A história, a cultura e as práticas sociais de um país que não se liberta das suas omissões revelam um presente de violência, exclusões e abusos. Vidas são partidas, ceifadas e interrompidas. O igual não é igual e o respeito não é respeito para todos. Os mais de 46.112 assassinatos mostram que ser mulher e ser negra é uma saga sombria e soturna num Brasil que segue flertando com a morte.
Há quase duas décadas (2000 a 2018) a violência contra a mulher permanece incrustada e realimentada pela estrutura social, econômica e política do Brasil. De acordo com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) foram registrados , nesse período, 81.278 casos de mulheres vítimas de homicídio. Os principais alvos desses assassinatos, sejam dolosos ou culposos, são em geral mulheres negras.
A pesquisa releva que 56,73% da vítimas são afro-descentes. O indicador aponta para uma violação desproporcional dos direitos fundamentais da população negra o que reforça evidencias da persistência de um racismo estrutural no país. São casos e casos que possuem nome e história nos registros do Ministério da Justiça. Francisca de Chagas Silva (34 anos), é um exemplo.
Francisca era uma ativista negra, quilombola, do Movimento dos Trabalhadores Rurais do estado do Maranhão. Em 2016 ela foi morta e violada fisicamente. Até o momento não há sequer vestígios dos culpados
Francisca não é um caso isolado. Na base de dados do Ministério da Justiça as ocorrências se multiplicam. Muitos fatos são apenas um número de processo sem os nomes das vítimas. Uma descrição do agressor, dos fatos, dos atos empilha histórias de violência e abuso. Como o assassinato através de afogamento e asfixia de uma mulher registrado em 2012. Esse crime é anunciado nos dados do ministério como um homicídio qualificado cometido com a “justificativa” de “inconformismo com o fim do relacionamento” e “ciúmes” do assassino com as novas relações da ex-companheira. Foi um feminicídio. Mais um em que o autor ganha o bônus do anonimato nos registros públicos. São centenas, milhares até em que a vítima, mulher, é personagem desse ciclo violento e estereotipado cultivado silenciosamente ao longo dos séculos.
A advogada Karina Sales resgata um princípio que prevaleceu durante muito tempo nos casos de violência contra a mulher: a chamada “legítima defesa da honra”.
Foto de acervo pessoal
“O teor emocional” ,quando se justifica uma ação com base em sensações como amor, ciúme entre outros, era usado como artifício para diminuir a pena do acusado. Mas isso só poderia ocorrer com a devida apuração para evitar a “dosimetria”, uma pena que prejudique ou favoreça o réu de forma indevida”.
Karina Sales, advogada
A antropóloga Lourdes Bandeira considera que essa justificativa “destrói a mulher” por, de certa maneira, categorizá-la como inferior, reafirmando um processo de secundarização.
Foto de acervo UNB
“Isso nunca existiu no código penal. O que existe aqui é uma ‘jurisprudência’ da lei, ou seja, uma interpretação da lei dentro dos tribunais que é falsa”.
Lourdes Bandeira , antropóloga.
Todavia esta lógica, enfim, teve seu ponto final. A legítima defesa da honra foi desqualificada em março deste ano pelo ministro Dias Toffoli do STF – Supremo Tribunal Federal (link). O ministro vetou o uso direto e indireto dessa natureza de argumento. A decisão foi confirmada pelo plenário do tribunal.
A regra oculta e sombria da aceitação social do assassinato de mulheres vem sendo questionada desde o século IX. Em 1801, o escritor John Cory cria o termo feminicídio, em sua obra “A satirical view of London at the commencement of the nineteenth century”, para designar a morte de mulheres. Mas as mudanças foram muito lentas ao longo do tempo. Apenas no século XX essa natureza de crime foi associada à questão de gênero e raça. No artigo acadêmico” A Transversalidade dos Crimes de Feminicídio no Brasil e Portugal” de Maria Lourdes Bandeira e Maria José Magalhães fazem uma linha do tempo na qual mostram todo o tipo de violência praticada contra a mulher. Bandeira, que é coordenadora do NEPEM ( Núcleo de Estudos e Pesquisas da Mulher) e professora titular do Departamento de Sociologia da UNB, destaca algumas das variações.
“Cada crime tem sua série de características, não tem como colocar tudo em uma vala comum e dizer que todos os crimes de feminicídio são iguais. Além disso, todos os feminicídios são assassinatos de mulheres, mas nem todos os assassinatos de mulheres são feminicídios. Pois dependem do contexto da ação. Foi por conta de uma batida acidental, bala perdida ou foi exclusivamente por ser mulher e intencionalmente causar a morte”.
Lourdes Bandeira , antropóloga.
A desumanização da mulher negra
A violência contra as mulheres negras ainda é mais silencioso. A forma com que são construídos os estereótipos revela um duplo fardo de inferioridade. Primeiro o fato de ser mulher, segundo o de que não é tão vulnerável. A socióloga americana Patrícia Hills denuncia que esses os rótulos trazem uma ideia errônea de que as negras são menos vulneráveis, “precisam menos de proteção e cuidado”. É o que Hills define como “imagem de controle” que explora duas visões racistas:
‘Negra forte’- strong black woman-: aquela que serve em excesso as vontades do outro, matriarca.
‘Negra Raivosa’: produtora de violência, não a receptora.
A construção dessa “imagem de controle” se reflete também no âmbito econômico. De acordo com a professora americana Kimberlé Crenshaw, a maneira como os sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas espelham diretamente na posição social da mulher. Nos últimos quatro trimestres o PNAD Contínuo (Pesquisa Nacional por Amostra Contínua de Domicílios) do IBGE sinalizou que a taxa de desemprego entre mulheres negras é de 17% superior a de mulheres brancas, 11%, e duas vezes maior que a dos homens brancos, 8%.
O ciclo da violência
A instauração das leis de proteção da mulher, 11.340/06 (Maria da Penha) e 13.104/15 (feminicídio), e os serviços públicos, como o canal de atendimento 180, as delegacias da mulher e os centros de apoio, são um grande avanço. Mesmo assim, os números ainda revelam que a violência persiste. Há uma constância de mais de 4.000 casos de assassinatos por ano, conforme a base de dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade). Com esses números, Lourdes Bandeira crê que a lei, por si só, não resolve, seria necessária uma preparação e uma consciência maior tanto no judiciário quanto no legislativo.
Lourdes Bandeira defende um conjunto de políticas públicas para o enfrentamento dessa violência.
“[…] A escola, ensinar tanto no espaço doméstico quanto no espaço escolar, é fundamental para que não se criem situações de violência entre meninos e meninas […] ““[…] Colocar a mulher em uma situação de não dependência […]”
O fato é que o feminicídio, apesar de ser inserido na agenda pública, ainda ainda está longe da sua execução prática.
A antropóloga alerta para as diferenças entre o discurso e a prática.
Lourdes Bandeira
Um exemplo da ausência de prioridade é o descaso com a Casa da Mulher no setor de grandes obras (Asa Norte, N 601), em Brasília. Essa instituição pública, que deveria estar voltada para o atendimento da mulher, inaugurada em 2015, foi fechada em 2018, com o pretexto de reformas na estrutura. Desde de então nunca mais abriu. Em contato com a Secretária do MMFDH (Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos) , não houve nenhuma resposta sobre quando a Casa da Mulher deve voltar a funcionar.
Fotos respectivamente: Luiza Machado, Paola Marcellos e Ligia Paes.
Enquanto os avanços na proteção à mulher seguem graduais, a vulnerabilidade e o risco continuam acompanhando o cotidiano das brasileiras, especialmente da periferia, particularmente as negras.
O setor de produção cultural é uma das áreas mais ativas da economia do Distrito Federal. O papel dos governos nas políticas públicas para os setores criativos é essencial para o desenvolvimento regional. Entre 2011 e 2020, várias estratégias foram adotadas para alavancar esse segmento econômico. Esforços que foram fortemente impactados pela pandemia do coronavírus.
Reprodução: Google Imagens, Vivian Tavares
Por Amanda Queiroz, Beatriz Duarte, Júlia Rezende, Maria Cecilia Lima, Raphael Barbosa e Vivian Tavares
O setor cultural que emprega milhões de pessoas em todo o país, tem sofrido grandes impactos nos últimos anos. Dados do IBGE mostram que “entre 2007 e 2017, houve redução de 7,9% no número de organizações culturais e aumento de 7,2% de pessoas ocupadas”. Em 2017, a redução da participação das pessoas em atividade do setor cultural caiu de 4,5% para 3,7%, considerado o número de postos de trabalho na economia ativa no Brasil. Com a pandemia, a situação se agravou. Muitas atividades que dependem de concentrações de públicos foram paralisadas. Associações Setoriais alertaram para o impacto danoso na sobrevivência das pessoas e dessa atividade econômica de grande importância para o desenvolvimento do Brasil.
No Distrito Federal, dados da CODEPLAN indicam que pelo menos 12% da economia local estão nesse setor. Percentual suficiente para exigir políticas específicas. Foi assim com as administrações de Agnelo Queiroz (2011–2014), Rodrigo Rollemberg (2015-2018) e o atual governador Ibaneis Rocha (2019-2022). Cada um adotou políticas próprias de investimento à cultura no Distrito Federal. Estratégias distintas que tiveram impactos não apenas no período de cada governo, mas agora durante a pandemia.
De acordo com dados históricos, o Instituto Exata OP comparou popularidade dos governos a partir de 15 mil entrevistados e margem de erro de 3%. Embora o governo de Agnelo Queiroz, segundo especialistas, tenha feito mais pela cultura no Distrito Federal, a rejeição é ganha por ele.
Fonte: Instituto Exata OP
Agnelo Queiroz (PT) foi governador entre o período de 2011 e 2014. Sua vitória veio após a crise no governo do Distrito Federal em razão do escândalo que levou à prisão do ex-governador José Roberto Arruda. Boa parte das políticas públicas estavam paralisadas e coube ao governo Agnelo sua reativação. Foi o que aconteceu com o setor cultural que foi reerguido dos escombros. Um esforço que sua equipe imaginava que seria reconhecido por anos.
Durante o governo Agnelo houve investimentos de R$ 231 milhões no setor cultural. No período, foi criada a lei de incentivo à cultura (LIC) que abate impostos das empresas que financiarem a realização de eventos artísticos no Distrito Federal. A medida ajudou a impulsionar o investimento privado no setor e ampliar a atividade cultural.
A mesma lógica não se repetiu no governo do sucessor. A gestão de Rodrigo Sobral Rollemberg (PSB), entre 2015 e 2018, embora tenha se comprometido em “ampliar os recursos para a cultura”, como registrou nas promessas encaminhadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi muito tímida com o setor. O governador Rollemberg queria ser conhecido como o governador que salvou as contas de Brasília. Seu grande temor, na época, era deixar um governo desajustado nas contas públicas, com descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal e pendências judiciais.
Em 2018, Rollemberg concorreu à reeleição, mas não chegou no segundo turno. O pleito foi vencido por Ibaneis Rocha (MDB). No governo, apesar de anunciar uma política afirmativa, promoção da diversidade e incentivo à economia criativa, assim como o seu antecessor, o governador foi em uma direção contrária. As políticas culturais mais uma vez foram desaceleradas.
A estagnação recebeu críticas do pesquisador e gestor cultural Leonardo Hernandes, que atuou como subsecretário de Fomento à Cultura.
“Tivemos 8 anos de políticas que se somaram, para uma interrupção desse processo. Houve uma regressão, a gestão chegou paralisando e alterando editais. O governo de Ibaneis é marcado por uma paralisação e não apresenta nada de novo. Se alinha às ideias do governo federal.”
Leonardo Hernandes, gestor cultural
No segundo ano de atuação do atual governador, a pandemia causada pela Covid-19 chegou ao Brasil e logo alcançou o DF. A crise sanitária já dura mais de um ano e com ela veio grandes desafios para a sociedade e também para a economia. Os impactos são vistos em cada setor. No entanto, em algumas áreas, são mais perceptíveis, como é o caso do setor cultural.
Um estudo nacional realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa e o Sebrae, coloca este setor entre os mais prejudicados pela pandemia do coronavírus. Uma situação que foi agravada pelo congelamento que já havia nas políticas públicas para este setor. Pelos dados informados pela atual Secretaria de Estado e Cultura do Distrito Federal, é possível fazer um comparativo entre os investimentos dos últimos três governadores e mensurar seus impactos durante a pandemia.
Fonte: Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do DF
Conforme a dissertação da pós-graduação de Leonardo Hernandes, os recursos mais investidos durante o governo de Agnelo foram o teatro, com cerca de 31%; dança, 27%; óperas e musicais, 15%; cultura popular, 14% e circo, 12,7%. Naquele período, obras marcantes foram realizadas, como o caso do Porão do Rock, investimento que contou com diversas atrações internacionais, tais como Beyoncé e Aerosmith, além de ingressos acessíveis para os brasilienses e gratuidade para alunos de escolas públicas, fato que marcou diversos adolescentes daquela época.
No governo Rollemberg houve uma diferença quanto ao que os brasilienses já estavam habituados, pois, em decorrência da preocupação de não descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2015, o governo usou o dinheiro que seria investido em cultura no DF para pagar suas dívidas em outras áreas, ou seja, não executou o fundo de incentivo à cultura (FAC). Hernandes julga a ação como “talvez a maior traição que o movimento cultural já sentiu” e complementa, “foi uma facada nas costas do movimento cultural”.
Em 2017, há melhorias com o sancionamento de duas leis: a Lei Complementar n° 934, que diz respeito à Lei Orgânica da Cultura (LOC), e a Lei Complementar n° 933. Juntas, além de estruturarem o Sistema de Arte e Cultura do DF, uniformizam a legislação, se alinham ao Sistema Nacional de Cultura, democratizam e desburocratizam políticas públicas do âmbito cultural.
Conforme o Portal da Transparência do DF, o investimento anual em cultura foi R$ 168,9 milhões em 2016; R$ 193 milhões em 2017 e R$ 193,1 milhões em 2018. Em comparação a 2015, o investimento em cultura cresceu ainda no governo Rollemberg. Entretanto, ainda inferior mediante ao que foi destinado à área no governo anterior.
Nesses quatro anos sob liderança, passou por diversos momentos conturbados como uma crise financeira no Distrito Federal e, nacionalmente, manifestações, desabamento de viaduto, crise hídrica e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Durante todo seu período de trabalho no cargo, foi investido cerca R$ 3,6 bilhões em Brasília.
Fonte: Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do DF
Já o governo de Ibaneis é praticamente marcado pela COVID-19, uma crise sanitária que afeta o país até o momento. Tendo em vista a necessidade do isolamento social, atividades culturais como shows, peças de teatro e cinema foram interrompidas, de forma que prejudica projetos e retira garantia de renda para profissionais que atuam nessa área.
De acordo com análise do governo de Ibaneis nesse setor, é possível notar uma falha: nenhum subsecretário possui relação com a cultura ou com a gestão pública. Dessa forma, toda a administração se tornou desastrosa, pois buscaram mudar as certezas, como os editais da FAC, os festivais de cinemas, etc.
O Governo Federal demorou para tomar as rédeas da situação, buscou distribuir os recursos de forma rápida, mas com pouco planejamento, produziu editais de premiação ao invés de repassar o dinheiro para os carecidos. Em 29 de junho de 2020, a Lei Aldir Blanc foi promulgada, lei cuja finalidade é atender o setor cultural do Brasil. Foi destinado, assim, o valor de R$ 3 bilhões, que foram distribuídos aos artistas do país. A Lei contemplou 2834 artistas, com R$ 33 milhões no Distrito Federal.
