Em um ambiente em que o futebol conquista o coração do povo, o crescente valor dos ingressos pode ser uma barreira.

O futebol sempre foi considerado um esporte de todos, tanto pela facilidade de prática quanto pelas festas promovidas nos estádios pelos torcedores de todas as classes sociais. Se no início do século passado a sua popularização foi responsável pelo crescimento do esporte, hoje a espetacularização promovida pelos responsáveis por organizar os grandes eventos trazem mudanças ao futuro do jogo. Com a vinda da Copa do Mundo, este processo torna-se ainda mais evidente e abre uma discussão sobre os prós e contras na elitização desse esporte que é tão popular.
Os interesses comerciais transformaram o jogo de futebol em grandes espetáculos, com gastos extravagantes e pouco resultado prático, o torcedor passou a colocar na ponta do lápis e questionou o real valor da vinda destes eventos, para decidir se o preço pago não era alto demais. O processo de elitização do futebol não é novo, está em curso e em um ritmo cada vez mais acelerado. Apesar de se ter a ideia de que é uma consequência dos tempos modernos, o futebol pode ser moderno e democrático.
De acordo com uma pesquisa feita pela Football Association (FA), 52% dos entrevistados admitem pensar em futebol ao menos uma vez por minuto, e 94% confessaram fazer planos após a divulgação do calendário onde dita as principais competições.
Esse esporte começa sendo um apreço, mas muitos encontram nele um espaço para mudar de vida, pois ele permite que equipes com menor capacidade de investimento financeiro consigam fazer frente aos supertimes. Um exemplo é o América-MG, que chegou às semifinais da Copa do Brasil eliminando times considerados mais fortes.
Porém, nos últimos tempos, essa situação vem sofrendo mudanças. Cada vez mais há dificuldade na relação entre gastos e sucesso esportivo, sendo diretamente proporcional. Pode-se verificar tal realidade a partir dos orçamentos dos finalistas da UEFA Champions League (UCL), a mais prestigiosa competição entre clubes de futebol, onde muitos investiram mais do que foi liberado.
Mesmo os clubes, mostrados no infográfico, fazendo parte dos mais ricos do mundo, a relação foi deficitária em alguns dos casos, o que fez com que iniciativas para garantir mais dinheiro para investimento se tornassem praticamente obrigatórias, ignorando todos os princípios do esporte. É o caso da polêmica Europa Super League (ESL), onde a competição foi anunciada por um grupo formado pelos times mais ricos da Europa como resposta ao novo formato da já citada UCL.
À primeira vista, parece ser uma iniciativa boa: confrontos entre os maiores clubes do mundo acontecendo várias vezes por ano, a exemplo das grandes ligas americanas. Mas, analisando a fundo o formato, percebe-se que ele é uma tentativa de exclusão dos clubes menores, criando um abismo ainda maior do ponto de vista econômico.
Dos clubes mais ricos da Europa, apenas Zenit e Paris Saint Germain não faziam parte da ESL, que prometia cifras milionárias para seus participantes graças ao financiamento obtido com a JP Morgan, empresa de serviços financeiros na América Latina.

Foto: Martha Kelner
A liga não teve o sucesso esperado pelos chamados cartolas – empresário de futebol – em razão dos protestos de torcedores, principais afetados por essa decisão, seja por descaracterizar o que torna o futebol emocionante, seja diretamente com aumento dos preços dos ingressos. Tal aumento é uma das alternativas encontradas pelos clubes para financiar a montagem dos elencos, mas isso afeta diretamente os torcedores mais pobres, principalmente no Brasil, onde a desigualdade social afeta a maioria da população.
Impactos no país do futebol
De acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, 24,7% da população brasileira estava abaixo da linha da pobreza. Com a pandemia, a situação econômica desses indivíduos se agravou. Um estudo do grupo Food for Justice da Universidade de Berlim, feito durante a pandemia, apontou que 59,4% das residências do Brasil se encontram em situação de insegurança alimentar, ou seja, famílias que se preocupam com a possibilidade ou a realidade de não ter alimento suficiente. Um cenário no qual o fenômeno de elitização do futebol tem grande impacto. Se a maioria da população é pobre e mal tem o que comer, certamente não frequentará os estádios.

