
Texto, ilustração e apuração: Áurea Batista, Maria Luísa Martins e Raphaela Peixoto
A cidade faz aniversário junto ao periódico, o primeiro da capital
Brasília comemora 61 anos, mas não sozinha. É também aniversário do Correio Braziliense, jornal que a acompanha desde 21 de abril de 1960. A inauguração conjunta do periódico e da capital surgiu de uma aposta entre Juscelino Kubitschek, o então presidente da República, e Assis Chateaubriand, fundador do conglomerado de mídia Diários Associados. Chateaubriand desafiou o presidente, dizendo que “se ele fizesse a cidade de Brasília, no primeiro dia teria um jornal lá,” relata Ana Morelli, mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília.
Morelli é paulistana e chegou em Brasília no ano de 1985. No início dos anos 2000, ela obteve o título de mestre com a tese “Correio Braziliense: 40 anos – Do Pioneirismo à Consolidação”, trabalho vanguardista no estudo da trajetória do CB. Nele, ela analisa a evolução da linha editorial do periódico, bem como a relação dele com a cidade e a cobertura de fatos históricos marcantes. Ela conta que Chateaubriand viu ali a grande “oportunidade de criar o primeiro e maior jornal da cidade”, pois não havia nenhum diário consistente, só “boletins e jornalecos” durante a construção da capital. A Revista Brasília (1957 – 1960) foi uma dessas publicações temporárias. Nela, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) divulgava o desenvolvimento das obras.
OS PRIMEIROS TRAÇOS
O nome “Correio Braziliense” resgata o jornal de mesmo título que existiu no Brasil no século XIX. Poucos meses antes da inauguração da Imprensa Régia pela família real portuguesa, o gaúcho José Hipólito da Costa fundou o antigo CB, cujo primeiro número data de 1 julho de 1808. As páginas eram impressas em Londres e clandestinamente enviadas ao Rio de Janeiro, e circularam até 1822. Morelli escreve que nele já havia artigos em defesa da transferência da capital para o interior do país.
O CB já citou Hipólito como precursor do ideal de Brasília, ao lado de outras personagens históricas, como Tiradentes, José Bonifácio, Adolfo Varnhagen e Dom Bosco. Mas o plano ganhou força legal só após a proclamação da República. A Constituição de 1891 previa no artigo terceiro a demarcação de um território de 14.400 quilômetros quadrados no interior do país destinado à futura capital federal. Durante o governo de Floriano Peixoto (1891-1894), a Comissão Cruls fez expedições ao Planalto Central para demarcar a área do que seria o Distrito Federal. Menor do que o planejado no século XIX, o quadradinho do centro do Brasil possui, hoje, aproximadamente 5,8 mil quilômetros quadrados, segundo o GDF.

O projeto só se concretizou com Juscelino Kubitschek. Quando JK era candidato à presidência da República em 1955, ele estava em campanha no município de Jataí – GO, quando um dos ouvintes o questionou se ele traria a capital do Brasil para o Centro-Oeste. E Juscelino disse que, “sendo a mudança um preceito constitucional”, o seu “governo daria os primeiros passos,” resposta registrada pelo CB. Joseil Martins, historiador pelo Centro Universitário de Brasília, conta que ele não se consultou com a assessoria de campanha antes de responder, e que a nova capital não fazia parte do plano de governo. O autor da pergunta gravada na história, Antônio Soares, faleceu em 2019.
Ao contrário dos outros agrupamentos urbanos do país, Brasília nasceu artificialmente. Foi planejada e traçada por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Alda Rabello Cunha, entre outros integrantes do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) do DF. E este é o único caso de instauração de uma cidade junto a um jornal próprio. Dado o seu protagonismo, o Correio Braziliense estabeleceu uma estreita relação com a população local, vinda de vários estados do país com a expectativa de melhores condições econômicas de vida. Os migrantes viam a nova capital como um “Eldorado,” definiu Martins. O Brasil deixava de ser um país só agrícola e começava a se industrializar, sendo Brasília o símbolo de modernização.

A banca e o jornaleiro
Lourivaldo Marques, 83 anos, veio de São Paulo e foi o primeiro jornaleiro. Com uma banca na quadra 108 Sul, ele diz que o CB sempre o apoiou. “Um exemplo foi o dia em que tiraram a minha banca, que era de madeira, e levaram para o depósito,” relata ele. “O CB, vendo que eu era humilde, me defendeu e me ajudou a trazê-la de volta.” Além das vendas cotidianas, ele sempre fez promoções culturais; por exemplo, “compre um livro e leve um jornal.” Assim, como jornaleiro e poeta, Lourivaldo conquistou fregueses e acompanhou o crescimento da cidade.
Foto: Bernardo Jr
O jornal, como negócio de notícias, vive da dinâmica econômica local, inclusive de anunciantes e classificados. E Brasília, inicialmente não tendo uma força econômica diversificada como São Paulo ou Belo Horizonte, oferecia ao CB anunciantes oficiais e estatais. Morelli explica que o forte da economia era apenas o salário das pessoas. Por isso, o CB era “meio subordinado” à máquina pública, diz ela.
