Vini Júnior: o guerreiro da inclusão

Vinicius Júnior, um dos melhores jogadores da atualidade, vem encontrando seu grande rival nos últimos anos: o racismo. O primeiro grande caso foi no em 2018, quando o craque ainda jogava pela equipe do Flamengo. Na saída de campo em um clássico contra o Botafogo, no Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, o jogador foi chamado de “neguinho safado” por um torcedor alvinegro. Após isso, o atleta foi vendido ao time espanhol Real Madrid, onde se viu envolvido em novas agressões raciais e uma cadeia de polêmicas.

Em 2021, ao chegar na Espanha, o jovem brasileiro foi chamado de macaco pela torcida do Barcelona. Meses antes da Copa do Mundo no Qatar, no ano de 2022, mais um problema para Vini: suas danças, dribles e alegria ao jogar também viraram assunto na mídia espanhola. O jogador Koke, da seleção espanhola e capitão do Atlético de Madrid, comentou em uma entrevista que entenderia a revolta e racismo da torcida caso Vinicius fizesse um gol no estádio rival e comemorasse dançando. Na mesma polêmica, o agente El Chiringuito, personagem muito influente no futebol espanhol, disse no maior programa esportivo local para o jogador brasileiro “parar de fazer macaquice”.

Logo após esses acontecimentos, veio o fatídico clássico contra o Atleti, (termo como o Atlético de Madrid é chamado por seus torcedores). O jogo foi no estádio Wanda Metropolitano da equipe Colchonera, na Espanha, a torcida rival fez um coro na entrada do estádio cantando “Vinícius eres un mono” (“Vinícius é um macaco”). A manifestação racista chocou o mundo do futebol tanto pela quantidade de pessoas envolvidas quanto pela ausência de punição aos agressores.

Após a Copa do Mundo de 2022, Real Madrid e Atlético de Madrid se enfrentaram novamente, pela Copa do Rei, outra vez no estádio Wanda Metropolitano. A atitude dos torcedores rivais foi ainda mais covarde e agressiva. Eles enforcaram bonecos vestidos com camisas do craque brasileiro ao longo de diversos pontos turísticos da cidade e com a frase “Madrid odeia o Real”.

Fonte: Uol.com

Por fim, o caso mais recente foi o estopim para a comoção mundial contra os atos de racismo. Tudo aconteceu em um jogo válido pelo campeonato espanhol contra o Valência no qual Vinicius foi chamado de macaco desde o momento em que o ônibus chegou ao estádio adversário. Revoltado com a situação, no segundo tempo do jogo, o jogador foi até o fundo do campo apontar e denunciar torcedores do Valência que o chamavam de macaco. Não satisfeitos com o tom da agressão, ainda faziam sons e imitavam um macaco. A partida foi paralisada por alguns minutos, porém nada ocorreu. Ao final do jogo, o brasileiro se voltou contra os jogadores adversários e os confrontou. Com isso, ele acabou sofrendo agressões verbal e física, sem que houvesse qualquer represália ou punição da arbitragem. Vinícius foi punido e expulso com cartão vermelho, em razão de uma suposta reação agressiva que não aconteceu, como ficou demostrado por imagens da cena observadas depois da partida.

Fonte: R7.com

Mas como chegou nesse ponto? O Vini é o primeiro atleta ofendido por torcedores espanhóis e europeus?

A Espanha foi um dos principais países colonizadores da América no período das Grandes Navegações. Durante esse período, os espanhóis contribuíram para a implantação de um sistema de escravidão de povos nativos e africanos. Introduziram mudanças estruturais na economia, na forma de organização social e religiosas dos povos nativos, com um processo de dominação ancorado na catequização e no aculturamento baseado nos padrões europeus. Esse período foi o auge do Eurocentrismo, visão que coloca a Europa como o centro de tudo, que é refletido na sociedade até hoje. Essa lógica tem protagonizado históricos casos de xenofobia com imigrantes nos países europeus em geral. Não é possível esquecer que grandes grupos extremistas políticos ligados ao fascismo e nazismo surgiram na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

Há vários exemplos de declarações preconceituosas relacionadas a essa visão eurocêntrica. O jogador de futebol Mbappé, por exemplo, em referência à sua seleção e ao futebol mundial, fez uma declaração antes da Copa do Mundo de 2022 desprezando o futebol africano e sul-americano. Na partida final do evento esportivo, o francês acabou vendo a Argentina vencer de seu time.

