Transporte público do Distrito Federal: um retrato em números

População de menor renda é a que mais utiliza o serviço.

O ônibus é o segundo meio de transporte mais utilizado no Distrito Federal no caminho ao trabalho (38,2%). Ele fica atrás só do automóvel, utilizado por 47% da população. Os dados são da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios – PDAD 2018, realizada pela Companhia do Desenvolvimento do Planalto Central (Codeplan). O ônibus ocupa o primeiro lugar, especificamente, entre os grupos de média-baixa e de baixa renda. Ambos os grupos abrangem 15 cidades satélites, das quais duas (Ceilândia e Samambaia) possuem estações de metrô.

A pesquisa da Codeplan revela, ainda, que o Plano Piloto é onde a maioria trabalha. Jefferson Hishiyama, mestrando em Planejamento de Transportes no Programa de Pós-Graduação em Transportes da Universidade de Brasília (PPGT-UnB), enfatiza que a função social do transporte público é fornecer às pessoas o acesso a oportunidades urbanas – emprego, estudo, lazer e saúde. Partindo dessa perspectiva, ele avalia o sistema de transporte do DF em seu estudo de dissertação.

Hishiyama baseia a avaliação na diferença a partir do acesso ao emprego e à educação quando se tem o carro e quando se depende da rede pública. Ele observa que a maior parte das oportunidades se concentram no Plano Piloto, em Taguatinga e na Ceilândia. Portanto, a maior frequência de linhas é no sentido “RA-Plano Piloto”.

“a situação faz com que viagens por ônibus entre as próprias regionais acabem sendo inibidas”.

Jefferson Hishiyama, mestrando em Planejamento de Transportes

QUEM ANDA DE ÔNIBUS

Ágata Reis, 19 anos, mora no Gama e trabalha no Guará. Na ida, ela pega o ônibus direto, pouco antes das 7 da manhã. Mas, na volta, ela precisa pegar o metrô e três ônibus, pois não há a mesma opção sem conexões como havia mais cedo. Existem apenas duas linhas que fazem o trajeto Gama-Guará de modo direto, de acordo com a programação do DF no Ponto. Há dois horários de saída do Gama – de manhã – e de volta do Guará – ao final da tarde, correspondendo aos períodos de pico.

A integração entre diferentes veículos se torna uma necessidade. O sistema de bilhetagem eletrônica unificada, controlado pelo BRB, promove essa conexão. E esse é um dos atributos que Hishiyama aponta como bons no DF, além da oferta de sistemas de massa – BRT, Bus Rapid Transit, Ônibus de Trânsito Rápido, e metrô – e das faixas exclusivas nas regiões de tráfego intenso. Mas ainda faltam melhoras na eficiência, aponta ele. Mais pontos de integração e maior conforto tornariam o sistema mais atrativo aos brasilienses.

Hishiyama notou que a acessibilidade a emprego e estudo por ônibus é mais restrito até na Asa Norte e na Asa Sul, onde ele esperava não ver níveis tão diferentes, comparado ao carro.

“A configuração da malha viária de Brasília e dos itinerários das linhas que formam a rede de atendimento. Na Asa Sul e Asa Norte, por exemplo, as linhas de ônibus se concentram nos eixinhos, W3 e L2, sempre no sentido norte-sul. Quando uma pessoa deseja ir das quadras 600 às 900 (…), demora muito mais tempo a viagem por ônibus”.

Jefferson Hishiyama, mestrando em Planejamento de Transportes

Voltando a rotina de Ágata, no dia-a-dia, ela gasta aproximadamente 1 hora para ir, e um pouco mais para voltar. É o tempo de viagem mais registrado pela pesquisa “Como anda meu ônibus”, realizada pelo Instituto de Fiscalização e Controle (IFC) com apoio do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

A maior parte dos usuários de transporte público mora em áreas periféricas ao Plano Piloto. A psicanalista Marina Rodrigues, mestre em psicologia clínica pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada – ISPA, lembra que usar esse tipo de transporte no DF ainda é sinal de inferioridade econômica, sem falar que, em razão da pandemia de Covid-19, as pessoas tem o receio da aglomeração.