CRIANDO RAÍZES
Após seis décadas desde a implantação do Plano Piloto, ainda surgem propostas a favor da volta do Rio de Janeiro como capital, ou semi-capital, do país. É o caso da PEC 148/2019, de autoria da deputada federal Clarissa Garotinho (Pros-RJ), que sugere a fusão da atual capital com a antiga. A finalidade seria repartir os recursos federais direcionados à Brasília como forma de indenização pela transferência. Contudo, a ideia não é inédita. Durante a década de 1960, houve forte movimento para o retorno ao Rio.
Ana Morelli ressalta que ainda não havia o apoio do grupo para o qual Brasília foi feita: diplomatas, políticos e funcionários públicos. A pesquisadora enfatiza também que Brasília se assentou sobre um terreno semelhante ao deserto. E, para ela, o cenário inicial “mais parecia um descampado de grandes massas de concreto por entre os quais rugiam os ventos e os redemoinhos de terra vermelha.” Demorou alguns anos para a cidade apresentar sua configuração ideal. Ademais, para estimular a vinda de funcionários, o governo os deu benefícios como aumento de salários e outros.
1956 – Criação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital
21/04/1960 – Inauguração conjunta de Brasília e do Correio Braziliense
1968 – 1ª Grande cobertura do CB: Invasão no campus da UnB
1971 – Implantação oficial da CEI – Campanha de Erradicação de Invasões – pelo então governador Hélio Prates
1976 – Mudança na linha editorial do CB por Evandro de Oliveira Bastos
1976 – 2ª grande cobertura do CB: Morte de JK
Neste contexto, “a cidade ainda estava meio desenraizada” e “o Correio Braziliense sempre foi o jornal da cidade, ele sempre defendeu a permanência”, conta Morelli. A quarta página da edição do Correio de 1 de janeiro de 1970 registra a realidade dos primeiros 10 anos:
“(…) Só agora, passada uma década, Brasília começa a sentir-se realizada. A cidade, que levou apenas três anos a construir, exigiu 10 anos preparando-se para exercer, de modo pleno e efetivo, sua missão de Capital do País.“
Correio Braziliense, 1 de janeiro de 1970
“(…) O ex-Presidente Costa e Silva, ao assumir o poder, confessou deparar (sic) um dilema: deixar que a cidade se transformasse num soberbo e monumental fóssil arquitetônico, abandonando-a à sua própria sorte, ou promover, a curto prazo, sua consolidação definitiva. Optou, feliz e sensatamente, pela segunda alternativa (…).”
Correio Braziliense, 1 de janeiro de 1970
“E Brasília – depois de passar por uma década tentando sobreviver e afirmar-se, sofrendo campanhas de retôrno (sic), abertas ou camufladas; (…) sendo vítima de sabotagens no processo de transferência gradativa dos órgãos federais; (…) – entra num novo ano e numa nova década sob a mesma aura de otimismo que presidiu sua fase pré-inaugural.“
Correio Braziliense, 1 de janeiro de 1970
“Em 1960, ela surgiu cidade. Em 1970, ela surgirá Capital.”
Correio Braziliense, 1 de janeiro de 1970
Portanto, apenas a partir da década de 1970, estabeleceu-se uma perspectiva confiante quanto ao futuro da nova cidade como capital consolidada. Principalmente porque o ex-presidente militar Emílio Médici decidiu torná-la sede definitiva dos governos. No caminho à década seguinte, o CB se firmou como o principal meio de comunicação local, e a produção acompanhou o aumento do número de habitantes. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a tiragem do jornal era de 1,5 mil exemplares diários em 1963; a quantidade passou a 24,5 mil em 1969; e na década de 1980 atingiu 30 mil.
É comum ouvir recordações desse tempo num almoço de domingo que reúne familiares representantes de três gerações: a que migrou, a que nasceu na cidade ainda fresca, e a que cresceu na – ou aos arredores da – capital já formada. São as duas primeiras que se lembram dos garotos que saíam cedo, de bicicleta, para entregar as edições dos assinantes nas asas Sul e Norte; de como era impossível encontrar o jornal ainda à venda nas bancas depois de determinado horário, pois as edições rapidamente se esgotavam; e da qualidade informacional oferecida.
“Não tem como separar Brasília do Correio Braziliense.”
Joseil Martins
Uma das coberturas marcantes da década de 1970 é a da morte de Juscelino Kubitschek, registrada na capa de 23 de agosto de 1976. O acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra e todo o contexto é contado em detalhes. Além disso, relata-se que o ex-presidente teve de desmentir boatos de sua morte duas vezes ao longo daquele mês. Em edições posteriores, o CB expressa através de falas de parlamentares a inconformidade com o fato de JK ter morrido com seus direitos políticos cassados.
“Com a morte do construtor de Brasília o país perde um expoente político da última geração dos grandes líderes.”