Apesar do investimento feito por meio da Lei Aldir Blanc, é possível afirmar que a questão da pandemia é muito vasta, o que torna notável seu impacto econômico. Questionado sobre os efeitos da pandemia, Hernandes disse que “muitas contas têm sido feitas em cima das consequências causadas pelo vírus. Acredito que há um efeito maior, que ainda não sabemos medir, sendo ele o efeito da linguagem. Não sabemos qual será o grau securitário para as pessoas voltarem aos espaços culturais e se elas vão voltar. Os efeitos já são terríveis e podem se prolongar, até o setor se reorganizar”.
Conforme o Instituto Exata OP, que comparou a popularidade dos governos anteriormente, o governo de Agnelo Queiroz foi o mais rejeitado, conforme a opinião dos 15 mil entrevistados. Agora, apesar da crise sanitária causada pela Covid-19, a aprovação é do governo de Ibaneis Rocha, atual governador do Distrito Federal. Eis os níveis de aprovação de cada governo:
Plano Nacional de Imunização contra a Covid-19 vacinou menos de 20% da população
Desde que o novo agente do Coronavírus (nCov-2019) foi descoberto em 31/12/2019, muito se é esperada a vacina para combatê-lo. Sua primeira vítima fatal foi um homem de 61 anos que faleceu em 11 de janeiro de 2020, em Wuhan, na China. No Brasil, a primeira morte ocorreu dia 12 de março do mesmo ano, em uma paciente de 57 anos no estado de São Paulo.
Ao enfrentar o desconhecido, autoridades da saúde, cientistas e empresas do mundo inteiro se reuniram para investir em pesquisas que pudessem trazer respostas sobre como conter o avanço do vírus pelo mundo. Em poucos meses, todos os países registravam casos e óbitos causados pela doença. A esperança, contra um vírus mortal, era uma vacina.
“Vacinas oferecem uma grande esperança de se mudar o rumo de uma pandemia. Mas para proteger o mundo, precisamos fazer com que todas as pessoas em risco em todas as partes, não só em países que podem arcar com as vacinas, sejam imunizadas”
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS)
Ainda em março de 2020, vacinas usadas em outros tipos de coronavírus deram início a estudos para o desenvolvimento de um imunizante contra o Sars-Cov2. Enquanto isso, o uso do álcool 70% e as máscaras faciais viraram rotina na vida de qualquer cidadão.
Pessoas usando máscara 19.mai.2020 – UT News (Texas/EUA)
Enquanto as vacinas eram testadas, o vírus ainda causava vítimas. Em 11 de março de 2020, o mundo chega a um ponto crítico e a OMS decreta pandemia global causada pelo vírus. São acima de 100 mil casos positivos e mais de 4 mil óbitos registrados. Enquanto isso, o Brasil contava com pouco mais de 200 mortos no fim do mesmo mês, número considerado baixo em comparação a outros países. Cenário que não se prolongou com o passar dos meses.
“Estamos profundamente preocupados tanto pelos níveis alarmantes de propagação e gravidade como pelos indícios preocupantes de falta de ação. Portanto, avaliamos que a Covid-19 pode se caracterizar como uma pandemia”
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS
O investimento e esforço de autoridades do mundo inteiro logo surtiu em resultados positivos. Em novembro de 2020, 11 vacinas já estavam em testes clínicos na fase 3 – essa etapa testa a eficácia do imunizante em seres humanos. No infográfico 01 é possível ver que, além das que estavam na última fase de teste, outras centenas de vacinas estavam sendo estudadas em paralelo.
Ainda em 2020, a empresa chinesa Sinovac desenvolveu uma das primeiras vacinas com eficácia contra a covid-19, a CoronaVac. Em testes realizados no Brasil, a vacina em questão registrou eficácia global de 50,4% contra a doença. Já a Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca chegou à fórmula da Covishield com uma eficácia global de 76% contra a doença em testes, também, realizados no Brasil. Assim como a alemã BionTech em parceria com a Pfizer também produziram um imunizante com eficácia global de 97%, empolgando a população. A Rússia também produziu uma vacina com 91,6% de eficácia contra o novo coronavírus, a Sputnik V.
Rovena Rosa – Agência Brasil
A esperança de uma vacina e os resultados positivos dos testes fez com que diversos países começassem a fechar acordos de compra entre governos e empresas que mostravam resultados eficazes com o imunizante. Os primeiros acordos de compra foram feitos pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos com a farmacêutica Pfizer em julho de 2020.
No Brasil, pouco se falava a respeito sobre a compra de um imunizante. A Rússia, por outro lado, saiu na frente e foi a pioneira no registro oficial de uma vacina contra a covid-19, a Sputnik V, em 11 de agosto de 2020.
‘‘Esta manhã, pela primeira vez no mundo, foi registrada uma vacina contra o novo coronavírus […] sei que é bastante eficaz, que dá uma imunidade duradoura’’
Vladimir Putin, presidente da Rússia.
Ainda no mesmo ano, enquanto outros países avançavam na compra e aplicação da vacina, o Governo Federal brasileiro, no entanto, negou, ao menos 4 vezes, ofertas da imunização.
NoBrasil, vacina não foi prioridade
Apesar do vírus ceifar a vida de cada vez mais brasileiros, as investidas do Governo Federal não mostravam preocupação quanto a isso. Enquanto a OMS alertava para o cuidados pessoais, distanciamento social e um lockdown, o presidente do país, Jair Bolsonaro (sem partido), difundia o contrário.
A corrida pela vacina movimentava países do mundo inteiro, que zelavam por rápidos acordos de compra. No caminho oposto, Bolsonaro criticava as nações que estavam na frente da produção de um imunizante. Um de seus alvos foi a China, país qual o presidente culpava pela epidemia.
Como o negacionismo de Bolsonaro atrasou o país na corrida pela vacinação
Em público, o presidente aparecia sem máscara e desdenhava da letalidade do vírus. Enquanto autoridades da saúde tentavam lidar com um sistema de saúde colapsado, cemitérios sem vagas e com a falta de insumos – Equipamento de Proteção Individual (EPI’s), medicamento e leitos – Bolsonaro incentivava aglomerações e manifestações em cidades do país.
O posicionamento de Bolsonaro também causou uma onda negacionista no país e, apesar dos fatos, dos números e das mortes, seus apoiadores chegaram a protestar até contra a vacina.
Agência Brasil
Histórias que se repetem?
Segundo informações da Fiocruz, em meados de 1904, o número de internações de pacientes devido à varíola ultrapassou a marca de 1.800 no Rio de Janeiro. Grandes motivos para isso era a grande quantidade de lixo e de animais transmissores da doença nas ruas da cidade.
Neste mesmo ano, o médico Oswaldo Cruz motivou o governo a impor a obrigatoriedade da vacinação em todo o território nacional, onde apenas os indivíduos que comprovassem que foram vacinados conseguiram trabalho, certidões de casamento, matrículas em escolas, etc.
A população, que já estava sendo oprimida devido a problemas relacionados à qualidade de vida, não aceitava ver sua casa invadida para tomar uma injeção contra a sua vontade. Sem informação e nenhuma orientação sobre a importância da vacina, muitos acreditavam que quem se vacinava poderia ficar com feições bovinas.
Cansados da situação, os habitantes foram às ruas para protestar sobre a situação, assim como a insatisfação com o presidente da época, o advogado Rodrigues Alves. O centro do Rio de Janeiro foi transformado em uma guerra que ocasionou um saldo de 945 prisões, 461 deportados, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas de conflitos.
O então presidente se viu obrigado a desistir da vacinação obrigatória, tornando seu uso facultativo. Já em 1908, quando a cidade foi atingida por uma violenta onda de varíola, o povo buscou ao máximo ser vacinado, tendo uma reação adversa à Revolta da Vacina.
Em 2020, a situação se repetiu no Brasil. O pais ficou em conflito entre negacionistas e adeptos da ciência diante das contaminações e mortes provocadas pela covid-19. Grande parte da população foi às ruas pedir pela imunização em massa.
Adriano Machado- Reuters
O embate vivenciado pelo Brasil nos últimos meses do ano de 2020, mostraram lentidão do país pela corrida da vacina. Em dezembro, enquanto o Brasil ainda testava vacinas contra o novo coronavírus, diversos países do mundo já imunizava sua população.
Nações como Reino Unido, Itália, Estados Unidos e Chile saíram na frente e, neste mesmo mês, iniciaram a vacinação com o imunizante desenvolvido pela Pfizer, em parceria com a alemã BioNTech. Já Rússia e Argentina, saíram na frente com a Sputnik V, vacina russa. China, Singapura e Indonésia, iniciaram o processo de imunização com a vacina produzida pela Sinovac – a Coronavac que, na época, estava em fase de testes clínicos no Brasil. Já a Índia, acabava de aprovar o uso da vacina Oxford/AstraZeneca para uso emergencial de sua população, bem como a Covaxin, também indiano.
Margaret Keenan, de 90 anos, toma vacina da Pfizer – Jacob king
A ciência vence a ignorância
Cenário distinto do visto em outros países, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Butantan se esforçavam para trazer um imunizante eficaz ao Brasil. A Fiocruz testava a Covishield, vacina desenvolvida pela Oxford/AstraZeneca e o Butantan, a Coronavac, imunizante feito pela Sinovac.
Os esforços dessas autoridades tiveram resultados e os testes seguiam a todo vapor no país em milhares de brasileiros que se voluntariaram. Chamado de “laboratório do vírus” o Brasil se transformou em um cenário ideal para testes clínicos. Tal cenário auxiliou a Fiocruz e o Butantan a chegarem a notícias positivas quanto à vacina.
Por determinação da Anvisa, órgão regular que aprova uso de vacinas no país, as empresas precisavam mostrar resultados dos testes clínicos realizados em brasileiros para serem aprovados e a vacinação iniciada.
Mesmo que outros países já estivem usando os imunizantes para dar início à vacinação, o Brasil ainda precisava enfrentar um processo burocrático de aprovação.
Processo de acordo, compras e a chegada da vacina ao país
Mônica Calazans, primeira brasileira a ser vacinada
Em 17 de janeiro de 2021, minutos após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar o uso emergencial da Coronavac e da Covishield, Mônica Calazans, de 54 anos, torna-se a primeira pessoa a ser vacinada contra a Covid-19 no Brasil. A imunização foi uma iniciativa do governo paulista e aconteceu no hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
AFP – Nelson Almeida
Mônica é moradora de Itaquera, localizada na zona leste de São Paulo e enfermeira da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, referência no combate à pandemia no estado. Hipertensa e diabética, ela já atuava na linha de frente em combate ao coronavírus há 10 meses e mesmo com perfil de alto risco para complicações da doença, revezava turno em mais de um hospital.
“O senhor não tem noção da minha felicidade”, disse Mônica ao governador de São Paulo, João Dória, antes de tomar a vacina. “Foram dez meses de sofrimento”. A enfermeira se voluntariou assim que se iniciaram os testes clínicos da vacina Coronavac pelo Instituto Butantan.
Mônica revelou ter sido alvo de ataques virtuais após a decisão de ser a primeira pessoa a vacinar no Brasil, mas seguiu acreditando que este era o único meio de recomeçar a vida de uma maneira justa e com garantia de viver dignamente, com saúde e bem-estar.
“Falo com segurança e com propriedade: não tenham medo. É a grande chance que a gente tem de salvar mais vidas. Vamos nos vacinar”, afirmou.
Um mês após tomar a primeira dose da vacina, ela recebeu a segunda dose da CoronaVac no dia 12 de fevereiro. A imunização aconteceu durante uma coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, e no mesmo dia o governo de São Paulo começou a aplicar a segunda dose da vacina em todos os profissionais de saúde que foram imunizados após a Mônica no mês de janeiro.
Início da vacinação no Brasil x Ritmo atual
Em 19 de janeiro de 2021, o Ministério da Saúde confirmava a entrega de 6 milhões de doses da CoronaVac para todos os estados e o Distrito Federal, dando início ao processo de vacinação no país.
Divulgação/Governo de São Paulo
A campanha segue o Plano Nacional de Imunização (PNI) e iniciou pelos grupos prioritários da chamada Fase 1. Esta fase atende trabalhadores de saúde, pessoas institucionalizadas (que residem em asilos) com 60 anos de idade ou mais, pessoas institucionalizadas com deficiência e população indígena aldeada. Confira no infográfico 03 quais foram os grupos definidos como prioritários pelo Ministério da Saúde:
Fonte: Plano Nacional de Imunização do Ministério da Saúde.
No Distrito Federal, a vacinação começou no dia 19 de janeiro, priorizando os grupos pertencentes à Fase 1. Para os profissionais da saúde a ordem de prioridade era: profissionais da rede pública, médicos e enfermeiros da rede privada e logo após os demais funcionários da área.
A farmacêutica Stefany Duque, de 22 anos, funcionária na área da saúde na rede privada da capital do país, conta que sua vacinação acontece duas semanas após o início da campanha no DF. Duque ainda relembra que o processo foi rápido e organizado.
Stefany Duque, funcionária na área da saúde na rede privada no DF/Arquivo Pessoal
“Eu fui vacinada em fevereiro. Somente os médicos e enfermeiros foram vacinados, no hospital onde eu trabalho. Assim que eles concluíram, realizei a minha inscrição no site responsável e tinham duas opções de locais para a vacinação”
Stefany Duque, funcionária da rede privada de saúde do Distrito Federal
Em fevereiro deste ano, o país já contabilizava mais de 9,3 milhões de casos do novo coronavírus e quase 230 mil mortes desde o início da pandemia. Quanto ao total de vacinados, o número ultrapassava as 3 milhões de pessoas.
Sandro Pereira/Agência PT
Em entrevista à BBC, o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, afirmou que o ritmo de vacinação no país estava simplesmente péssimo e que no segundo mês do ano, já deveríamos ter utilizado pelo menos o primeiro lote de 6 milhões de doses da CoronaVac, do Instituto Butantan e da Sinovac.
O atraso nos pedidos de autorização das doses no Brasil e o aumento no número de brasileiros antivacina são alguns dos entraves apontados para o atraso no processo de vacinação, começando depois de cerca de 50 outros países. Veja no infográfico 04 como países que iniciaram a vacinação ainda em 2020 despontaram na imunização de seus cidadãos.
Dados do Our World in Data retirados no dia 08 de maio de 2021
Hoje o Brasil ocupa o 56º lugar no ranking global da aplicação de doses da vacina contra a Covid-19 e entre os países que compõem o G20, grupo das 20 maiores economias do mundo, o país continua em 9º. Levantamento junto às Secretarias de Saúde aponta que, em meados de maio, quase 36 milhões de brasileiros tomaram a primeira dose e pouco mais de 18 milhões receberam a segunda, totalizando cerca de 53 milhões de doses aplicadas.
No ritmo em que a vacinação contra a Covid-19 é conduzida no Brasil, o país levaria mais de quatro anos para ter toda a sua população imunizada. O cálculo é do microbiologista da Universidade de São Paulo (USP) Luiz Gustavo de Almeida.
Aceleração do processo
Com a intenção de agilizar o sistema de vacinação no país, voluntários ajudam os profissionais que estão trabalhando na área. No Distrito Federal, o estudante de enfermagem de 18 anos, Artur Bontempo, se sentiu comovido pela situação do país e quis ajudar. Ele conta que se voluntariou para ajudar nos pontos de vacinação, após ver as filas e os depoimentos das pessoas que demoravam para ser atendidas ao se vacinarem.
“Eu pensei: estou em casa e posso ajudar, já que é minha área de atuação. Então por que não? Fui atrás de como eu poderia me candidatar, até que falei com uma amiga que já estava sendo voluntária e me passou o contato do coordenador e consegui entrar para o projeto”
Artur Bontempo, estudante de enfermagem e voluntário em um posto de vacinação no DF
Foto: Breno Esaki/Agência Saúde-DF
Assim como Artur, jovens no país todo estão se voluntariando com a esperança de acelerarem a Campanha de Imunização contra a covid-19 no Brasil. Mas segundo o presidente do Transforma Brasil, Fábio Silva, o percentual de voluntários no país ainda está baixo.