O mesmo tom tem aparecido em falas de jogadores descendentes de outras etnias, mas que jogam em seleções europeias.

“Sou alemão quando ganho e imigrante quando eu perco.”

Mesut Ozil

“Quando as coisas vão bem, sou atacante da Bélgica, quando não, sou descendente de congoleses.”

LUKAKU, atacante belga

O preconceito contra estrangeiros não é novo no futebol europeu. Outros jogadores de diferentes gerações também já se manifestaram contra a discriminação dentro das próprias seleções nas quais jogaram, como Zinedine Zidane, Karim Benzema, Patrick Kluivert e Mario Balotelli (foto acima), por exemplo.

A legislação dos países europeus, em geral, prevê punições contra racismo. No Código Penal Espanhol, em especial, já existe um artigo que prevê o crime de racismo. O artigo 510 trata dos “delitos cometidos com ocasião do exercício dos direitos fundamentais e das liberdades públicas garantidas pela Constituição” e prevê pena de um a quatro anos. Atualmente, o Ministério da Igualdade da Espanha vem elaborando um projeto de lei que propõe, além da pena, multas de 300 mil a 500 mil euros. Apesar disso, há leniência das autoridades e das ligas quanto a esses casos, como o próprio Vini que veio a público confrontar o La Liga, por poder não contar com apoio do presidente, principalmente nas redes sociais.

Fonte: Twitter do @vinijr
Fonte: Twitter do @vinijr
Fonte: Twitter @vinijr

Na Champions League, o maior campeonato de clubes do mundo, em um jogo entre Istambul Basaksehir e Paris Saint Germain no ano de 2020, a partida foi encerrada por um caso de racismo vindo por parte do quarto árbitro do jogo para o auxiliar técnico da equipe turca, Pierre Webó. Liderados por toda a delegação do Basaksehir e do PSG, foi decidido que ambas as equipes abandonariam o gramado antes mesmo do fim da partida. Nesse caso, a União das Federações Europeias de Futebol (UEFA), órgão máximo do futebol europeu, suspendeu o árbitro Sebastian Constantin Coltescu da Romênia até o fim da temporada de 2020/2021.

Já no Brasil, no Rio de Janeiro, foi criado um projeto de lei que prevê encerramento imediato das partidas esportivas em casos de racismo no estado. Conhecida como lei Vini Jr, a PL foi aprovada no dia 7 de junho na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Fonte: oglobo.com

Foram realizadas duas entrevistas com pessoas negras sobre o assunto, uma estudante e um atleta.

Isabela Chaves 18 anos, estudante.

Importância da luta do Vini:
“A luta dele contra o racismo é muito importante pois mostra força e motiva outras pessoas negras a não aceitarem esse tipo de atitude. Por ele ser um jogador negro nascido na periferia do Rio de Janeiro e um dos destaques do futebol mundial ele tem um alcance muito maior, mostra para outras pessoas negras que elas também podem chegar lá como ele, tornando-se assim uma figura muito importante na luta contra o racismo e a favor da inclusão.”

Desigualdade:
“Já estivemos em situações piores, porém a luta pela igualdade não acabou e nem está perto de acabar, uma vez que casos de racismo como esse têm sido cada vez mais frequentes.”

Allan Vinicios, Jogador profissional de basquete, 19 anos

Você já sofreu racismo praticando esporte?

“Não, pois o basquete é um esporte que aceita mais a cultura negra.”

Após ver todos os casos de racismo com o Vinicius Junior, você teria medo caso um dia fosse jogar na Espanha?

“Não teria pois isso é uma coisa que já acontece aqui mesmo no Brasil. E se nos escondermos, esse tipo de movimento vai ganhar mais força.”

Você acha que dentro do esporte nós estamos evoluindo ou regredindo em relação a igualdade?

“É difícil analisar o esporte como um todo porque todo esporte tem uma cultura, mas acredito que, sim, estamos evoluindo para a igualdade .”

Produção: Bruno Azambuja, Samuel Portuguez, Francisco Lustosa

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