“ter status é ter carro”.

Marina Rodrigues, psicanalista

A assessoria do Secretário de Estado de Transporte e Mobilidade do DF (Semob), Valter Casimiro Silveira, informou que a pasta implementou medidas para evitar a propagação da doença desde o início da pandemia. Uma delas é a higienização dos veículos a cada viagem, pelos operadores do Sistema de Transporte Público Coletivo do Distrito Federal (STPC/DF). Outra é que todas as janelas dos ônibus devem permanecer abertas. Entretanto, os ônibus do BRT não oferecem essa opção, já que foram projetados com ar condicionado e sem abertura dos vidros. Em junho de 2020, uma reportagem do Bom dia DF registrou reclamações.

A experiência de Ágata é que as janelas dos veículos do BRT continuam sem abrir. Um anúncio oficial passa nos ônibus, informando que eles são higienizados a cada parada numa estação. Porém, “só Deus sabe” se essa limpeza é feita de verdade, diz ela. Outra coisa que ela não vê é a disponibilização de álcool em gel, um item obrigatório para toda a frota, segundo a Semob. Os dispensadores do produto deveriam estar nos pontos de fácil acesso e visibilidade, como nas áreas de embarque, fornecido pelas operadoras do STPC/DF, informou a Secretaria.

A pesquisa do IFC destaca a característica pendular do transporte público no DF. Isso causa superlotação pela manhã, no trajeto Satélites – Plano, e pelo início da noite, no trajeto oposto. Essa sobrecarga piora a percepção das pessoas sobre o serviço.

“Há quem esteja passando pela pandemia em um transatlântico e há uma enorme maioria que está se agarrando a pedaços de madeira para sobreviver.”

Marina Rodrigues, psicanalista
Fonte: Como anda meu ônibus – IFC/2020

O SISTEMA

A parte rodoviária do STPC/DF é composta pelo serviço básico e pelo complementar. O básico é o mais utilizado, e opera da seguinte forma: o distrito é dividido em cinco regiões chamadas bacias; em cada bacia opera uma empresa de transporte. E a atuação da empresa depende de concessão pública do GDF. O serviço complementar inclui linhas rurais e executivas, sendo operado pela Sociedade de Transporte Coletivo de Brasília (TCB) e outras 12 operadoras.

Concessão pública: Contrato firmado entre a administração pública e uma empresa privada. A empresa passa a executar e explorar economicamente um serviço público, sendo remunerada pelas tarifas pagas pelos usuários do serviço.

O que é uma concessão pública. Portal da Indústria.
Fonte: Como anda meu ônibus – IFC/2020

A construção do BRT em grande escala fez parte de um projeto que já completa mais de uma década desde sua elaboração inicial. O Governo Federal queria otimizar a mobilidade urbana nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 (Brasília, São Paulo, Natal, Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza, Manaus e Cuiabá). Muitos planos mudaram, atrasaram, obras foram descartadas e outras incluídas e bilhões de reais foram gastos. A Copa do Mundo ocorreu há 7 anos e ainda há obras incompletas.

Uma reportagem do Bom Dia DF do ano passado mostra a estação número 12 do BRT, na Candangolândia, inacabada e acumulando lixo. Ela havia começado a ser construída em 2014, integrando o eixo Sul do sistema. A Semob diz que ainda faz ajustes no projeto de operação e manutenção dos eixos Sul e Oeste do BRT. E o documento está previsto para ser apresentado em audiência pública no segundo semestre de 2021.

A população avaliou vários aspectos do sistema através de questionários que o IFC distribuiu na realização da pesquisa. As notas vão de ótimo a péssimo. Cerca de 36,8% dos respondentes avaliam como “regular” o estado de conservação dos ônibus. O único item que recebeu maioria absoluta de notas positivas foi o da distância até as paradas, visto por 36,4% como “bom”. Isso significa que elas estão bem localizadas geograficamente, indica a análise do Instituto.