Correio Braziliense, 23 de agosto de 1976
O CB é um jornal na sede do poder; a redação é muito próxima da esplanada. Então a ênfase no noticiário político e seus personagens ocorreu naturalmente. Ele tinha também a facilidade do tamanho ainda reduzido da população. Entretanto, não era tudo apenas política. Morelli destaca a relevância do jornal, um meio de comunicação de massa, na formação da identidade do povo. É por ele que todos tomavam conhecimento de eventos, lançamentos de discos, exibições de cinema, críticas sobre as obras, entre outros. Através da parte cultural, o leitor se vê nas páginas. E Martins acrescenta que “o CB sempre foi a voz de Brasília. Não tem como separar Brasília do Correio Braziliense.”
A fala de Juscelino durante a inauguração, afinal, tornou-se realidade:
“Esta cidade, recém-nascida, já se enraizou na alma dos brasileiros.”
Correio Braziliense, 5 de setembro de 1976
ERGUIDA PARA FICAR
O IBGE estimou em pouco mais de 3 milhões a população do Distrito Federal para o ano de 2020. E, de acordo com as projeções da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) para o mesmo ano, 2,8 milhões de habitantes estão nas cidades satélites, também chamadas de regiões administrativas (RAs). Algumas são mais antigas do que a própria capital, e hoje somam 33. O CB não tem mais a facilidade de cobrir tudo, e a diversidade de produção cultural aumentou ao ponto de existirem algumas totalmente independentes do Plano Piloto, características de cada satélite.
Para Morelli, a década de 1980 é a da consolidação de Brasília como agrupamento urbano. Com a Constituição Federal de 1988, Brasília passou a receber menos recursos federais. O governo local, portanto, teve de gerar novas formas de arrecadação. Além disso, é o período inicial da demonstração de força política dos habitantes. Os protestos contra o Plano Cruzado II, em 1986, reuniram na cidade a maior quantidade de pessoas desde as Diretas Já. Também conhecido como Badernaço, o movimento saiu na capa de 28 de novembro do CB. O jornal relata que o DF virou “uma praça de guerra durante quatro horas.”
1981 – Inauguração do Memorial JK
1986 – 3ª grande cobertura do CB: Protestos contra o Plano Cruzado II
07/12/1987 – Unesco tomba Plano Piloto e Vila Planalto como Patrimônio Cultural da Humanidade
1988 – Criação da Agência de Notícias dos Diários Associados e CB ganha o prêmio World’s Best Designed Paper do Society for News Design
1990 – 4ª grande cobertura do CB: Eleições gerais no DF
1993 – Ricardo Noblat começa a liderar o CB. Ele foi responsável pelas grandes reformas de 1996 e de 2000
1999 – 5ª grande cobertura do CB: Confronto entre Polícia Militar e grevistas da Novacap
O Centro de Documentação (Cedoc) do CB afirmou que, até o momento, a maioria das páginas da década de 1990 não estão digitalizadas.
Este é também o período em que o projeto urbanístico perde um pouco do rigor. “Afinal, estamos no Brasil, a gente não é muito estrito. A gente tem o dom de bagunçar as coisas,” diz Morelli. Aumenta a ocupação de áreas não previstas e a migração de habitantes do Plano Piloto para as cidades satélites, devido à alta dos preços imobiliários. A Ceilândia, por exemplo, surgiu da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI) criada no início da década de 1970; ela se tornou uma das RAs mais populosas, com mais de 400 mil habitantes em 2020, de acordo com o IBGE. As regiões administrativas continuam em expansão e as duas últimas foram estabelecidas em 2019.
Desvinculando-se da economia da máquina pública, o CB investiu em campanhas de assinatura no início dos anos 2000. Estava sob a direção de Ricardo Noblat, que pretendia diminuir a dependência de anunciantes. Morelli conta que ele também promoveu mudanças gráficas, mas o traço mais marcante, segundo ela, foi o estabelecimento de uma linha editorial mais independente, desalinhada do governo. Hoje, porém, a pesquisadora observa uma crise econômica no CB e a perda de espaço como jornal gerador de debate. “Ele ficou mais factual e menos reflexivo,” diz ela.
Muitos dos que vieram construir Brasília esperando encontrar uma “mina de ouro”, como mencionou Martins, acabaram indo morar em barracos, ou voltaram na mesma condição econômica difícil de quando chegaram. A cidade tornou-se socialmente “segregada e elitizada,” diz ele. Mas o historiador defende que não há sentido em transferir a capital de volta, pois a sede no centro do país proporciona a integração dos estados. Além disso, se Brasília perdesse esse título, “o que seria de todos os prédios públicos, toda a parte estrutural?” Questiona ele. “A cidade foi construída para isso.”
Com 61 anos, a cidade ainda é jovem, evidentemente mais nova do que vários moradores, como Lourivaldo. E ainda paira no ar a interrogação do que é, de fato, ser brasiliense, denominação que concentra as raízes culturais de outras regiões do Brasil, especialmente do Nordeste. Enquanto a resposta para essa questão se desenvolve a cada aniversário que se passa, os laços entre Brasília e o Correio Braziliense permanecem para a história.
Fotos: Áurea Batista
Disciplina de Visualização de Dados, Curso de Jornalismo de Digital, Universidade Católica de Brasília
















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