A herança dos novos estádio construídos para a copa do mundo de 2014 teve consequências no acesso de público às chamadas arenas de futebol. Estádios centenários como o Maracanã foram convertidos nesses modernos espaços que são pensadas para o consumo e não para a cultura futebolística. Ou o caso do segundo time mais popular do país, o Corinthians, abandonou o Pacaembu em prol da Arena Corinthians. (posteriormente rebatizada como Arena Neo-Quimica graças a uma negociação de naming rights).
O conforto proporcionado nestes espaços pode parecer convidativo, mas custa caro. Soma-se a isso a inflação do mercado da bola (causada pelos times-empresa-estados citados mais cedo no texto), e quem paga a conta é o torcedor.
Outro fator que agrava a situação é que o valor do ingresso não é o único gasto dos torcedores, há também transporte, alimentação e produtos oficiais do time. Um dos entrevistados relatou que “o custo da cerveja e alimentos no estádio aumentou muito”. Para não deixar de acompanhar seu time, ele conta que “muitos desses produtos eu parei de consumir”. Um processo que é confirmado pelo antropólogo Amdreia Sander Damo, especialista em cultura do futebol brasileiro, em entrevista ao Puntero Izquierdo e ao Ludopédio.
“Há um processo de elitização do futebol que está em marcha há algumas décadas, tendo se intensificado com a arenização. A elite clubística e a grande mídia têm achado isso ótimo, porque o faturamento aumentou.”
Andrei Sander Damo, antropólogo
Para os torcedores que não têm condições financeiras de acompanhar seu time, eles podem assistir aos jogos de casa. Entretanto, essa não é uma solução eficiente como relata outro entrevistado: “outra questão importante são as transmissões, muitas vezes (acontecem) em canais pay-per-view ou em canais que não são da TV aberta”, gerando mais gasto. No gráfico abaixo podemos analisar a verba repassada nos jogos da Libertadores dos times Flamengo, Palmeiras e Grêmio, entre 2018 a 2020.
Dos 4 torcedores de grandes clubes da Série A ouvidos nessa reportagem, foram unânimes em dizer que a elitização dificulta o acesso ao estádio e ao consumo dos produtos oficiais do clube.
“ notoriamente os jogos passaram a ser frequentados em sua maioria por pessoas de classe média para cima, portando e consumindo produtos oficiais – de preço elevado, diga-se de passagem.”
Juliana Pinho, torcedora do Flamengo
Essa realidade dos torcedores se complica quando envolve famílias numerosas. Ir em grupo ao estádio, adquirir fardamento dos clubes ficou proibitivo.
“(A elitização) me afeta pois minha família é composta por 5 pessoas e acaba ficando caro ir ao estádio, comprar camisas oficiais e produtos da marca.”
Anderson Santos, torcedor do Vasco da Gama.
Vitor Brine, jornalista esportivo da emissora ESPN, foi mais distante em seu programa “Tabelinha” e previu o que pode ser a consequência mais trágica do processo iniciado agora:
“O futebol é para todos. Mas se virar só um negócio e não respeitar a alma, um dia, não hoje, pode ser daqui a 200 anos, o futebol vai acabar”.
Vitor Brine, jornalista esportivo da ESPN
Com o falso argumento de que os clubes precisam faturar, o futebol vai ficando cada vez mais distante da classe trabalhadora, do torcedor apaixonado. Com ingressos caros, jogos exclusivos na TV paga e nos canais de streaming na internet a turma das populares fica cada vez mais longe do esporte. O futebol deixa de ser de massa, do povo, e se torna uma máquina de lucros e um espetáculo somente para quem tem condições de pagar. Vai se distanciando do que torna o futebol tão apaixonante é seu caráter horizontal e democrático. Afunilando ainda mais, o acesso dos torcedores e a quantidade de clubes que conseguem competir nas grandes ligas, há sério risco do esporte perder sua identidade.