No entanto, 64% vê como péssima ou ruim a proteção contra o sol ou chuva oferecida nos pontos. E a iluminação pública dos locais também recebeu avaliações negativas por mais de 60% das pessoas. À noite, a escuridão em volta do ponto de ônibus é considerado um fator perigoso. O item que avalia a sensação de segurança também recebeu maioria de respostas (37,6%) em “péssimo”.

Hishiyama observa no decorrer de sua pesquisa que oportunidades urbanas podem ficar mais acessíveis com o aumento da cobertura do transporte público, ou seja, quando ele estiver mais perto das pessoas e de seus destinos e mais eficiente. Essa é a solução mais fácil de ser implementada.

“Sistemas de ônibus convencionais têm a versatilidade de ajustes (…) dos itinerários”

Jefferson Hishiyama, mestrando em Planejamento de Transporte

Além disso, esses ajustes demandam menos custos em infraestrutura, comparados aos sistemas de massa. Para os mais complexos, como o BRT, ele ressalta que o sistema deve trabalhar em rede, não em linhas isoladas. Os pontos devem garantir a integração de maneira rápida, segura e prática. Mas para que mudanças realmente ocorram, a população precisa participar, aponta Hishiyama.

“Juntamente ao trabalho, educação, saúde, lazer e outros, o transporte também é um direito social nosso. Temos o direito de exigir um transporte público melhor.”

Jefferson Hishiyama, mestrando em Planejamento de Transportes

O METROPOLITANO

De acordo com a PDAD 2018, 3,6% da população utiliza o metrô para ir ao trabalho. Ele circula por seis regiões administrativas (Plano Piloto – somente Asa Sul -, Águas Claras, Ceilândia, Samambaia, Guará e Taguatinga) do total de 33 que compõem o distrito. Mas, desde 19 de abril, os metroviários do DF estão em greve. Então a circulação dos trens está em 80% da capacidade nos períodos de pico, variando nos outros horários e dias da semana.

O funcionamento só não parou completamente por determinação judicial, segundo nota publicada pelo SindMetrô/DF. O metrô faz parte do trajeto que o professor Alex Vidigal, da Universidade Católica de Brasília, percorre até o trabalho. Ele lamenta a greve e diz que “quando [o metrô] está funcionando plenamente, é um ótimo transporte coletivo”.

Vidigal mora em Águas Claras, onde o metrô é o segundo meio de transporte mais utilizado. Desde a década de 1990, o desenvolvimento da infraestrutura da cidade já era pensado para viabilizar a implantação do metrô, inaugurado oficialmente em 2001. O professor diz que optou pelo transporte público por achar que o carro próprio gera muitos gastos, considerando gasolina, revisões e IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores – para os carros com menos de 15 anos, no DF). 

Um dos projetos de parceria público-privada do GDF, sob a gestão de Ibaneis Rocha, foca no metrô. É o projeto de Concessão para Gestão, Operação e Manutenção dos Serviços de Transporte Metroviário do DF, que pretende aumentar a frota de trens. Dessa forma, o serviço se tornaria mais eficiente, pois diminuiria os intervalos entre viagens, informa a Semob. O plano é aumentar a composição de 24 trens no horário de pico para 40, sendo 5 deles reservas. A proposta está sob análise do Tribunal de Contas do DF (TCDF).

Parceria público-privada: “É quando há algum tipo de pagamento pelo ente público em razão de a tarifa ou conjunto de receitas serem insuficientes para remunerar a prestação do serviço pelo concessionário. Ocorre na modalidade administrativa ou patrocinada.”

