante o pico da pandemia e passar segurança a seus alunos, foi necessário se apoiar em “laços da vida” .
“Alguns sempre perguntavam o que era Covid e comentavam que um parente morreu disso. Muitos deles não tinham recursos para acessarem as aulas ou não tinham acompanhamento dos pais.’’(…) “quando vejo os bons resultados dos meus alunos, sinto que tudo valeu a pena”.
Jéssica da Silva, 30 anos, professora da educação infantil

Nos últimos meses, muitos estudos foram realizados para avaliar os impactos da quarentena sobre o estado psíquico da população. Um artigo publicado recentemente no Scielo/USP revela a importância do cuidado em relação à Covid-19 e à saúde mental, com foco em conter os riscos de depressão, ansiedade e de outros sintomas emocionais potencialmente prejudiciais.
Consciência com o corpo e a mente
Uma forma eficaz de manter a sanidade mental, principalmente durante o isolamento, é a prática de atividade física. A dificuldade de frequentar academias e aulas coletivas fez com que os atletas de plantão buscassem por atividades mais variadas, inclusive ao ar livre.
Dados do Strava, aplicativo on-line voltado para amantes do esporte, registraram um crescente aumento de adeptos das atividades físicas no ano de 2020. Durante os primeiros meses da pandemia, foram dois milhões de novas adesões ao aplicativo, totalizando mais de 73 milhões de atletas pelo mundo – mais de 9,5 milhões só no Brasil.
O Sport Tracker, outro aplicativo para atletas, também registrou um aumento de 10% no número de praticantes de esporte no último ano.

Apesar dos empolgantes números, a OMS divulgou, em janeiro de 2021, um estudo confirmando que a população brasileira se exercita menos do que deveria. A pesquisa mostra que, nos últimos 15 anos, um em cada dois adultos (47%) no Brasil, não praticam atividades físicas da maneira correta para manter o corpo saudável.
Após um estudo realizado com 16 mil pessoas durante a pandemia, a realidade é que a população brasileira não está preocupada em mudar o resultado. Em um questionário online compartilhado pela revista Veja nas redes sociais durante o ano de 2020, identificou que somente 40% dos entrevistados estavam fazendo algum exercício durante a quarentena.
A atividade física é apontada pelos especialistas como um dos principias antídotos para evitar todo o tipo de doença. Além do desenvolvimento de transtornos mentais a falta de exercícios ainda pode contribuir para o aumento de peso, doenças cardiovasculares como infarto e AVC, diabetes tipo 2 e apneia do sono.
É uma questão que vai muito além da estética, como relata o personal trainner Lucas Morais na reportagem abaixo.
Trabalho experimental realizado pela turma 2020 2 de Redação Digital do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Supervisão do professor Alexandre Kieling.
Estudantes:
ALICE MESSIAS DIAS
CARINNE APARECIDA DE SOUZA CARVALHO
CARINNE APARECIDA DE SOUZA CARVALHO
IGOR CARVALHO PORTO
JAQUELINE FARIAS FERNANDES
JÚLIA LUISA DA SILVA
LARA JACINTO LEAL DA FE
LILIANA LIMA DOS SANTOS
MANUELA DE MELO MOURA
MONICKY YUKA EGUCHI YOSHINO
YASMIN GURGEL SANTOS