“O percentual de voluntários no Brasil ainda é muito pequeno. Diante de tudo o que a gente está vivendo na pandemia, a gente sabe que a grande solução é a união, então são os brasileiros ajudando os próprios brasileiros”
O país deu início à Fase 3 do Plano Nacional de Imunização, que vacina indivíduos com condições de saúde que estão relacionadas a casos mais graves da covid-19. E em seguida, na fase 4 receberão a dose, professores, profissionais das forças de segurança e salvamento, funcionários do sistema prisional e a população privada de liberdade.
Uma vacinação lenta e em pequena escala, somada à livre circulação do vírus, é o perfeito celeiro para a propagação de variantes virais que, além de serem mais transmissíveis, como é o caso da variante P1, encontrada em Manaus, podem escapar totalmente da proteção gerada pelas vacinas.
Quando a vacina chegará para todos?
Com cerca de 210 milhões de habitantes, o Brasil já perdeu mais de 400 mil vidas para a covid-19, segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde. Esses dados alarmantes faz com que a população brasileira questione o tempo de vacinação no país.
Outro ponto levado em consideração para atribuir o atraso da vacinação, se diz respeito a falta de coordenação nacional. Apesar de seguir um PNI que estabelece integrantes do grupo prioritário, cada estado e município do país estabelece as etapas de vacinação.
Em Minas Gerais, por exemplo, a capital Belo Horizonte imunizou, na primeira semana de maio, estudantes universitários da área da saúde. No Distrito Federal, o governo local iniciou a vacinação para o grupo de pessoas que possui comorbidades que podem causar um agravamento em caso de contágio do novo coronavírus.
Em outras regiões do país faltam vacinas para imunizar o primeiro grupo tido como prioridade – idosos com mais de 60 anos.
É possível visualizar no infográfico 05 (acima) como alguns estados não atingiram, sequer, 100 mil pessoas imunizadas. Como é o caso do Acre, Roraima e Amapá que, juntos, têm cerca de 250 mil pessoas vacinadas com a primeira dose da vacina contra a covid-19. Os três estados somam mais de 2 milhões de habitantes. No sentido oposto, Minas Gerais e São Paulo foram os estados que mais imunizaram. Cada um deles já aplicou mais de três milhões de vacinas contra o novo coronavírus.
O Ministério da Saúde (MS) projeta distribuir, até o final do ano, 562 milhões de doses em todo o território brasileiro, o suficiente para os 29 grupos prioritários e não-prioritários. Apesar do número ser consideravelmente alto, alguns estudiosos e pesquisadores apontam um cenário pessimista, alegando a lentidão da aplicação diária no país. Já outros profissionais revelam que se o governo federal agilizar a contratação e compras de novas vacinas, o cenário será outro.
Um estudo realizado pela ONG Impulso Gov, apresenta três cenários diferentes levando em consideração a produção nacional de imunizantes, os acordos fechados no exterior e o número de pessoas em cada grupo prioritário, que de acordo com o governo federal totaliza cerca de 77,3 milhões de habitantes.
“Os números mostram que, no cenário intermediário, que parece mais provável agora, a vacinação dos grupos prioritários seria possível até o fim de abril. Já no pior cenário, em que o país só consiga alcançar metade da sua capacidade de produção de vacinas, todas as pessoas integrantes de grupos prioritários no Brasil estariam imunizadas até o fim de julho”
ONG Impulso Gov
Isabela Carrari
Já o painel “Monitora Covid” da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), prevê dois anos e meio para que a população inteira com mais de 18 anos seja vacinada – apenas com a primeira dose. Segundo informações do estudo, o ritmo de aplicação ainda é baixo em comparação com outros países, colocando o Brasil em um nível baixo de vacinação.
“Assim como foi observado no governo Biden, nos EUA. Uma meta de chegar ao fim do ano com toda a população vacinada, a gente precisaria da aplicação de cerca de 1,5 milhão de doses diárias”, relatou o médico epidemiologista do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, Diego Xavier.
Essa meta, porém, ainda é algo distante. Apesar de já aplicar cerca de um milhão de doses por dia – contando primeiras e segundas doses – esse resultado é um número inconstante no Brasil. Há dias em que esse resultado se mantém, mas também existem dias que a quantidade de vacinas aplicadas reduzem. A explicação para essa volatilidade pode ser explicada pela falta de doses do imunizante e pelo negacionismo. Mesmo após a primeira dose, existem pessoas que se negam a tomar a dose de reforço.
Novas vacinas ao Brasil
Apesar do cenário desesperançoso, o mês de maio trouxe boas notícias para a campanha de imunização do país. No dia 29 de abril deste ano, o Brasil recebeu um milhão de doses do imunizante da Pfizer.
No dia 03 de maio, os 26 estados do país e o Distrito Federal receberam e armazenaram as doses do imunizante. Dessa forma, uma nova vacina foi incluída na Campanha de Vacinação contra a covid-19. Confira no infográfico 06 quais são as vacinas que estão sendo administradas no Brasil:
O diferencial da vacina da Pfizer é que ela é a única que já possui o uso definitivo autorizado pela Anvisa. O que isso quer dizer? O uso definitivo de um imunizante diz que ele pode ser aplicado na população geral, sem precisar seguir a ordem emergencial já definido pelo órgão.
Diferente da Covishield e da Coronavac, que possuem apenas registro de caráter emergencial – podem ser aplicadas apenas no grupo prioritário definido pelo PNI, o imunizante alemão pode ser aplicado nas pessoas que não integram este grupo. Mas é importante ressaltar que, essa liberação não quer dizer que alguém fora deste grupo vai ser vacinada hoje ou amanhã. O PNI, instituído pelo Ministério da Saúde, tem uma ordem prioritária a ser seguida por estratégia de contenção do avanço do Sars-Cov2 e, até que todo esse grupo seja vacinado, ele ainda será a prioridade.
Diferente dos demais imunizantes que vão precisar entrar com um novo pedido pela Anvisa solicitado seu uso definitivo, a vacina da Pfizer já tem essa permissão. Portanto, encerrando o ciclo de prioridades, essa é a única vacina, até o momento, que vai pode ser aplicada nos brasileiros que ficaram fora do grupo prioritário.
Mas até lá e enquanto a vacina contra o coronavírus não chega para todos, o recomendado pelos profissionais de saúde ainda é o distanciamento social, o uso de máscara e a higienização correta das mãos, evitando assim demais proliferações desse vírus tão letal.
A guerra de informações travada nas redes sociais gerou muita controvérsia e dúvidas sobre as vacinas e a própria doença. No podcast, o infectologista brasiliense Mário Bill procura esclarecer algumas das várias questões que envolveram essa polêmica.
Os desatinos na gestão do combate à pandemia terminaram em CPI no Senado
O atraso do Brasil no combate à pandemia e também as atitudes do presidente da república, Jair Bolsonaro, foi motivo para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). A CPI da Covid-19, como foi chamada, foi instalada no dia 27 de abril e é presidida pelo senador Omar Aziz, tendo como vice-presidente o senador Randolfe Rodrigues.
O objetivo é saber quanto Bolsonaro interferiu nas ações do ministério frente à pandemia e se essa postura contribuiu para a aceleração do contágio e do número de mortes.
Os depoimentos que vão envolver todas as autoridades públicas que participaram do processo de gestão do combate à pandemia serão tomados pelos senadores. O primeiro foi ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, ouvido no dia 04 de maio. O médico declarou que o presidente foi alertado das consequências em não ouvir a ciência.
“Era muito constrangedor explicar porque o ministério estava indo por um caminho e o presidente por outro.”
Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde
A recusa de uma campanha governamental sobre a covid, a demora para a compra de vacinas, medidas de testagem, a insistência em medidas ineficazes e, entre outros assuntos, serão os temas abordados ao longo do inquérito.
Trabalho experimental realizado pela turma 2020 2 de Redação Digital do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Supervisão do professor Alexandre Kieling.
Texto, ilustração e apuração: Áurea Batista, Maria Luísa Martins e Raphaela Peixoto
A cidade faz aniversário junto ao periódico, o primeiro da capital
Brasília comemora 61 anos, mas não sozinha. É também aniversário do Correio Braziliense, jornal que a acompanha desde 21 de abril de 1960. A inauguração conjunta do periódico e da capital surgiu de uma aposta entre Juscelino Kubitschek, o então presidente da República, e Assis Chateaubriand, fundador do conglomerado de mídia Diários Associados. Chateaubriand desafiou o presidente, dizendo que “se ele fizesse a cidade de Brasília, no primeiro dia teria um jornal lá,” relata Ana Morelli, mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília.
Morelli é paulistana e chegou em Brasília no ano de 1985. No início dos anos 2000, ela obteve o título de mestre com a tese “Correio Braziliense: 40 anos – Do Pioneirismo à Consolidação”, trabalho vanguardista no estudo da trajetória do CB. Nele, ela analisa a evolução da linha editorial do periódico, bem como a relação dele com a cidade e a cobertura de fatos históricos marcantes. Ela conta que Chateaubriand viu ali a grande “oportunidade de criar o primeiro e maior jornal da cidade”, pois não havia nenhum diário consistente, só “boletins e jornalecos” durante a construção da capital. A Revista Brasília (1957 – 1960) foi uma dessas publicações temporárias. Nela, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) divulgava o desenvolvimento das obras.
OS PRIMEIROS TRAÇOS
O nome “Correio Braziliense” resgata o jornal de mesmo título que existiu no Brasil no século XIX. Poucos meses antes da inauguração da Imprensa Régia pela família real portuguesa, o gaúcho José Hipólito da Costa fundou o antigo CB, cujo primeiro número data de 1 julho de 1808. As páginas eram impressas em Londres e clandestinamente enviadas ao Rio de Janeiro, e circularam até 1822. Morelli escreve que nele já havia artigos em defesa da transferência da capital para o interior do país.
O CB já citou Hipólito como precursor do ideal de Brasília, ao lado de outras personagens históricas, como Tiradentes, José Bonifácio, Adolfo Varnhagen e Dom Bosco. Mas o plano ganhou força legal só após a proclamação da República. A Constituição de 1891 previa no artigo terceiro a demarcação de um território de 14.400 quilômetros quadrados no interior do país destinado à futura capital federal. Durante o governo de Floriano Peixoto (1891-1894), a Comissão Cruls fez expedições ao Planalto Central para demarcar a área do que seria o Distrito Federal. Menor do que o planejado no século XIX, o quadradinho do centro do Brasil possui, hoje, aproximadamente 5,8 mil quilômetros quadrados, segundo o GDF.
Imagens: Arquivo Público do Distrito Federal
O projeto só se concretizou com Juscelino Kubitschek. Quando JK era candidato à presidência da República em 1955, ele estava em campanha no município de Jataí – GO, quando um dos ouvintes o questionou se ele traria a capital do Brasil para o Centro-Oeste. E Juscelino disse que, “sendo a mudança um preceito constitucional”, o seu “governo daria os primeiros passos,” resposta registrada pelo CB. Joseil Martins, historiador pelo Centro Universitário de Brasília, conta que ele não se consultou com a assessoria de campanha antes de responder, e que a nova capital não fazia parte do plano de governo. O autor da pergunta gravada na história, Antônio Soares, faleceu em 2019.
Ao contrário dos outros agrupamentos urbanos do país, Brasília nasceu artificialmente. Foi planejada e traçada por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Alda Rabello Cunha, entre outros integrantes do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) do DF. E este é o único caso de instauração de uma cidade junto a um jornal próprio. Dado o seu protagonismo, o Correio Braziliense estabeleceu uma estreita relação com a população local, vinda de vários estados do país com a expectativa de melhores condições econômicas de vida. Os migrantes viam a nova capital como um “Eldorado,” definiu Martins. O Brasil deixava de ser um país só agrícola e começava a se industrializar, sendo Brasília o símbolo de modernização.
A banca e o jornaleiro
Lourivaldo Marques, 83 anos, veio de São Paulo e foi o primeiro jornaleiro. Com uma banca na quadra 108 Sul, ele diz que o CB sempre o apoiou. “Um exemplo foi o dia em que tiraram a minha banca, que era de madeira, e levaram para o depósito,” relata ele. “O CB, vendo que eu era humilde, me defendeu e me ajudou a trazê-la de volta.” Além das vendas cotidianas, ele sempre fez promoções culturais; por exemplo, “compre um livro e leve um jornal.” Assim, como jornaleiro e poeta, Lourivaldo conquistou fregueses e acompanhou o crescimento da cidade.
Foto: Bernardo Jr
O jornal, como negócio de notícias, vive da dinâmica econômica local, inclusive de anunciantes e classificados. E Brasília, inicialmente não tendo uma força econômica diversificada como São Paulo ou Belo Horizonte, oferecia ao CB anunciantes oficiais e estatais. Morelli explica que o forte da economia era apenas o salário das pessoas. Por isso, o CB era “meio subordinado” à máquina pública, diz ela.
CRIANDO RAÍZES
Após seis décadas desde a implantação do Plano Piloto, ainda surgem propostas a favor da volta do Rio de Janeiro como capital, ou semi-capital, do país. É o caso da PEC 148/2019, de autoria da deputada federal Clarissa Garotinho (Pros-RJ), que sugere a fusão da atual capital com a antiga. A finalidade seria repartir os recursos federais direcionados à Brasília como forma de indenização pela transferência. Contudo, a ideia não é inédita. Durante a década de 1960, houve forte movimento para o retorno ao Rio.
Ana Morelli ressalta que ainda não havia o apoio do grupo para o qual Brasília foi feita: diplomatas, políticos e funcionários públicos. A pesquisadora enfatiza também que Brasília se assentou sobre um terreno semelhante ao deserto. E, para ela, o cenário inicial “mais parecia um descampado de grandes massas de concreto por entre os quais rugiam os ventos e os redemoinhos de terra vermelha.” Demorou alguns anos para a cidade apresentar sua configuração ideal. Ademais, para estimular a vinda de funcionários, o governo os deu benefícios como aumento de salários e outros.
1956 – Criação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital
21/04/1960 – Inauguração conjunta de Brasília e do Correio Braziliense
1968 – 1ª Grande cobertura do CB: Invasão no campus da UnB
1971 – Implantação oficial da CEI – Campanha de Erradicação de Invasões – pelo então governador Hélio Prates
1976 – Mudança na linha editorial do CB por Evandro de Oliveira Bastos
Neste contexto, “a cidade ainda estava meio desenraizada” e “o Correio Braziliense sempre foi o jornal da cidade, ele sempre defendeu a permanência”, conta Morelli. A quarta página da edição do Correio de 1 de janeiro de 1970 registra a realidade dos primeiros 10 anos:
“(…) Só agora, passada uma década, Brasília começa a sentir-se realizada. A cidade, que levou apenas três anos a construir, exigiu 10 anos preparando-se para exercer, de modo pleno e efetivo, sua missão de Capital do País.“
Correio Braziliense, 1 de janeiro de 1970
“(…) O ex-Presidente Costa e Silva, ao assumir o poder, confessou deparar (sic) um dilema: deixar que a cidade se transformasse num soberbo e monumental fóssil arquitetônico, abandonando-a à sua própria sorte, ou promover, a curto prazo, sua consolidação definitiva. Optou, feliz e sensatamente, pela segunda alternativa (…).”