Aliadas da mobilidade, parcerias público-privadas avançam no DF. Agência Pública. 32/02/21
Imagem: Companhia do Metropolitano do Distrito Federal

As linhas do metrô seguem a lógica de conectar três pontos principais: Plano Piloto, maior centro de oportunidades, e as duas cidades mais populosas, Ceilândia e Samambaia. Juntas, as linhas formam um “Y”, um formato no qual Hishiyama vê restrições até mesmo dentro de Brasília, onde não há opções de destino mais diversificadas do que Asa Sul e Rodoviária.

“Quando estou me deslocando, a melhor forma é o metrô, muito bom como transporte coletivo.”

Alex Vidigal, professor

A Companhia do Metropolitano do DF oferece um sistema informativo que os pontos de ônibus ainda não têm. Os painéis, ou as chamadas “televisõeszinhas”, das estações mostram quanto tempo falta para o trem chegar. Elas foram inauguradas em 2017. Esse sistema é um dos maiores diferenciais, segundo Ágata. Ela acha o metrô mais rápido e relata que tem mais incertezas com os ônibus. Às vezes, ela chega na parada e tem “que ficar esperando um tempão”, conta. Não há como saber onde o veículo está.

No dia 7 de junho, rodoviários da Viação Marechal anunciaram greve e mais de 400 ônibus deixaram de circular. Sem saber da paralisação, Ágata esperou normalmente pelo ônibus na manhã daquele dia. Primeiro, pensou que ele estava atrasado, mas na verdade o veículo não viria. Então ela recorreu ao serviço de transporte particular Uber para chegar ao trabalho a tempo. Na tarde do mesmo dia, a Marechal voltou a circular, após um acordo entre os trabalhadores e a empresa.

Como a psicanalista Rodrigues, o professor Vidigal vê, no DF e no Brasil, a cultura de que ter um carro é sinal de superioridade. Para ele, o transporte coletivo é parte muito importante da estrutura social, e o sistema do DF ainda é “muito limitado”. Para além do trabalho, Vidigal utiliza o ônibus e o metrô de forma geral, para ver amigos e familiares.

“Tem horários da noite que não tem ônibus circulando. É uma falta de respeito, para uma capital”.

Alex Vidigal, professor

Mas dependendo da cidade e do horário, a programação deixa a desejar. Nessa situação, ele opta pelo Uber. É uma escolha que ele evita, mas que às vezes é necessária.

Outro projeto de mobilidade da Semob é tirar do papel o VLT – Veículo Leve sobe Trilhos. O VLT também fazia parte dos planos pré-Copa de 2014 e nunca foi entregue. Em 2018, 39% das obras prometidas para a Copa de 2014 no DF não estavam concluídas, contabilizou o Correio Braziliense. O VLT da W3 foi discutido em audiência pública no ano passado e atualmente o projeto passa por ajustes, a pedido do TCDF.

A Secretaria não se manifestou sobre expandir as linhas de metrô para outras cidades satélites, e os projetos em curso nas regiões norte, sul e oeste do DF se destinam ao sistema BRT. Ainda que a expansão do metrô seja desejável do ponto de vista dos usuários, Hishiyama destaca os fatores que podem impossibilitar a obra. Por exemplo, um baixo potencial de demanda, as características do solo e o alto custo da estrutura metroviária aos cofres públicos.

O pesquisador também enfatizou uma das “boas práticas” no planejamento da mobilidade urbana: a diversificação do uso do solo. É um planejamento que diminui a dependência de carro particular e estimula tanto o uso do transporte público quanto o ciclismo e a caminhada. E ele aponta o sistema de ônibus de Curitiba, do tipo “tronco-alimentador”, como exemplo de promoção de conectividade e mobilidade.

Recentemente, o secretário Valter Casimiro assinou contrato com a Tembici (MI Transportes Sustentáveis Ltda). A empresa vai instalar e operar o Sistema de Bicicletas Públicas Compartilhadas no Distrito Federal. Os primeiros pontos ficarão na UnB, Asa Norte, Asa Sul e Sudoeste, oferecendo um total de 500 bicicletas.

Texto, ilustração e apuração: Áurea Batista, Maria Luísa Martins e Raphaela Peixoto

Deixe um comentário