As Polêmicas de Dalai Lama

Entenda os conflitos a respeito da imagem do atual líder espiritual e político do Tibete nos últimos tempos.

O Dalai Lama, renomado monge budista conhecido por sua mensagem de paz e compaixão, tem sido alvo de grandes debates ao redor do mundo. Em um vídeo, é líder espiritual é visto pedindo a uma criança que “chupe a sua língua” após o menino ter ido comprimentá-lo. O ato gerou críticas que colocaram em xeque sua reputação e suas ações.

O episódio aconteceu no dia 28 de fevereiro de 2023, em um evento público da M3M Foundation no subúrbio da cidade de Dharamsala, na Índia, onde se localiza o templo do líder religioso. A equipe de imprensa de Dalai Lama já se pronunciou sobre o ocorrido se desculpando com a criança e sua família pelo importuno.

“Sua santidade com frequência provoca as pessoas de maneira inocente e jocosa. Ele pede desculpas pelo incidente”.

Comunicado da assessoria do Dalai Lama

Em entrevista, uma senhora adepta a religião, que pediu para não ser identificada, relatou: “Acreditamos na iluminação, no equilíbrio do universo e assim seguimos os ensinamentos de Buda. Aprendemos a alcançar a libertação que seria o fim do nosso sofrimento humano e conseguimos isso através da meditação onde nos desprendemos de tudo que é passageiro. Na minha opinião, esse tipo de atitude de pedir a uma criança que o beijasse foi algo desrespeitoso, por mais que tenha sido chamado de brincadeira pelo o que eu vi no jornal.”

A conselheira Ana Paula Matias, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança, explicou: “A primeira coisa importante de se analisar é que as crianças têm direitos, emoções, sentimentos e vontade própria que devem ser respeitadas. Olhando para o Dalai Lama como uma figura pública, ele ainda deve ter cuidado com suas atitudes por mais que seja considerada uma brincadeira, pois o que ocorreu naquele vídeo foi um ato totalmente condenável. E esse tipo de acontecimento mais uma vez nos trás um tema tão delicado e importante o direito da criança que deve ser melhor trabalhado e abordado.”

O historiador Eustáquio Vidigal deu sua opinião a respeito: “Diante do contexto, entendo que o terrível acontecimento está muito mais relacionado ao homem, Tenzin Gyatso, do que ao seu título de Dalai Lama. Seria certo condenar toda a Igreja Católica por um ato de um bispo ou de um padre? A conduta do Dalai Lama, assim como a de outros religiosos que usam o manto da religião para abusar de crianças, é inaceitável e não existem justificativas para tais comportamentos. Claro que a posição de um grande líder mundial traz uma responsabilidade ainda maior por parte do homem, que dificilmente se separa do cargo de Dalai Lama. Outro agravante é a omissão das autoridades religiosas diante dos fatos, quase não há punições para esses religiosos. No caso do Dalai-lama, para piorar, as autoridades tentaram minimizar a situação.”

Fonte: Página oficial da BBC

Sucessora

Entretanto, não é a primeira vez que o religioso se envolve em controvérsias. Uma de suas principais polêmicas é a respeito de comentários machistas. Em 2019, o líder religioso deu uma entrevista à BBC onde foi questionado sobre a possibilidade do próximo Dalai Lama ser uma mulher. Ele disse, sorrindo, que sua sucessora deveria ser bonita.

“Se uma Dalai Lama mulher vier, ela deverá ser mais atraente”.

Dalai Lama

A aluna de jornalismo Samara Oliveira foi convidada a comentar sobre essa essa questão: “Como mulher esse tipo de fala é desanimadora. Ser vista como um objeto independentemente da posição que eu ocupe me dá uma sensação de náusea. Saber que um “líder religioso(e teoricamente político)” diz isso é como retroceder. Mas não há muito que se esperar de um homem em posição de poder. Monge, padre, rabino, todos continuam sendo homens que ao terem o poder da influência se veem imunes a todo tipo de moral. Infelizmente se isso foi o que a mídia conseguiu captar, é porque por baixo dos panos existe uma quantidade inesgotável e repulsiva de machismo e pedofilia.”

Assédio e Corrupção

Os jornalistas franceses Élodie Emery e Wandrille Lanos investigaram algo que denunciaram como a “Lei do Silêncio”, dentro da religião budista em que há relatos de de abuso, violência, corrupção e acusações contra o Dalai Lama e seu assessor e tradutor Matthieu Ricard, por omissão.

Foi publicado um livro “Budismo, a lei do silêncio” que conta sobre as investigações que ocorreram em centros budistas espalhados pelo Ocidente nos últimos 40 anos. Também foram escutados depoimentos de 32 discípulos sobre suas situações de abuso envolvendo os mestres. Ainda existem casos de crianças que foram vítimas de violência sexual, onde foram retiradas de seus pais e forçadas a viver como parceiras dos mestres.

Uma figura bastante recorrente é o mestre Sogyal Rinpoche, fundador da Rigpa, que foi acusado por oito ex-discípulos de agressão sexual. Em 2017, ele chegou a ser alvo de uma punição simbólica e foi obrigado pelo dalai-lama a se aposentar antes da hora

Para os autores, esses relatos não são casos isolados, mas algo que corrompe o sistema do budismo tibetano. A causa disso é o acobertamento por parte de grandes líderes como o Dalai Lama, que já havia sido alertado em 1993 durante encontro com outros membros europeus e americanos.