Correio Braziliense, 1 de janeiro de 1970
“E Brasília – depois de passar por uma década tentando sobreviver e afirmar-se, sofrendo campanhas de retôrno (sic), abertas ou camufladas; (…) sendo vítima de sabotagens no processo de transferência gradativa dos órgãos federais; (…) – entra num novo ano e numa nova década sob a mesma aura de otimismo que presidiu sua fase pré-inaugural.“
Correio Braziliense, 1 de janeiro de 1970
“Em 1960, ela surgiu cidade. Em 1970, ela surgirá Capital.”
Correio Braziliense, 1 de janeiro de 1970
Portanto, apenas a partir da década de 1970, estabeleceu-se uma perspectiva confiante quanto ao futuro da nova cidade como capital consolidada. Principalmente porque o ex-presidente militar Emílio Médici decidiu torná-la sede definitiva dos governos. No caminho à década seguinte, o CB se firmou como o principal meio de comunicação local, e a produção acompanhou o aumento do número de habitantes. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a tiragem do jornal era de 1,5 mil exemplares diários em 1963; a quantidade passou a 24,5 mil em 1969; e na década de 1980 atingiu 30 mil.
É comum ouvir recordações desse tempo num almoço de domingo que reúne familiares representantes de três gerações: a que migrou, a que nasceu na cidade ainda fresca, e a que cresceu na – ou aos arredores da – capital já formada. São as duas primeiras que se lembram dos garotos que saíam cedo, de bicicleta, para entregar as edições dos assinantes nas asas Sul e Norte; de como era impossível encontrar o jornal ainda à venda nas bancas depois de determinado horário, pois as edições rapidamente se esgotavam; e da qualidade informacional oferecida.
“Não tem como separar Brasília do Correio Braziliense.”
Joseil Martins
Uma das coberturas marcantes da década de 1970 é a da morte de Juscelino Kubitschek, registrada na capa de 23 de agosto de 1976. O acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra e todo o contexto é contado em detalhes. Além disso, relata-se que o ex-presidente teve de desmentir boatos de sua morte duas vezes ao longo daquele mês. Em edições posteriores, o CB expressa através de falas de parlamentares a inconformidade com o fato de JK ter morrido com seus direitos políticos cassados.
“Com a morte do construtor de Brasília o país perde um expoente político da última geração dos grandes líderes.”
Correio Braziliense, 23 de agosto de 1976
O CB é um jornal na sede do poder; a redação é muito próxima da esplanada. Então a ênfase no noticiário político e seus personagens ocorreu naturalmente. Ele tinha também a facilidade do tamanho ainda reduzido da população. Entretanto, não era tudo apenas política. Morelli destaca a relevância do jornal, um meio de comunicação de massa, na formação da identidade do povo. É por ele que todos tomavam conhecimento de eventos, lançamentos de discos, exibições de cinema, críticas sobre as obras, entre outros. Através da parte cultural, o leitor se vê nas páginas. E Martins acrescenta que “o CB sempre foi a voz de Brasília. Não tem como separar Brasília do Correio Braziliense.”
A fala de Juscelino durante a inauguração, afinal, tornou-se realidade:
“Esta cidade, recém-nascida, já se enraizou na alma dos brasileiros.”
Correio Braziliense, 5 de setembro de 1976
ERGUIDA PARA FICAR
O IBGE estimou em pouco mais de 3 milhões a população do Distrito Federal para o ano de 2020. E, de acordo com as projeções da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) para o mesmo ano, 2,8 milhões de habitantes estão nas cidades satélites, também chamadas de regiões administrativas (RAs). Algumas são mais antigas do que a própria capital, e hoje somam 33. O CB não tem mais a facilidade de cobrir tudo, e a diversidade de produção cultural aumentou ao ponto de existirem algumas totalmente independentes do Plano Piloto, características de cada satélite.
Para Morelli, a década de 1980 é a da consolidação de Brasília como agrupamento urbano. Com a Constituição Federal de 1988, Brasília passou a receber menos recursos federais. O governo local, portanto, teve de gerar novas formas de arrecadação. Além disso, é o período inicial da demonstração de força política dos habitantes. Os protestos contra o Plano Cruzado II, em 1986, reuniram na cidade a maior quantidade de pessoas desde as Diretas Já. Também conhecido como Badernaço, o movimento saiu na capa de 28 de novembro do CB. O jornal relata que o DF virou “uma praça de guerra durante quatro horas.”
1981 – Inauguração do Memorial JK
1986 – 3ª grande cobertura do CB: Protestos contra o Plano Cruzado II
07/12/1987 – Unesco tomba Plano Piloto e Vila Planalto como Patrimônio Cultural da Humanidade
1988 – Criação da Agência de Notícias dos Diários Associados e CB ganha o prêmio World’s Best Designed Paper do Society for News Design
1990 – 4ª grande cobertura do CB: Eleições gerais no DF
1993 – Ricardo Noblat começa a liderar o CB. Ele foi responsável pelas grandes reformas de 1996 e de 2000
1999 – 5ª grande cobertura do CB: Confronto entre Polícia Militar e grevistas da Novacap
O Centro de Documentação (Cedoc) do CB afirmou que, até o momento, a maioria das páginas da década de 1990 não estão digitalizadas.
Este é também o período em que o projeto urbanístico perde um pouco do rigor. “Afinal, estamos no Brasil, a gente não é muito estrito. A gente tem o dom de bagunçar as coisas,” diz Morelli. Aumenta a ocupação de áreas não previstas e a migração de habitantes do Plano Piloto para as cidades satélites, devido à alta dos preços imobiliários. A Ceilândia, por exemplo, surgiu da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI) criada no início da década de 1970; ela se tornou uma das RAs mais populosas, com mais de 400 mil habitantes em 2020, de acordo com o IBGE. As regiões administrativas continuam em expansão e as duas últimas foram estabelecidas em 2019.
Desvinculando-se da economia da máquina pública, o CB investiu em campanhas de assinatura no início dos anos 2000. Estava sob a direção de Ricardo Noblat, que pretendia diminuir a dependência de anunciantes. Morelli conta que ele também promoveu mudanças gráficas, mas o traço mais marcante, segundo ela, foi o estabelecimento de uma linha editorial mais independente, desalinhada do governo. Hoje, porém, a pesquisadora observa uma crise econômica no CB e a perda de espaço como jornal gerador de debate. “Ele ficou mais factual e menos reflexivo,” diz ela.
Muitos dos que vieram construir Brasília esperando encontrar uma “mina de ouro”, como mencionou Martins, acabaram indo morar em barracos, ou voltaram na mesma condição econômica difícil de quando chegaram. A cidade tornou-se socialmente “segregada e elitizada,” diz ele. Mas o historiador defende que não há sentido em transferir a capital de volta, pois a sede no centro do país proporciona a integração dos estados. Além disso, se Brasília perdesse esse título, “o que seria de todos os prédios públicos, toda a parte estrutural?” Questiona ele. “A cidade foi construída para isso.”
Com 61 anos, a cidade ainda é jovem, evidentemente mais nova do que vários moradores, como Lourivaldo. E ainda paira no ar a interrogação do que é, de fato, ser brasiliense, denominação que concentra as raízes culturais de outras regiões do Brasil, especialmente do Nordeste. Enquanto a resposta para essa questão se desenvolve a cada aniversário que se passa, os laços entre Brasília e o Correio Braziliense permanecem para a história.
Fotos: Áurea Batista
Disciplina de Visualização de Dados, Curso de Jornalismo de Digital, Universidade Católica de Brasília
Os registros de queimadas e incêndios têm aumentado a cada ano. Em 2020, o fogo, que atingiu a vegetação sobre áreas de preservação no território brasileiro, atraiu a atenção do mundo. A região do Pantanal, os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, vêm sofrendo com grandes focos de incêndio desde o início deste ano. É o maior incidente da última década e já destruiu nove vezes mais do que a área desmatada nos últimos dois anos. A fauna e a flora foram duramente afetadas. Aumentaram os casos de doenças respiratórias causadas pela fumaça e fuligem. O Brasil arde e precisa de ajuda. As medidas adotadas para combater o fogo e preservar a área verde do país não se mostram suficientes.
Lalo de Almeida – Folhapress.jpg
Nessa publicação vamos fazer um panorama das queimadas de 2020 e dos efeitos sobre a fauna, a flora e o agronegócio.
O Cerrado, a Amazônia e o Pantanal sentiram a devastação das chamas. Fotos pela ordem :Pedro Silvestre – Canal Rural; Iberê Périssé; José Medeiros; Gustavo Basso – Agência O Globo.
Poluição
Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o número de focos de incêndio até o final de outubro deste ano já supera o total relatado em 2019. As leis no Brasil autorizam as queimadas controladas como técnica agrícola, mas quando descontroladas, de acordo com a Embrapa, elas se tornam focos de incêndios.
Com os períodos de seca, há o aumento das queimadas em biomas como o Pantanal, o Cerrado e a floresta Amazônica, levando a consequências como poluição do ar, da água e do solo. Com isso, é possível observar diversos danos climáticos e malefícios à saúde das pessoas, além das perdas na fauna e na flora que agravam os ecossistemas.
Pedro Silvestre – Canal Rural.jpg
Mesmo com a chegada das chuvas, após a estiagem, os danos causados pelas queimadas continuam. As cinzas geradas pelo fogo são levadas para os rios e as nascentes, contaminando as águas. Já para o solo, a poluição, após os incêndios, prejudica os nutrientes da terra, que nem sempre conseguem ser reparados de imediato, atrapalhando o crescimento da vegetação local.
O Distrito Federal foi uma das áreas mais atingidas pelos efeitos das queimadas e incêndios, o que exigiu ações coordenadas das autoridades públicas, como da Secretaria de Meio Ambiente. Na entrevista acima, em formato de mesa redonda, a líder das ações, Carolina Schubert, apresenta um panorama da situação em Brasília e entorno. Coordenadora do Plano de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais PPCIF, ela detalha o plano de prevenção e combate, os métodos usados e a forma como a população pode ajudar a prevenir esses incêndios.
Diferente da poluição comum que acontece em cidades grandes, que tem uma longa duração e uma baixa intensidade de partículas ruins, a poluição do ar causado pelas queimadas apresenta um período menor de tempo, porém a concentração é muito alta.
Dessa forma, as incidências de doenças relacionadas a isso tendem a ser maiores quando as queimadas estão mais presentes.
No que diz respeito à saúde física dos seres humanos, a poluição do ar impacta principalmente o sistema respiratório, desenvolvendo crises de asma ou rinite, bronquite e até câncer de pulmão. Além disso, doenças cardiovasculares, como infarto ou acidente vascular cerebral (AVC), também podem ser desencadeadas com a elevada exposição ao ar poluído.
Pedro Guilherme Alves Rodrigues – Mestre em Ciências Biológicas pela Universidade de Brasília, professor da Secretaria de Educação do DF e consultor ambiental nas áreas de Zoologia e Mastozoologia.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que mais de quatro milhões de pessoas morrem anualmente em decorrência da poluição do ar ambiente em todo o mundo. Isso é ocasionado por conta da concentração de partículas inaláveis acima do recomendado pela organização. Com o ar poluído, ocorre uma liberação maior de carbono na atmosfera, reduzindo a quantidade de oxigênio e transformando o ar bom em ruim.
Frico Guimarães – Fotógrafo
Fauna prejudicada pelas queimadas no pantanal
O Pantanal, região que se estende pelos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, sofre com sua maior temporada de queimadas intensas nas últimas décadas. De acordo com dados obtidos pelo Prevfogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais), uma área de 2,34 milhões de hectares – equivalente ao estado de Sergipe – foi afetada pelas chamas neste ano. O espaço atingido representa 15% do Pantanal, área que corresponde à região metropolitana de São Paulo.
Mesmo com o baixo volume dos rios e o aumento da temperatura, grande parte do total de queimadas é ilegal. O Prevfogo assegura que uma das principais causas é a transformação do solo em área de plantio ou pastagem de gado. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a região sofreu um aumento das queimadas em 210% em comparação com o ano passado.
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Com o avanço rápido do fogo no pantanal, a biodiversidade do local acaba sendo afetada drasticamente. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, vivem no bioma cerca de 650 espécies de aves, 260 de peixes, 100 de mamíferos, quase 50 de répteis e 41 de anfíbios. Nesses grupos estão a onça-pintada e o lobo-guará, espécies em extinção, que estão estampados nas notas de 50 e 200 reais, respectivamente.
Foto por _ Tv Anhanguera_ reprodução
Um exemplo dessa situação crítica é um macho de onça-pintada que foi encontrado com queimaduras de segundo grau nas patas e graves sintomas de desidratação. O animal foi batizado de “Ousado”, devido a sua bravura ao ser resgatado por um helicóptero da Marinha do Parque Estadual Encontro das Águas. Ousado foi levado para um ONG em Goiás, onde foi tratado e teve alta no dia 15 de outubro.
Danilo Badke Lino – Presidente da Associação de Guarda-parques do Distrito Federal. Brigadista Florestal com especialização nas áreas de Manejo de Fauna Silvestre e na temática da Prevenção e Incêndios Florestais.
As onças-pintadas entraram na categoria “quase ameaçadas de extinção” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês). Já para o Ministério do Meio Ambiente, a espécie é considerada vulnerável (categoria que significa o risco de entrar em extinção).
O Parque Estadual Encontro das Águas, local onde existe a maior concentração de onças-pintadas do mundo, possui uma área de 108 mil hectares e foi um dos mais afetados pelo fogo. Analisando imagens de satélite da cidade de Poconé, em Mato Grosso, o Instituto Centro de Vida (ICV) estima que mais de 85% da área de reserva do parque foram devastadas.
Fernando Tortato – arquivo pessoal
Fernando Tortato, pesquisador do Instituto Panthera, ressalta a importância do Parque Estadual Encontro das Águas.
“O parque possui um corredor protegido que sempre garantiu um bom habitat para a vivência das onças. Além de ser um importante lugar de estudos, acaba favorecendo o turismo também.”
Fernando Tortato
Segundo especialistas, a onça-pintada é um animal importante no ecossistema em diferentes biomas do Brasil. É o caso da bióloga Lilian Elaine, coordenadora da associação Onçafari, conhecida pela atuação para preservar as onças-pintadas e lobos-guarás.
Lilian Elaine – arquivo pessoal
“Por serem totalmente carnívoras, elas podem controlar o número de presas na região, como veados e capivaras. Como as onças-pintadas estão no topo da cadeia alimentar, elas não permitem uma explosão populacional de espécies inferiores.”
Lilian Elaine
Os registros do Prevfogo revelam ainda que a Fazenda São Francisco do Perigara, em Barão de Melgaço (MT), teve 92% dos seus quase 25 mil hectares devastados pelas queimadas. O local é conhecido por abrigar 15% das araras-azuis que vivem na natureza no mundo.
Letícia Larcher – arquivo pessoal
A bióloga e doutora em Ecologia e Conservação Letícia Larcher, coordenadora técnica de projetos do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), explica que os animais não morrem apenas pela carbonização, mas também sofrem com a falta de alimento, abrigo e ambiente propício para a procriação. A doutora atua na Serra do Amolar, no Mato Grosso do Sul, onde existem oito espécies consideradas em risco de extinção pela IUCN.
Larcher ainda destaca a dificuldade das aves atingidas pelo fogo.
“Elas (as aves) tentam fugir para o mais longe possível, mas não têm local para pousar, pois a floresta está pegando fogo. Além disso, não possuem alimentos ou lugar para fazer seus ninhos.”
Letícia Larcher
Os animais aquáticos também sofrem com as queimadas, como é o caso das ariranhas. Larcher explica que essa espécie vive nas margens dos rios e lagoas e também está ameaçada de extinção. Destaca ainda que, na primeira chuva na região, as cinzas advindas do incêndio serão levadas para os rios, modificando o pH da água e causando grandes problemas no ecossistema na região.
Não existe um estudo para estimar quantos animais morreram ou sofreram danos em razão do fogo. Isso se dá pelo fato de que cada espécie dá uma resposta diferente às queimadas e depende da quantidade de bichos no local.
Estima-se que arbustos e gramas levam no máximo cinco anos para renascer, porém as florestas e os animais irão levar de 20 a 30 anos para uma total recuperação, é o que calcula a professora da Universidade Federal de Mato Grosso, Cátia Nunes.
“É bem difícil fazer um cálculo de estimativa assim pelas poucas pesquisas financiadas atualmente, mas analisando queimadas na década de 60 é possível pensar que vai levar no mínimo 20 anos e no máximo 30 anos para uma recuperação completa.”
Cátia Nunes
Foto_ Claudia-Andujar-1
Os incêndios também deixam em situação crítica as reservas indígenas. Muitas aldeias sofreram.
As tribos vêm cobrando medidas do governo federal. A principal preocupação dos chamados povos originários é com o uso indevido da terra.
O agronegócio no centro do debate
O desafio de usar a tecnologia e a sustentabilidade para superar a motosserra e o fogo.
Gustavo Basso 5
A produção no campo entre o passado e o futuro
Historicamente, o mercado interno sempre absorveu a maior parte da oferta de carne bovina do Brasil e o excedente tem sido destinado à exportação. Por isso, a indústria frigorífica nacional não se empenhava em melhorar os padrões de qualidade exigidos pelo consumidor externo.
Em meados dos anos 1970, diversos programas de crédito voltado para pecuaristas foram criados, sendo os mais relevantes: Programa Nacional de Pastagens (Pronap), Programa Nacional de Desenvolvimento da Pecuária de Corte (Propec) e o Conselho de Desenvolvimento da Pecuária (Condepe). Com o incentivo do governo, foi possível que a indústria se desenvolvesse melhor e passasse a atender as exigências dos mercados internacionais, como a rastreabilidade dos animais abatidos, cortes diferenciados e técnicas especiais de abate.
Porém, as mudanças só foram sentidas de maneira significativa na década de 1980. Isso porque, com mais investimento, foi possível que os grandes agricultores apostassem em vacinas e medicamentos para tratar melhor os animais. Foi nessa mesma época que a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Sistema Emater) surgiu para ajudar o ramo. Assim, foram iniciados estudos para melhorar a nutrição e a genética dos bichos.
Segundo dados da Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carnes Industrializadas (ABIEC), entre os anos 1990 e 98, a pecuária foi responsável por 90% de toda a exportação nacional. No gráfico abaixo, da própria ABIEC, é possível ver os impactos econômicos na pecuária brasileira. Em 1989, já revela os impactos das medidas adotadas no governo Collor (1990-1992). Em 1995, a decadência da quantidade de exportações se dá ao segundo ano do Plano Real (1994), pois o brasileiro passou a ter mais poder aquisitivo e, consequentemente, passou a consumir mais carne, ou seja, a produção ficou voltada para o consumo interno.
Em 2019, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil foi de R$ 7,3 trilhões, dos quais 8,5% se dão à atividade pecuária. Mesmo com a grande quantia de dinheiro que a área movimenta, os produtores rurais sempre buscam alguma forma para diminuir os custos de produção e aumentar o lucro. Desse modo, é comum que produtores ainda ateiem fogo nas áreas onde querem colocar os animais para se alimentarem, uma forma simples de eliminar a vegetação natural e crescer pasto.
A Dra. Sandra Aparecida Santos é Zootecnista formada na UNESP Botucatu, com Mestrado na ESALQ/USP e possui Doutorado na UNESP Botucatu. Trabalha na Embrapa Pantanal desde 1987, onde atua na área de Produção Animal Sustentável, com foco no manejo de raças localmente adaptadas e pastagens nativas.
Atualmente, o pantanal é o bioma brasileiro que tem mais sofrido com essas queimadas. Com mais de 250 mil km² de extensão, a área está localizada na região centro-oeste do Brasil, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e também, em pequena parte, no norte do Paraguai e leste da Bolívia. É considerada a maior planície alagada contínua do mundo, com 140.000 km². O lugar começou a ser explorado com a chegada dos portugueses no Brasil, por volta de 1525. O primeiro a começar a destrinchar as terras foi Aleixo Garcia, um português que conheceu o local por meio do Rio Paraguai e passou a garimpar por pedras e metais preciosos, cultura essa que segue até hoje. Porém, o Pantanal também foi explorado pelos pecuaristas. Na década de 1960, em uma tentativa de ajudar no desenvolvimento do Centro-Oeste, o governo brasileiro criou medidas fiscais atrativas para os grandes produtores de gado de corte. Segundo o Instituto SOS Pantanal, cerca de 15% da área do Pantanal foi convertida em pastagem.
Fotos da Associação de Guarda-Parques do Distrito Federal, cedidas pelos brigadistas e voluntários que atuaram no combate ao fogo.
De janeiro a julho deste ano, foram registrados 4.218 focos de incêndio em todo o Pantanal, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Infelizmente, esse não é um caso isolado. O Inpe registrou, em 2009, o total de 2.527 focos. Esses incêndios estão diretamente ligados com as queimadas de pasto. Ainda segundo dados da Abiec, o aumento da criação de rebanho bovino tem crescido, principalmente, na região do Centro-Oeste.
Outro problema que afeta o Pantanal é a situação dos rios. A bacia do Paraguai, que envolve todas as nascentes do Rio Paraguai, nasce ainda no Cerrado e, quando desmatado, influencia no nível da água que vai pelo rio até chegar ao bioma. Além disso, com o desmatamento do Cerrado, as chuvas tendem a levar os sedimentos dessas regiões para o rio. Antes esse fluxo era barrado pela própria floresta. Com o sedimento indo para o rio, as bordas passam a ficar assoreadas, deixando o nível das águas mais baixo, alterando a pureza e afetando o ciclo hídrico.
Econocast – o podcast que busca saber os rumos da economia. Hoje o assunto é o caminho do agronegócio. Foto da Associação de Guarda-Parques do Distrito Federal
Você sabia que dá para o agronegócio crescer de forma sustentável e sem desmatar? É o que você confere no episódio de hoje.
Trabalho experimental realizado pela turma 2020 2 de Redação Digital do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Supervisão do professor Alexandre Kieling.
O último dia de 2019 ficou marcado para a maioria das pessoas como mais uma virada de ano, de década, mas não para a comunidade científica. Esse 31 de dezembro marcou para sempre as lembranças das autoridades da cidade de Wuhan, na China, quando confirmaram o primeiro surto do novo coronavírus. O vírus, de fácil disseminação, logo foi cruzando fronteiras e continentes, até que em 11 de março deste ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou pandemia. Aquele fim de ano também iniciou uma escalada de eventos que mudaram o rumo e o ritmo da economia global.
O setor de serviços, especialmente o comércio, sofreu bastante. A economia brasileira, que já enfrentava dificuldades internas e limitações no mercado internacional, rapidamente sentiu os efeitos do isolamento e a consequente redução de consumo. O último estudo da Price Water House Coopers (PwC), já indicava uma performance muito tímida do Brasil. Das 100 maiores empresas globais listadas na amostra, nenhuma companhia brasileira estava no ranking, enquanto os Estados Unidos (EUA) computavam 57 empresas listadas. A pandemia só agravou a situação.
Perdas e ganhos
A desidratação da economia deixou vulnerável o que já vinha de ciclos de instabilidade. No mundo todo a concentração de esforços foi reduzir perdas econômicas e especialmente sociais.
“Vivenciar toda a experiência de uso de máscaras, isolamento social e perdas de vidas provavelmente irá deixar grandes cicatrizes nos habitantes pelo mundo e quanto mais tempo durar, maior será o problema econômico e social na população”,
Gita Gopinath, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI)
Países já estudam formas de reduzir o impacto em seu Produto Interno Bruto (PIB). Entre as medidas buscam incentivar o consumo online ou o turismo consciente, que implica em cuidar da cultura local e o ambiente visitado. O esforço é fazer rodar a economia, seguindo as medidas de segurança sanitária recomendadas pelas autoridades internacionais. Mas todos sabem que a caminhada de recuperação será longa.
“Provavelmente, a maioria das economias demorará de dois a três anos para voltar aos níveis de produção que tinham antes da epidemia”,
Consultoria britânica IHS Markit
No Brasil, os indicadores de desempenho indicam que, além do comércio, a indústria também foi atingida.
O Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) n° 38, produzido pela Instituição Fiscal Independente (IFI), aponta que a crise causada pelo novo coronavírus afeta o Brasil em quatro pontos principais:
1) um abalo da demanda exterior, principalmente causada pelo fechamento das economias de outros países que o Brasil tem ligação econômica forte, como China, Estados Unidos e Índia;
2) um abalo na economia interna, decorrente do fechamento da economia brasileira que afeta diretamente o consumo privado;
3) um abalo no preço do barril de petróleo, que prejudica o Brasil por ser um grande exportador do produto;
4) a grande alta do preço do dólar, que incapacita a economia diretamente e desvaloriza a moeda local.
A conta de prejuízos no setor atingiu bilhões. Cancelamento de voos, bloqueio de voos internacionais, a pouca demanda aérea local, além da alta do dólar colapsam as empresas. A Azul, por exemplo, registrou uma perda de R$ 6,1 bilhões no primeiro trimestre do ano, algo inédito na companhia.
Os setores de entretenimento e alimentício também foram prejudicados diretamente pela crise. Inúmeros shows, eventos e festivais tiveram suas realizações canceladas ou adiadas para datas indefinidas. O festival de música alternativa Lollapalooza, que acontece em diversas cidades pelo mundo, foi transferido para setembro de 2021. No último evento aqui no Brasil, o evento registrou um público de 246 mil pessoas no circuito de Interlagos, local onde acontecem as apresentações.
Business concept. Business people discussing the charts and graphs showing the results of their successful teamwork. Selective focus.
No cinema, vários lançamentos blockbusters tiveram que ser adiados com o fechamento das salas de exibição. A alternativa foi o lançamento direto para as plataformas online. As lives também se tornaram o refúgio de artistas que tiveram que cancelar suas agendas lotadas de shows pelo Brasil. Restaurantes tiveram que ser fechados de acordo com os decretos estaduais e recorreram aos deliverys para sobreviverem.
Todos se lançaram em busca de alternativa de renda.
Os efeitos da crise econômica foram imediatos nas famílias com baixa e baixíssima renda, que buscam trabalho no serviço direto ao consumidor. Segundo o estudo do Banco Mundial, o número de pessoas que vivem com renda abaixo de meio salário mínimo (R$ 522,50) por mês poderia aumentar entre 5,6 milhões e 9,2 milhões. Porém, algumas políticas públicas, como o Auxílio Emergencial e o aumento de famílias beneficiárias do Bolsa Família, ajudaram a atenuar o cenário e o número deve ser mais baixo.
Empresas de água e de energia também estão sendo fortemente afetadas. Grande parte do prejuízo advém da queda do consumo de eletricidade e água, visto que muitas lojas, comércios e indústrias tiveram suas vendas e produções paralisadas. Além disso, atrasos na produção também são outro fator que geram ainda mais problemas nas empresas. O transporte urbano sofre do mesmo transtorno, visto que o número de passageiros caiu entre 50% e 70% nas áreas metropolitanas do país.
Mesmo com tantos problemas e prejuízos, houve um setor que se beneficiou do isolamento social. As empresas de comércio e serviços online, com a população em casa e conectada, experimentaram uma grande alavancagem nos seus negócios. Quem já era muito grande ficou bem mais gigante. Amazon, Apple e Facebook foram algumas das que mais cresceram durante o período da pandemia.
A indústria de cosméticos, delivery, farmacêuticos e comércio digital também registraram recordes em suas vendas pelo mundo, mostrando que com a adequação correta é possível contornar os problemas.
A onda de serviços online neste ano não parou com as diversas plataformas de streaming. De acordo com a Cashback World, o Brasil apresentou um aumento nas compras online de 73% em março. As plataformas de e-commerce mais acessadas foram: • Pets (209%) • Saúde & Beleza (91%) • Alimentos & Bebidas (28%) • Eletrônicos (14%) • Farmácias (10%)
Novos serviços e negócios surgiram nesse embalo. A publicitária Ohana Boechat, 22 anos, foi uma das pessoas a ter um novo empreendimento durante a pandemia. Apesar de sempre ter tido vontade de abrir seu próprio negócio, foi só quando as coisas apertaram que a empresária viu uma oportunidade de pôr em prática o seu sonho. A Meraki Comunicação, agência de comunicação, nasceu em 19 de junho, e vem tendo muitos clientes que também procuram impulsionar os negócios.
O consumidor na rede
Segundo dados da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm), entre 23 de março e 31 de maio, 107 mil novos estabelecimentos foram criados na internet para a venda dos mais diferentes produtos, como alimentos, bebidas, roupas, calçados e produtos de limpeza. Antes da quarentena, a média de abertura de lojas na internet era de 10 mil estabelecimentos por mês.
Mesmo com a grande quantidade de novos negócios, o número de desempregados cresceu significativamente. Os dados divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (Pnad Contínua) revelam que a taxa de desemprego subiu para 13,3% no segundo trimestre deste ano. Essa é a maior taxa desde o primeiro trimestre de 2017.
Com o corte da renda, muitas pessoas deixaram de comprar coisas novas e optaram por comprar coisas usadas. Esse tipo de compra é classificada como economia circular. Atualmente, segundo relatório da Ellen MacArthur Foundation, cerca de 82 bilhões de toneladas de matéria-prima são inseridas no sistema produtivo mundial a cada ano. Pensando no meio ambiente e no coletivo, diversas pessoas têm procurado novas formas de consumo, assim, muitos brasileiros têm buscado comprar roupas, sapatos, eletrônicos e carros usados.
Muitas Startups conseguiram se adequar ao momento e oferecer seus serviços para os clientes de maneira adequada e segura.
Roselene Fachini, 50 anos, tem um brechó há nove anos. Ela contou que antes do início da pandemia da Covid-19, ela e algumas amigas estavam vendendo os produtos usados em um clube. Com o início da quarentena, ficou mais difícil realizar as vendas. Agora, o principal meio de venda delas é um aplicativo de mensagens. Apesar de as atividades do clube terem voltado ao normal, Fachini não tem expectativas para o retorno.
“Não estamos confiantes em nos expor, e também devemos ter cuidado com o próximo. Por enquanto, estamos no WhatsApp e com clientes fiéis que já nos conheciam.”
Roselene Fachini.
O setor de cursos foi campeão neste quesito. A Samba Tech, empresa especialista em distribuição de videoaulas, registrou 90% de aumento no consumo de seus vídeos online no primeiro trimestre do ano.
A maior plataforma de ensino à distância da América Latina, a Hotmart, é conhecida por oferecer um espaço digital para afiliados que buscam criar, divulgar ou expor seus produtos online. A empresa soube buscar seu público durante a crise e hoje registra cada dia mais alunos para sua plataforma.
Cursos profissionalizantes por ensino à distância (EAD) tomaram novas formas durante a pandemia e atraíram diversas pessoas em busca de qualificação neste momento. É o caso da Via Certa Educação Profissional, rede que atuava anteriormente a crise com o EAD e viu seus números dispararem durante a pandemia.
Décio Marchi
Décio Marchi, diretor executivo da empresa, explica que ainda há muito preconceito aos cursos online, mas que o EAD será tendência durante e depois da crise causada pelo novo coronavírus.
“As pessoas já estão desmistificando aquela teoria que se tinha de que estudar à distância é sinônimo de falta de qualidade. Pelo contrário. Quando começamos a atuar dessa maneira, com o início da pandemia, nossos alunos perceberam que também era possível ter o mesmo em casa, como se fosse uma aula presencial”,
Décio Marchi.