“Até agora, as autoridades espirituais tibetanas têm ignorado as vozes das vítimas, alegando repetidamente que o assunto não é de sua responsabilidade. Tentativas de dentro para abordar a questão do abuso sexual nas comunidades foram enfrentadas com frieza ou hostilidade direta”

Élodie Emery e Wandrille Lanos

Europa para europeus

Outro ponto de discórdia é com relação a falas xenofóbicas ditas em 2018, onde Dalai Lama sugeriu que a Europa deveria ser mantida somente para os europeus, conforme o aumento do número de imigrantes e refugiados no continente. O líder religioso afirmou que deve ser oferecido acolhimento, ensino e treinamento para os que vieram de fora, porém que eles devem retornar ao seus países de origem.

“Toda a Europa (irá) eventualmente se tornar um país muçulmano? Impossível. Ou país africano? Também impossível ”….(melhor)“ manter a Europa para os europeus ”.

Dalai Lama

A advogada Camila Sena, especialista em imigração, reage às declarações do Dalai Lama e destaca os direitos dos imigrantes.

É meu dever defender os direitos dos imigrantes e refugiados em todo o mundo. Atualmente, há uma crescente hostilidade em relação a esse assunto em muitas partes do mundo, mas especialmente na Europa, onde vemos uma ascensão preocupante de partidos políticos de extrema direita que promovem uma agenda anti-imigração. No entanto, gostaria de discorrer sobre as falas do líder espiritual tibetano Dalai Lama, que recentemente afirmou que “a Europa pertence aos europeus”.

Camila Sena, advogada

Sena ainda aponta questões sensíveis nesta discussão.

Esta declaração é extremamente preocupante e, infelizmente, é um exemplo do progressivo sentimento nativista e de exclusão em todo o mundo. Ele como líder de grande influência, apontado como sinônimo de sabedoria e compaixão, deveria ter mais cuidado com suas colocações e opiniões pessoais, uma vez que, elas influenciam pensamentos e atitudes de milhares de pessoas. Como defensora dos direitos dos imigrantes e refugiados, é importante destacar que a Europa e outros países do mundo tiveram papel ativo na colonização de muitas nações da África, Ásia e América Latina, o que, por sua vez, resultou em sérios desafios sociais, econômicos e políticos nos países colonizados e em suas populações. E, portanto, os países colonizadores têm uma responsabilidade em ajudar as populações que foram afetadas por sua exploração passada. Além disso, é importante lembrar que os imigrantes e refugiados são, muitas vezes, vítimas do fracasso das políticas de seus países de origem e das consequências das ações dos países colonizadores. Muitos deixam suas casas e famílias em busca de segurança, emprego e outros recursos básicos para sobreviver.

Camila Sena

A advogada de imigração também alerta para a a responsabilidade dos governos europeus.

Humanitariamente, considero ser da responsabilidade dos países mais desenvolvidos oferecerem proteção a essas pessoas, especialmente aqueles que foram afetados pela pobreza, conflitos armados, guerras, perseguição e outras formas de violência e discriminação. Ao longo da história, a imigração tem sido uma força para o avanço social e econômico dos países. Ajudando os imigrantes, estamos, de fato, ajudando nossos próprios países a prosperar e, assim, criando um mundo melhor para todos. Portanto, reitero minha posição como defensora da imigração, e que, é da responsabilidade de todas as nações oferecer ajuda e proteção a esses indivíduos, independentemente de onde eles vêm. Nenhum ser humano é ilegal e, como membros do mesmo planeta, temos o dever de cuidar uns dos outros, independentemente de cor, nacionalidade, religião ou outros fatores.”

Quem é Dalai Lama?

Para compreender melhor o porquê dessas declarações terem gerado tanta repercussão e posicionamentos é necessário conhecer quem é essa figura. Então foi consultado o historiador Eustáquio Vidigal que disse: “Primeiro precisamos deixar claro que Dalai-lama não é uma pessoa e sim um título. A pessoa escolhida para o cargo seria a reencarnação de Buda na terra.”

Seu nome verdadeiro é Tenzin Gyatso, nasceu em uma pequena cidade do Tibete chamada de Taktser, no dia 6 de julho de 1935. Ainda quando criança, com apenas dois anos de idade, foi reconhecido como o 14º Dalai Lama.

Em sua autobiografia, “Minha Terra e Meu Povo” é descrita a experiência de quando ele, ainda pequeno, identificou com sucesso vários itens pertencentes ao 13º Dalai Lama, seu antecessor. O religioso também escreveu que lhe foram entregues objetos nos quais ele teria que adivinhar qual pertencia à sua encarnação anterior e qual seria apenas algo comum. Ele respondeu corretamente, em ambos os casos.

Quando ainda tinha apenas 15 anos, o líder espiritual assumiu o poder do Tibete em 1950, porém o cenário do país era de confronto com a China, o que acabou resultando em seu exílio alguns anos depois, em 1959. Antes de fugir para a Índia, liderou esforços para modernizar o país enquanto preservava sua cultura e tradições.

Desde aquela época, Dalai Lama sempre se pronunciou a favor da paz, dos direitos humanos e da não-violência. Em 1989, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços inabaláveis ​​para resolver amigavelmente a questão do Tibete, defendendo a autonomia e buscando através do diálogo com as autoridades chinesas meios de resolver essa questão.

Aos 87 anos de idade, Dalai Lama ainda continua sendo uma figura amplamente admirada e respeitada em todo o mundo, apesar das polêmicas e controvérsias. Além disso, alguns críticos alegam que ele também é considerado um objeto de contradições dentro do próprio Tibete, pelo seu regime autoritário dentro da comunidade, enquanto outros questionam a legitimidade de sua reencarnação e papel político.

Produção Maria Eduarda Gonçalves Ribeiro

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