Artesanato
A área de artesanato foi outra que buscou se adequar aos seus consumidores. Antes voltada para atender um público pequeno, o artesanato foi essencial no combate ao vírus. Bilhões de máscaras de tecido foram confeccionadas para atender clientes exigentes que buscavam se prevenir da Covid-19. No início, a busca foi por produtos simples e que chamassem a menor atenção possível. Porém, com o tempo, a população adotou as máscaras como item de moda, sendo produzidas com estampas, formatos e cores diferentes.
E a confecção de máscaras se transformou em alternativa para inúmeras pessoas conseguirem pagar as contas do mês. É o caso da aposentada Ivanice Meireles, de 76 anos, que encontrou no artesanato a maneira de ajudar no sustento da casa.
Ivanice Meireles
“Fazer máscaras foi a alternativa que eu encontrei para manter minha renda. No começo, eu pesquisei na internet os modelos e comecei a fazer máscaras para o pessoal aqui de casa, mas depois veio a ideia de fazer para vender. Procurei vender em locais que não poderiam entrar sem máscaras, então as pessoas sempre iam atrás dos meus produtos”,
Ivanice Meireles.
Outro ramo que se destacou foi o de entregas por aplicativo, que teve que aumentar seus entregadores para suportar a grande demanda de pedidos. Comidas, roupas, eletrônicos e farmacêuticos são alguns exemplos de produtos que são pedidos pelos aplicativos e levados até as casas dos consumidores.
Uma das pessoas que encontrou alternativa nos aplicativos de entrega foi Fábio Oliveira, de 23 anos, que ao se deparar com a paralisação das aulas na Universidade Católica de Brasília decidiu realizar entregas para complementar a renda de casa.
“Queria ajudar minha mãe, que ficou desempregada na pandemia, então peguei uma moto emprestada com um tio e comecei no aplicativo. O trabalho rende, mas me sinto muito desvalorizado, além de ser muito perigoso”,
Fábio Oliveira.
Vale destacar que os entregadores reivindicam melhores condições de trabalho e pagamento para a categoria. No dia 1° de julho, trabalhadores da área se organizaram para protestar contra os aplicativos, com o argumento de serem desvalorizados, estarem sendo expostos a uma situação perigosa e que não recebem conforme o trabalho exercido.
Desemprego
Diante dos diversos obstáculos que o novo coronavírus acarretou na vida da população mundial, o desemprego continua sendo uma das maiores dificuldades para boa parte dos trabalhadores brasileiros. Comércios fechados, ruas vazias, escassez de vendas e diminuição dos lucros foi o que levou, no início da pandemia, em março de 2020, ao declínio da economia e redução na oferta de empregos no país, .
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD COVID-19), no Brasil, 13,5% das empresas reduziram o número de seus funcionários em julho, enquanto 6,2% da população foi afastada devido ao distanciamento social. Portanto, 5,8 milhões de pessoas foram afastadas de seus trabalhos e 8,3 milhões passaram a trabalhar remotamente. Escolas, universidades, instituições, empresas privadas, públicas e diversos outros segmentos ativos tiveram que se adaptar às reuniões online, para manter o desempenho e o planejamento do ano.
Porém, nem todos conseguiram conservar sua capacidade financeira. Segundo a PNAD, 3,2 milhões de pessoas afastadas dos empregos deixaram de receber remuneração. Dos que se mantiveram remunerados, 24,1 milhões de pessoas sofreram redução de salário. Para a pesquisa, apenas 44,1% da população recebeu o auxílio emergencial. Muitos não foram aprovados e não possuem uma fonte alternativa de renda.
Ainda em maio deste ano, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) relatou que em 49% das empresas o afastamento de seus funcionários ocorreu devido aos sintomas do coronavírus. A preocupação pela população de grupo de risco foi um pouco maior: 65% da indústria optou pelo distanciamento para preservar a saúde de seus funcionários. Porém, no Brasil, 8% teve contrato suspenso temporariamente e 15% teve suspensão definitiva. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no segundo trimestre de 2020 a maior parte de pessoas desocupadas no país tem idade entre 25 e 39 anos.
Já no Distrito Federal, o mês de junho registrou 327 mil pessoas desempregadas, de acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego, realizada pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (CODEPLAN) e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). De junho de 2019 a junho de 2020, o número de desocupados aumentou em 8 mil pessoas, diminuindo a empregabilidade em 3,1%. Apesar dessa baixa, a taxa de desemprego ficou relativamente estável, ao passar de 21,3% para 21,6%, entre maio e junho deste ano. Veja mais dados no vídeo a seguir:
De acordo com a pesquisa feita para a disciplina de Redação Digital, de 66 pessoas entrevistadas, 19 afirmam que perderam o emprego devido a pandemia do novo coronavírus. Do total, 85,4% afirmaram que conhecem alguém que ficou desempregado no período de isolamento social. Para os que não foram suspensos, 62,2% continuaram o trabalho de forma remota e 30,2% sofreram redução de salário. De 37 respostas, 24 afirmam que a falta de emprego acarretou em problemas financeiros. Dos que solicitaram o auxílio emergencial, mais da metade não foi aprovado e 57,1% relatam que não possuem fonte de renda alternativa.
Anderson Morais trabalhava na área de administração e como fotógrafo da casa de festas noturnas “Victoria Haus”. Devido a pandemia, foi demitido, assim como outros funcionários do local, por falta de receita no estabelecimento. Com o isolamento social, o entretenimento foi uma das áreas mais afetadas por conta da proibição de aglomerações.
“Muitos DJs, drags, fotógrafos… está um caos. Muita gente realmente precisa trabalhar para se sustentar”,
Anderson Morais
Anderson ainda solicitou o auxílio emergencial do governo, mas não foi aprovado. O recurso ajudaria, mas como ele mesmo lembra, o valor de 600 reais não seria suficiente para a estabilidade financeira das famílias, “pois só o valor de um aluguel é quase isso”. Diante do infortúnio, conseguiu se reinventar e usar sua profissão como renda extra para se sustentar durante a crise.
“Estou recebendo o seguro desemprego e estou me virando com um projeto de fotografia em Preto e Branco, como ensaios sensuais. É o que tem me ajudado também”,
Anderson Morais.
Retomada das atividades
Depois de um longo período fechado devido a pandemia do novo coronavírus, o comércio da capital voltou às atividades. Seguindo o plano de reabertura definido pelo Governo do Distrito Federal (GDF), os salões de beleza, barbearias e academias estão funcionando desde o dia 7 de julho. Já os bares e restaurantes retornaram na semana seguinte. Igrejas, parques, shoppings e centros comerciais abriram nos meses anteriores.
Para que isso ocorresse, foi necessário estabelecer novas regras para o funcionamento de cada serviço e adequar os estabelecimentos à nova realidade. No caso dos salões e das barbearias, algumas das obrigações são: higienização regular das cadeiras, distância de dois metros entre os clientes e a esterilização de todos os equipamentos após cada atendimento. Além disso, é recomendável manter o ambiente ventilado.
De acordo com a proprietária de um salão de beleza no Distrito Federal (DF), Bruna Casteliano, a loja precisou reduzir o número de funcionários criando uma escala de trabalho e ajustar o espaço conforme as exigências do governo. Mesmo com a queda no faturamento do setor , ela optou por reabrir o estabelecimento para não fechar as portas e demitir os empregados.
“Nós nos adaptamos a todas as mudanças que foram exigidas pelo governo e decidimos que é melhor continuar trabalhando do que fechar. Diminuímos pela metade o quadro de colaboradoras e elas continuam recebendo. O foco principal neste momento é manter as pessoas trabalhando com toda segurança para evitar o aumento do índice de desemprego e a propagação do vírus”,
Bruna Castelian
Em relação às academias, as regras incluem a limpeza dos equipamentos de uso comum regularmente, a delimitação do espaço para a prática dos exercícios, mantendo a distância entre as pessoas, e o fechamento do local ao menos uma vez ao dia por 30 minutos para higienização geral. Ainda, ficaram proibidas as aulas coletivas e o uso de bebedouros e chuveiros.
Para os estabelecimentos comerciais, as obrigações de saúde geral são mantidas e determinam também a garantia do espaçamento entre os clientes, a utilização de máscaras de proteção por todos, o revezamento dos trabalhadores, a proibição de pessoas do grupo de risco no trabalho, a disponibilização de álcool em gel e aferição de temperatura dos clientes e funcionários.
Supermercado na zona sul do Rio de Janeiro.
No caso dos bares e restaurantes, a higienização das mesas, cadeiras e cardápios constantemente está entre as exigências. Além disso, é necessário manter a disposição das mesas distantes com o limite de seis pessoas em cada e a disponibilização de talheres em embalagens individuais. Os locais devem funcionar com metade da capacidade e com restrição ao serviço de autoatendimento ou self-service.
Dono de uma hamburgueria na Arniqueiras, região administrativa do DF, Maurício Nunes encontrou dificuldades para manter o negócio com a chegada da pandemia do novo coronavírus. Ele precisou adaptar o local e os funcionários para enfrentar a situação. Segundo ele, mesmo depois da reabertura, o movimento ainda está fraco, e o motivo para isso pode ser o medo da população em sair de casa.
“Nas primeiras semanas, perdemos insumos, não conseguimos estruturar tele-entrega tão rapidamente e foi preciso gastar as economias para pagar os funcionários. Depois da reabertura, o movimento ainda não está normal: a população ainda tem receio, evita ambientes de contato, e, mesmo adotando todas as medidas sanitárias, ainda não conseguimos restabelecer o movimento de antes”,
Maurício Nunes
Receio dos clientes
A retomada do comércio em meio a pandemia divide opiniões. Para alguns, o GDF está certo em reabrir os estabelecimentos para permitir o giro da economia e uma diminuição no desemprego. Enquanto, para outros, não era o momento ideal, por medo de pegar a Covid-19, com tantas pessoas circulando nas ruas, aumenta frente à tudo funcionando, mesmo que existam novas regras de segurança.
De acordo com Abelardo Junior, morador da capital, o comércio ficou muito tempo fechado e causou prejuízos para muitas pessoas. “É preciso retomar as atividades para não criar um problema maior, mas, para isso, as medidas de segurança devem ser priorizadas pelos comerciantes e pela população geral”, enfatiza ele.
Em contrapartida, para Rodrigo Manzan, residente em uma região administrativa do DF, não precisava abrir o comércio todo e tão rapidamente como ocorreu, já que a cidade ainda está no pico do número de infecções. “Acredito que não era o momento de retornar, mesmo sabendo das consequências. Brasília ainda enfrenta uma alta no número de casos. Não me sinto seguro e confortável para sair e frequentar ambientes públicos”, ressalta ele.
Planejamento de reabertura
O governo de cada estado ficou responsável pelo controle da retomada de atividades. Para isso, a maioria estabeleceu planos de reabertura seguindo um planejamento conforme a ocupação de leitos nos hospitais. Locais que estavam na fase 1, por exemplo, apresentavam uma ocupação de leitos acima de 80% e a necessidade de distanciamento social completo.
Enquanto na fase 2, a ocupação de leitos deve estar abaixo de 80% e permitindo o distanciamento social seletivo. Nesta etapa, estão liberadas atividades como cultos religiosos e shoppings (sem a liberação de praças de alimentação), concessionárias, academias, salões de belezas e lojas de roupas, informática, eletrodomésticos e sapatos, entre outros.
Por fim, existem as fase 3 e 4. A primeira tem ocupação baixa e cenário epidemiológico melhor e abertura comercial seletiva, permitindo o funcionamento de todo o comércio, à exceção de casas de shows, boates, bares e restaurantes e eventos com mais de dez pessoas. A segunda permite que tudo esteja autorizado para funcionamento e prevenção contínua.
Trabalho realizado pela turma 2020 2 de Redação Digital do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília. Supervisão do professor Alexandre Kieling.
O racismo é um dos principais problemas enfrentados na história do país causando exclusão, desigualdade social, violência e repressão.
Moagem de Cana Fazenda Cachoeira, Benedito Calixto de Jesus. Campinas,1830. Museu Paulista da USP
Os episódios de racismo são recorrentes no Brasil, o debate sobre o assunto ganhou proporção em meio a pandemia do COVID-19 devido aos casos de Pedro Miguel no Brasil e de George Floyd nos Estados Unidos, ambos em ações truculentas com a polícia.
As mortes repercutiram mundialmente originando manifestações em diversas cidades. O preconceito racial, que envolve várias outras diferenças, como gênero, local de origem, orientação sexual e a discriminação com os povos indígenas, entraram na pauta.
(1) João Pedro Matos Pinto/ George Floyd; (2) 4 países da África pedem que EUA sejam investigados por racismo e abusos de força policial//Stephane Mahe/Reuters – 08.06.2020; (3) Fotos por: Matheus Guimarães // Voz das Comunidades; (4)Manifestantes protestam contra o racismo e o Governo Bolsonaro em São Paulo//AMANDA PEROBELLI / REUTERS
“As vidas negras importam”
O movimento que ocupou ruas no planeta
As populações indígenas, assim com os africanos trazidos como escravos, foram vítimas do processo de colonização europeia no país.
O dicionário brasileiro de língua portuguesa, Michaelis, define racismo como teoria ou crença que estabelece uma hierarquia entre raças (etnias), preconceito exagerado contra pessoas pertencentes a uma raça (etnia) diferente, geralmente considerada inferior e atitude hostil em relação a certas categorias de indivíduos, isso ganha sentido no Brasil a partir de uma construção histórica entre os séculos XVI e XIX, gerando a atual configuração social.
Construção histórica
A discriminação pela origem pode ser reportada na Antiguidade, quando alguns povos consideravam comunidades diferentes como bárbaros. O preconceito racial foi alavancado nos séculos XVI e XVII com a expansão marítima e colonização do continente americano. “Os europeus dominaram o ‘novo mundo’ e ,em consequência, houve um genocídio dos povos nativos e a escravização de milhões de africanos. Resultou então nessa hierarquia racial na qual os europeus se consideravam mais inteligentes e por muito tempo negros e indígenas foram considerados animais”, explica a professora de história geral,Cristiane Vilela, de 38 anos.
No século XIX, com o impulso positivista sobre as ciências, teorias científicas racistas surgiram para tentar hierarquizar as raças e provar a superioridade da raça branca pura. O filósofo, diplomata e escritor francês Arthur de Gobineau (1816-1882) é um dos que mais se destacaram nesse cenário com o seu ‘Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas’.
Já no século XX, o nazismo alemão e entidades como a Klu Klux Klan, nos Estados Unidos, utilizaram e utilizam essas teorias raciais ultrapassadas para justificar a supremacia da raça branca que consiste na ideia de que os brancos devem governar os não brancos.
Manifestantes protestam contra o racismo e o Governo Bolsonaro em São Paulo//AMANDA PEROBELLI / REUTERS
No Brasil
A Lei Áurea, ou Lei Imperial número 3.353, extinguiu a escravidão no Brasil. O texto foi sancionado pela Princesa Isabel, que exercia, na ocasião, a função de Princesa Regente, já que seu pai, o imperador D. Pedro II, estava fora do país para tratar de sua saúde.
O Brasil foi o último grande país ocidental a extinguir a escravidão e, como aconteceu na maioria dos outros países, não se criou um sistema de políticas públicas para inserir os escravos libertos e seus descendentes na sociedade, não garantindo a essa população direitos básicos, como moradia, saúde e alimentação, além do estudo formal e posições no mercado de trabalho.
A Lei Áurea foi sancionada em 13 de maio de 1888. (Foto: Wikipedia)
Os escravos recém-libertos foram habitar os locais onde ninguém queria morar, como os morros, na costa da Região Sudeste, formando as favelas. Sem emprego, sem moradia digna e sem condições básicas de sobrevivência, o fim do século XIX e a primeira metade do século XX do Brasil foram marcados pela miséria e sua resultante violência entre a população negra marginalizada.
“A abolição só trouxe a liberdade jurídica. Socialmente, os ex-escravos e seus descendentes permaneceram inferiorizados, passados 130 anos da abolição a população preta continua ocupando a base da pirâmide social.”
Karla Nárnia, historiadora da Universidade de Brasília (UnB)
A libertação não significou direitos iguais e inclusão na sociedade. Jogados para a periferias, os negros começaram a enfrentar discriminações que resultaram nas bases de um racismo que se instalou na estrutura da própria sociedade.
Casa grande e senzala
O historiador, sociólogo e escritor pernambucano,Gilberto Freyre (1900-1987) escreveu a primeira grande obra brasileira que trata das relações entre senhores e escravos no período colonial e imperial no Brasil, o livro Casa Grande e Senzala, publicado em 1936.
Freyre em Casa Grande e Senzala descreve relações amistosas entre brancos e negros baseando-se na miscigenação do povo brasileiro, característica pouco comum em outros países que tiveram escravos de origem africana. O autor fala sobre um sistema de relações de poder nítido no período colonial, no qual a sociedade patriarcal privilegiava os homens, inclusive no caso de escravismo, pois a mulher negra seria a última na cadeia hierárquica.
Essa miscigenação, fruto daquela suposta atração sexual dos colonizadores pelas negras e pelas índias, foi, na verdade, causa de estupros sistêmicos e de relações abusivas dos senhores, tratando as mulheres negras e indígenas como meros objetos.
A proposta de Gilberto Freyre abre os olhos de intelectuais e autoridades sobre o racismo estrutural no Brasil. O fato é que houve um predomínio muito forte do racismo estrutural, durante anos imperceptível, ao passo que nos Estados Unidos havia um sistema oficial de segregação de raças, o que levou a um grande levante negro contra a discriminação.
A Constituição Federal do Brasil, aprovada em 1988, alguns anos após o restabelecimento da democracia, conhecida e divulgada como uma Constituição cidadã, celebra vários direitos aos brasileiros, incluindo os direitos aos negros. Na teoria, nada está acima da Carta Magna, exceto a realidade.
“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”
Artigo quinto da Constituição Federal
Toda a vida tem coleções de casos para contar.
Todos são iguais perante à lei?
Na prática, ou seja, na vida real, longe da beleza filosófica de uma lei, os dados relatam a disparidade entre ideal e real. Como exprime o ditado popular “a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco”, assim é a sensação comum de um Brasil belo nas páginas de uma constituição, mas que em suas periferias e guetos rebela sua fúria por meio da violência, do obscurantismo e da segregação racial que ainda predomina. Essa realidade é explicada pelo racismo estrutural que há no Brasil, definido como práticas racistas formalizadas institucional e culturalmente numa sociedade.
“As instituições refletem o racismo estrutural. Compreendendo este conceito, somos capazes de compreender como as engrenagens das instituições acabam reproduzindo comportamentos racistas.”
Gabriel Sampaio advogado da Conectas Direitos Humanos
Após a redemocratização, os movimentos negros, que já existiam em tempos de ditadura – mesmo que ridicularizados e oprimidos – voltaram a atuar livremente por seus direitos. Em julho de 1985, o movimento negro realizou o Primeiro Encontro Estadual, chamado “O negro e a constituinte” na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Em 1986, o resultado do encontro se tornou documento e chegou até a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), presidida pelo então deputado Ulysses Guimarães.
Após o esforço, aguardando com expectativas positivas, o movimento negro pautou reuniões na comissão que tratava sobre o assunto na ANC. Discordaram, entre diversos pontos sobretudo àquele que colocava a discussão do racismo como minoria, uma vez que 53% da população brasileira se considera preta e parda, embora tenham celebrado a abertura recebida para a inclusão do tema na lei máxima.
Conquistado o apoio e os votos necessários, na promulgação da Constituição Federal de 1988, o racismo e a injúria racial foram legalmente transformados em crime e repudiados no Brasil. O racismo é citado na Constituição por três vezes. No artigo quarto, inciso oitavo, é repudiado. No artigo quinto, inciso 42, é considerado crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão. E, por fim, nos objetivos fundamentais da República, não depende da raça para que o estado promova o bem de todos sem preconceitos.
Após previsto na Constituição Federal, os tópicos sobre crimes de racismo e injúria racial foram regulamentados em leis diferentes, para que os efeitos práticos fossem, efetivamente, aplicados. O crime de racismo está previsto lei nº 7.716, de 1989, que é um crime contra a coletividade e não contra uma pessoa específica. O crime de injúria racial está previsto no Código Penal, artigo 140, terceiro parágrafo. O crime acontece quando uma ou mais vítimas são ofendidas pelo uso de “elementos referentes à raça, cor, etnia, religião e origem”. Embora o país tenha avançado legalmente, nas cidades, periferias, becos e vielas, os números revelam a falha estatal na proteção dos direitos.
PM de São Paulo imobiliza homem negro suspeito de furto no centro da capital/ROVENA ROSA AGÊNCIA BRASIL
No Brasil, as chances de uma pessoa assassinada ser negra é 2,7 maior de que uma pessoa branca. Entre 2012 e 2017, 255 mil negros foram assassinados no país, segundo dados do IBGE. Com relação às estatísticas de vítimas das ações policiais no Brasil, a 13ª edição do Anuário da Violência divulgou que 74% são vidas negras. No estado de São Paulo, por exemplo – maior PIB do país -, dois em cada três jovens mortos são negros, 79% dos policiais envolvidos nestas ações são brancos.
“O estado, diante desses números, não têm tomado as providências também no campo da prevenção a essa mortalidade para evitar que elas aconteçam. O estado passa a ser responsável por esse dado, ele está diante de um fenômeno sem que promovam os meios de enfrentá-lo da forma adequada. E quando o estado participa desse processo, também pela omissão, ele legitima esse dado.”
Gabriel Sampaio
No Rio de Janeiro, capital brasileira mais conhecida no mundo, 66% dos mortos pela polícia militar estadual são pardos ou negros. A maioria das operações com vítimas fatais acontece nas comunidades. Os dados apresentados revelam a natureza racista de um país que convive com essa prática desde o seu descobrimento. Para Silvio Almeida, Advogado, professor universitário, jurista e doutor em filosofia, o racismo é uma “patologia social” e deve ser combatido pelos meios existentes, seja ela pelo direito penal, civil ou por tratamento psiquiátrico.
“O problema não é a sociedade ou o estado que são racistas, mas os indivíduos que nos seus atos não têm a capacidade de conter seus ímpetos, portanto, seu preconceito se torna discriminação, que, por fim, se torna um ato de violência.”
Silvio Almeida
Se por um lado vidas negras estão sendo ceifadas, retratando a ineficácia das políticas públicas já estabelecidas e a má fiscalização do estado, por outro, os negros continuam buscando por colocação social igualitária. Mas sofrem com abismos sociais, como a disparidade salarial e acesso a cargos de importância em empresas privadas e órgãos públicos. Segundo a pesquisa “A distância que nos une – Um retrato das Desigualdades Brasileiras” realizada pela ONG britânica Oxfam, somente em 2089 os negros alcançarão igualdade social com relação a cargos e salários no Brasil. Isso significa que, mesmo com as políticas afirmativas, garantias constitucionais e as reservas de cotas para a entrada de negros nas universidades e em cargos públicos, ainda assim, tão cedo não será comum ver os negros entre os mais ricos no Brasil.
Suelaine Carneiro, socióloga e uma das coordenadoras do Geledés – Instituto da Mulher Negra, afirmou em mini-documentário realizado para o Canal Preto no YouTube <https://www.youtube.com/watch?v=6Qzvchn_vas>, que há muitos negros formados, capacitados e com especialização no mercado, porém as empresas ainda continuam contratando este profissional para serviços inferiores, revelando racismo estrutural e social.
“Se durante um grande período, a justificativa das empresas era de que não havia negros qualificados para ocupar determinados postos e, por isso, eles estavam na base, nos serviços de menor remuneração e sem qualificação, hoje há uma mudança nesse perfil do profissional negro. Mesmo assim, ainda é muito grande o número de pessoas negras com graduação, realizando serviços técnicos.”
Suelaine Carneiro.
Segundo dados do IBGE, entre 2012 e 2018 a diferença de renda média de brancos para pretos chegou a 73,9%. Segundo esse mesmo levantamento, os negros também são maioria entre desempregados, subutilizados e informais. É importante ressaltar que a Constituição Federal proíbe a diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil, em seu sétimo artigo, inciso 30. Quando a questão sobre a disparidade entre brancos e negros é debatida, é preciso observar questões fundamentais como, por exemplo, o debate ideológico, uma vez que a visão racista está baseada numa visão eurocêntrica, a partir da perspectiva da hegemonia branca, que ancora uma visão conservadora.
Não é de hoje que o poder político brasileiro exclui de constituições direitos aos negros. Das setes constituições federais que o Brasil teve, a única que incluiu racismo como crime inafiançável, imprescritível e passível de pena foi a de 1988, ainda assim, à época da discussão da constituinte, membros progressistas atuaram para não incluir as pautas dos negros na Carta Magna por motivos até hoje não justificáveis. Este é o retrato do Brasil. Mostra que não basta ir a uma biblioteca, pegar uma cópia da Constituição Federal, lê-la e encontrar ali respostas para uma injustiça estrutural. É preciso estar aberto a observar e se permitir aprender com a realidade.
Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), em 2010 cerca de 51% dos brasileiros são pretos ou pardos, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, de 2012 a 2019 cerca de 56,1% de pessoas se declararam negras no Brasil. O aumento da população negra no nosso país e o discurso sobre diversidade fazem com que as manifestações racistas sejam veladas, a discriminação toma formas mais sutis, em tom de piada e aparentemente invisíveis, elas aparecem no meio do cotidiano, provando mais, uma vez, que o preconceito e o racismo existem.
O estopim que despertou o mundo e o Brasil
O mundo inteiro voltou os olhos para a cidade de Minneapolis no estado de Minnesota quando no dia 27 de maio, George Floyd, um homem afro-americano de 46 anos, foi morto por um policial branco durante uma abordagem. Desde então o homicídio tem gerado manifestações e movimentos contra o racismo e a violência policial. Esse acontecimento marca mais um número nas estatísticas e prova que há séculos os negros, em todo mundo, não conseguem respirar.
13 de junho – grupo contra protesto antirracista enfrenta a polícia, em Londres. — Foto: Dylan Martinez/Reuters
Tudo isso trouxe à tona diversas discussões sobre racismo ao redor do mundo. No Brasil essa discussão já estava em pauta, com a morte de um adolescente de 14 anos no Rio de Janeiro. No dia 18 de maio, João Pedro Mattos jogava sinuca com outras crianças na casa de um parente, quando foi assassinado durante uma operação em que a Polícia Civil e a Polícia Federal buscavam por líderes criminosos no Complexo do Salgueiro. O caso gerou revolta e resultou em manifestações, ganhando espaço nas redes sociais e imprensa. Esses acontecimentos geraram visibilidade e confirmam o que já estava evidente, o racismo ainda se mantém vivo no interior do tecido social.
WILFRED GADELHA/ESPECIAL METRÓPOLES – Protestos contra a morte de Miguel em Recife; Arte do memorial de George Floyd localizado no lugar onde foi asfixiado Foto: AP; Manifestantes em Manhattan em junho, protestando contra a morte de George Floyd.Crédito…Amr Alfiky / The New York Time; Movimento em homenagem a Floyd em Minneapolis em junho.Crédito/Peter Van Agtmael New York Times; Duas mulheres com máscaras, na manifestação. Protesto em Bogotá na Colômbia em 15 de junho de 2020/ LUISA GONZALEZ REUTERS; Manifestação na PUC-Rio contra o racismo nos jogos jurídicos.JULIANA DO NASCIMENTO / COLETIVO NUVEM NEGRA
Ainda hoje as sinhás modernas têm como serviçais as mulheres negras, e foi nesse contexto que ocorreu a morte de Miguel Otávio Santana da Silva de 5 anos. No dia 3 de junho, na cidade de Recife, a doméstica Mirtes Renata Souza precisou levar seu filho Miguel para o trabalho, já que devido a pandemia de COVID-19 todas as escolas estavam fechadas. Enquanto Mirtes cumpria um pedido da patroa e passeava com o cachorro da família, o filho Miguel ficou no apartamento.
Foto: Arquivo Pessoal/ Facebook- Menino Miguel comemorando seu aniversário.
Após pedir pela mãe, a patroa Sarí Gaspar Côrte Real coloca Miguel dentro do elevador de um edifício com 41 andares. Poucos minutos depois Miguel cai do 9° andar. Uma altura equivalente a 35 metros. O caso chamou atenção de todo o Brasil e gerou revolta e manifestações nas redes sociais que pediam por justiça, já que Sarí Real foi liberdada após pagar fiança de R$ 20 mil.
A cobertura jornalística no mundo todo se ocupou dos eventos e das manifestações antirracistas.
Racismo é uma questão que vai muito além do preconceito ou da discriminação
O professor de Sociologia, Francisco Porfírio, lembra que, conforme o site Brasil Escola, existem três tipos de racismo. O individualista, quando uma pessoa não entende a complexidade da questão e não percebe seus próprios atos discriminatórios como declarações de “não sou preconceituoso, eu tenho amigos negros” ou “não existe diferenças entre raças pois somos todos humanos”. O institucional, caracterizado por instituições que praticam a discriminação entre raças direta ou indiretamente apenas pela cor da pele, e já possuem um conceito pré estabelecido que todo negro é criminoso. E, por fim, o estrutural, que é a junção de todas as formas de racismo trazendo um conjunto de práticas, hábitos, situações e falas em costumes que promove a segregação ou o preconceito racial.
Mesmo com o confinamento em todo o mundo por causa do novo Coronavírus, pessoas ao redor do mundo não deixaram de lado suas práticas e costumes, muito pelo contrário, algumas pessoas estão se mostrando mais violentas e mais impacientes, enquanto outras buscam mudar o mundo com seus atos. Durante o período da pandemia, muitas pessoas têm se mostrado benevolentes nas mídias sociais e apoiado os protestos silenciosos ou saído às ruas e mostrado o seu apoio para o fim do racismo. No dia 2 de junho de 2020, pessoas ao redor do mundo compartilharam em seus perfis uma foto preta com as hashtags “vidas negras importam”. A iniciativa do movimento chamado de black out tuesday começou com gravadoras e seguiu por estações de rádio e aplicativos de streaming. O intuito foi gerar uma conscientização para o movimento Antirracista que vem tomando força nos Estados Unidos e se espalhando no mundo todo após a morte de George Floyd.
A morte de George floyd causou revolta, principalmente entre os americanos. Nos Estados Unidos iniciou-se uma série de protestos pacifistas em prol do movimento Antirracista. Por conta de pequenos grupos que usaram da violência, algumas cidades americanas decretaram toque de recolher. Durante esse período, diversos episódios de abuso de poder de força da polícia foram filmados e publicados na internet. Além das manifestações nos EUA, pessoas também saíram às ruas no Brasil, Reino Unido, Alemanha e Canadá.
No Brasil, as pessoas também protestaram contra o racismo, principalmente após um menino de 14 anos ter sido morto por uma bala de fuzil de um policial no Rio de Janeiro. João Pedro estava na casa de um parente com alguns amigos, quando mais de 70 disparos foram feitos contra a casa. Os policiais em questão estavam procurando por líderes criminosos. O caso gerou revolta em pessoas em todo o Brasil e mesmo durante a pandemia, muitos alegaram que preferem o Coronavírus a permitir que atos de racismo contra negros permaneçam acontecendo.
Apesar de tudo, há histórias de superação das barreiras impostas pela discriminação. É o caso da jornalista Basília Rodrigues que participa dessa entrevista realizada com os recursos do novo normal no programa Mosaico.
Racismo contra os indígenas: do passado para o presente
Mesmo com a Constituição Federal de 1988 que passou a considerar a pluralidade étnica como direito, evidenciando a questão da proteção às comunidades indígenas, a perseguição contra as tradições dos povos, atravessou gerações, e ainda é alvo de violência nos dias atuais.
“ Antigamente o colonizador, padre, mandava no índio. Ele que deveria escolher como tinha que ser a vida do índio. Não é assim. Quem tem que dizer o que é bom pro índio somos nós. Nós que sabemos o que é bom pra nós. Temos que fazer amizade com os filhos de colonizadores e mostrar que o País não tem que ser assim cheio de preconceitos contra os povos indígenas. O Brasil violento não serve para ninguém.”
Álvaro Tukano, 67 anos, pajé
A declaração do pajé remete ao retrocesso no Brasil que ainda é visto de forma invisível. Apesar das conquistas de direitos obtidos aos povos indígenas desde o século XX, como a Constituição Federal de 1988 que garante proteção às comunidades indígenas, os originários ainda são vítimas da violência por suas tradições, e são enxergados como os habitantes que não podem fazer parte da civilização, inclusive por aqueles que são o futuro da pátria: as crianças. O preconceito perpetuado é um dos fatores mais agravantes que gera a morte de indígenas, de acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O vocabulário da língua portuguesa, hábitos alimentares, e crenças são mesclados com as tradições indígenas que são influência e estão presentes na vida dos não índios, assim como a tecnologia está na vida dos povos originários, mas que na sociedade é vista como preconceito. É como se a evolução fosse feita apenas para os não indígenas, e os guardiões da natureza ainda fossem vistos como seres que andam pintados e sem roupa. O fato pode ser comprovado pela estudante de artes visuais da Universidade de Brasília (UNB), educadora social, artista independente autora do Sarau Vozes Ancestrais, Morena, de origem Pataxó do extremo sul da Bahia, do tronco linguístico Macro-Jé, 21 anos, que foi vítima de preconceito no expediente de trabalho, em uma escola não indígena, ao ser questionada por uma criança não indígena sobre sua origem, porque estava mexendo no celular.
“ Ao me ver mexendo no celular, a criança pegou e disse que eu não era indígena porque eu estava mexendo no celular. Eu a questionei por que que eu deixava de ser indígena. Aí ela disse que o indígena está lá na tribo com saia de palha, sacudindo o chocalho. Eu respondi: você é branca não, é? Come açaí, farinha, mandioca, milho? Ela disse: Como. Então eu disse: Você é branca, não pode comer”, afirmou. Morena contou que durante o momento foi algo forte por estar lidando com uma criança. Mas, ressaltou que o diálogo é a melhor forma de se combater o racismo. “No momento foi muito forte, porque ela é uma criança. A gente tenta falar no diálogo. Mas acredito que todas as pessoas que sofreram ou sofrem racismo, na hora ficam meio assim. Porque, mesmo sendo violência verbal, é violência. Eu percebi o tamanho da discriminação pelo o jeito que ela me olhava. É muito forte. Porque essas pessoas ensinam essas crianças desde pequenas a serem racistas”, disse.
Para a educadora , a solução para combater o preconceito no ambiente escolar é levar o conhecimento de seu povo.
“ Estamos trabalhando como podemos para desconstruir isso no ambiente escolar, por meio da informação.Tenho muita fé nas crianças, porque é o futuro das próximas gerações. A gente tem que preservar a vida, cultura, deixar esse legado. O racismo está nas pequenas coisas. Dizem que ele é inexistente sendo que ele tá frente. Te negam a sua cor, seus traços, aquilo que você acredita ser, e te impõe coisas, dominação do seu corpo. E a gente supera, tendo orgulho de quem nós somos, da nossa identidade, do que carregamos. Não só nos nossos traços, mas na nossa cultura, no nosso modo de pensar, agir.”
Morena, de origem Pataxó
Tony Leão, 30 anos, do povo Tikuna do Estado do Amazonas, do tronco linguístico Yuri, estudante de medicina da UNB também é vítima do preconceito. O indígena contou que desde criança já era vítima do racismo. “Quando eu era pequeno, eu escutava: você tá fazendo besteira. Parece Tikuna”, disse. Na faculdade o estudante relatou que houve até afastamento de professor por racismo contra suas origens. “Na faculdade sofri racismo também por falas de professores, postagens discriminatórias de estudantes de medicinas em blogs, mensagens de ódio, houve até processo e teve que afastar professor”, disse.
Vidas tiradas pelo racismo
O professor Marcondes Namblá, do povo Xokleng do Estado de Santa Catarina, do tronco linguístico Macro-Jé, em 2018, foi espancado a pauladas por Gilmar César de Lima, de 22 anos no município de Penha, litoral de Santa Catarina. O originário era morador da Terra Indígena Ibirama-La Klãnõ, no município de José Boiteux (SC), lutava pela preservação da cultura Xokleng, e deixou a esposa e cinco filhos. Em 2018, o Cimi apontou que o racismo está entre as maiores causas de assassinatos de indígenas. Foram registrados 135 casos de homicídios contra os indígenas em 2018, 25 a mais que em 2017. Em três décadas, foram 1.119 casos deste tipo contra esta população, tendo um aumento de 20%. Em 2018, o estado com maior número deste tipo de morte foi Roraima (RR), com 62 casos, seguido de Mato Grosso do Sul (MS) com 38. A pesquisa também registrou 110 casos de “violência contra a pessoa” que podem ser abuso de poder, racismo, violência sexual e ameaças de morte. O relatório destacou que apenas no ano passado, 53 indígenas foram vítimas de tentativas de assassinato.
Decréscimo de indígenas
No dia 22 de abril de 1500, a frota comandada por Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, batizado inicialmente de Vera Cruz pelos portugueses, e a população indígena teve sua parte extinta. Segundo a Fundação Nacional do Ìndio (FUNAI) a população indígena em 1500 era de aproximadamente 3.000.000 habitantes divididos entre 1.000 povos diferentes, sendo que aproximadamente 2.000.000 estavam estabelecidos no litoral do país e 1.000.000 no interior. Em 1650, esse número caiu para cerca de 700.000 indígenas, chegando a 70.000 em 1957. De acordo com Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro conhecido por estudar os índios, cerca de 80 povos indígenas desapareceram no Brasil no século XX. O relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) apontou que 2007, 92 indígenas foram assassinados, aumentando para 138 o número em 2014. O estado do Mato Grosso do Sul é o que apresenta o maior número de assassinatos. Atualmente, há 817.963 indígenas no Brasil pelos dados do censo demográfico de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE).
A discriminação contra os povos indígenas perdura desde os seus antepassados. Álvaro Tukano , 67 anos, pajé e liderança do povo Tukano, do tronco linguístico Tukano, nascido em São Gabriel da Cachoeira, Rio Negro, Amazonas, onde habita 23 povos indígenas, relatou que o preconceito aos indígenas teve origem por parte dos missionários durante o século XX, em que os conhecimentos sagrados de seu povo foram cassados.
“ O preconceito começou por parte dos missionários em que todos os conhecimentos sagrados , como: falar a língua indígena, cerimônias, conhecer as tradições, foram consideradas como honras de demônio. Muitos velhos morreram de tristeza com medo dos demônios e padres. Meu avô sempre valorizou as tradições. Eu venho dessa linhagem de defender as tradições. Sofri muitas humilhações dos padres por ser neto de curandeiras, filho de pajé”.
A persistência do racismo contra os indígenas
Para o antropólogo, sociólogo, e mestre em direitos humanos e cidadania pela UNB, Jósimo Puyanawa, do povo Puyanawa do Estado do Acre, do tronco linguístico Pano, a falta de interesse da ciência em estudar e preparar os profissionais da saúde ao lidar com os indígenas e entender suas particularidades justificam o preconceito atual que foi originado desde a chegada dos portugueses, há 500 anos, em que se deu ínicio o racismo que ainda é perpetuado tendo a política como influenciadora.
“A ciência não estuda a fundo as suas peculiaridades para entender o universo indígena. A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (Pnaspi) completa duas décadas, mas ainda com um conhecimento superficial. Os povos são reféns de uma política medicamentosa, tutelar, em que a saúde indígena virou um cabide de empregos. A presença indígena de excursão nos cursos de enfermagem, medicina, odontologia. As universidades não preparam os seus profissionais para encarar essa realidade dos originários.”
Jósimo Puyanawa
Jóssimo aponta que a dominação da religião, posse de terras e a diferença cultural, trouxe o extermínio de indígenas com a chegada dos portugueses em 1500.
“Nunca pensaram em trabalhar e fortalecer as singularidades, os seus costumes. Que ele é um ser humano desses povos. Essa é a questão. Não forçaram contato aos povos isolados”.
“Para mim o racismo nasce dos portugueses há 500 anos devido a diferença do povo de ver o mundo e se relacionar entre si os traços: quem são eles? leva-se em consideração a busca de terra, religião, que buscava suas doutrinas. Se eles não alcançaram seu estágio europeu tem que ser eliminados”
“ Os ataques do governo contribuem. Estão fazendo reviver esse passado obscuro, negro: a figura do indígena. Nunca pensaram em trabalhar e fortalecer as singularidades, os seus costumes. Que ele é um ser humano desses povos. Essa é a questão. Não forçaram contato aos povos isolados. Se o país precisar de indígenas ele não pode se modernizar. Eles pensam assim. Esquecem que o indígena tem alma e coração como qualquer outro ser humano”.
Atual conjuntura política do Brasil
A Lei nº 9.459, de 15/05/97 estipula que “ serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Mas, atualmente o decreto é inexistente. De acordo com o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em 2016 a causa de assassinatos aos indígenas se deve a perseguições políticas.
O ataque aos indígenas virou práticas institucionais que estimularam as reação e o ativismo dos jovens de todas as tribos.
Vítima do preconceito desde criança, o universitário Cristian Wariu Tseremey’wa, do povo Xavante do Estado do Mato Grosso, do tronco linguístico Macro-Jé, de 22 anos, criou em 2017 o canal “Wariu” no YouTube, no qual trata sobre temas relacionados à cultura indígena. A iniciativa serve para desmistificar a discriminação de seus parentes. Em um dos seus vídeos Cristian relata que sofreu atitude racista por estar em sociedade interagindo com a modernidade, assim como os demais cidadãos. “Infelizmente, muitas pessoas acreditam que se um indígena, como eu, usar smartphone, roupas e viver na cidade isso significa que está deixando a sua cultura”, afirmou.
A ativista que foi vítima de racismo por não possuir o perfil padrão de indígena, acredita no diálogo como melhor meio de se combater o racismo. “Por eu não ter as características de uma Iracema, e de como determinam que deveria ser a cultura do indígena, eu fui discriminada. A minha superação foi por meio de denúncia e debates para que as pessoas entendam que não faz menos ou mais indígena que ninguém. As características são meros detalhes perto de pertencimento de lutas e causa indígena”, destacou.
Feminismo e Racismo
No livro Breve História do Feminismo, Carla Cristina Garcia define o feminismo como a tomada de consciência das mulheres como coletivo humano. A autora também aponta que essa abordagem se articula como filosofia política e, ao mesmo tempo, movimento social. Historicamente, em cada país coexistiram muitos tipos de feminismo, em diferentes épocas, mas com um nexo comum: lutar pelo reconhecimento de direitos e oportunidades para as mulheres e com isso, pela igualdade de todos os seres humanos. As mulheres sempre foram colocadas como desiguais ao longo da história da sociedade principalmente pelas religiões e a mitologia. O termo feminismo foi empregado primeiramente nos Estados Unidos, por volta de 1911, quando escritores, homens e mulheres, começaram a usá-lo no lugar de expressões “movimento das mulheres e problemas das mulheres”.
Para entender a realidade feminina, é essencial entender os conceitos-chave que a teoria feminista desenvolveu, entre eles o androcentrismo, que o mundo se define em masculino e ao homem é atribuída a representação da humanidade. O patriarcado definido como forma de organização política, econômica, religiosa, social baseada na ideia de autoridade e liderança do homem. Sexismo, consiste na discriminação baseada na crença de que homens são superiores a mulheres e por fim, o conceito de gênero, que seria a construção sócio-histórica das identidades femininas e masculinas. O feminismo é um tema recorrente e precisa ser discutido, o feminismo também possui a vertente do feminismo negro, que além das mulheres lutarem por igualdade, lutam contra o racismo também.
Sexismo, consiste na discriminação baseada na crença de que homens são superiores a mulheres e por fim, o conceito de gênero, que seria a construção sócio-histórica das identidades femininas e masculinas.
Racismo na infância, como falar sobre isso com crianças
Para a psicóloga Emille Mendes, se os pais têm conhecimento sobre igualdade, consequentemente isso é passado naturalmente para seu filho, pois ele absorve e incorpora o que vê, “Acredito que o primeiro ponto é ser exemplo. As crianças se espelham em suas referências dentro de casa e se os pais fazem piadas ou usam termos racistas, com certeza a criança também usará, mesmo que não saiba o teor daquilo que está falando”, explica. É essencial que seja ensinado tanto a crianças negras quanto a crianças brancas que o preconceito existe. Além disso, que existem diversas cores de pessoas, pretas, negras, pardas, amarelas e brancas. Se a criança tem alguma atitude racista, é papel dos pais, repreender e explicar que aquilo não se faz. “ Ensinamos isso, mostrando por exemplo, na hora de pintar um desenho, que a ‘cor de pele’ também pode ser o marrom, não apenas o rosinha. Independente se a criança é negra ou branca, ensinar sobre o bullying, que é errado falar certas coisas, que isso deixa o amiguinho triste”, esclarece a psicóloga. Para proteger nossas crianças, temos que prestar atenção nos sinais que ela dá, pois, muitas vezes pode ter sido vítima de racismo e nem ao menos percebemos. Prestar atenção na mudança de comportamento, na baixa autoestima, na agressividade, na tristeza, no isolamento. Tudo isso pode sinalizar que algo não está bem, principalmente na escola. Muitas crianças não conseguem verbalizar, então é importante manter contato frequente e próximo com os professores. Caso tenha acontecido alguma coisa, é essencial ir até a escola para resolver, jamais deixar passar batido ou relevar. É importante investigar se a escola da criança é inclusiva, se ela tem coleguinhas de diversas raças ou se só anda com crianças da mesma cor, se há uma negligência ou separação por parte dos professores. É importante para a criança negra, que ela seja empoderada. Mostrar que existem negros assumindo os mesmos papéis que os brancos. Existem negros na presidência, rainha negra, cantora negra, e a beleza que eles têm. Deve ser ensinado através de atividades lúdicas a origem delas, mostrando outras crianças negras, bonecas negras, sempre estimulando a criança a acreditar que ela é linda e que a cor dela é linda, não importa a sua cor.
A UNICEF (Fundação das Nações Unidas para Infância) criou a campanha Por Uma Infância Sem Racismo, ela tem o objetivo de fazer um alerta a sociedade sobre os impactos do racismo na infância e adolescência. Essa mobilização social criou uma lista que pode ajudar os pais a praticarem o senso de igualdade.
Disciplina do curso de jornalismo da Universidade Católica de Brasília. O material aqui publicado tem caráter unicamente experimental. Faz parte dos exercícios da disciplina Redação Digital.
Estudantes realizadores: ANDRESSA DO NASCIMENTO GONÇALVES, EUGENIA MARTINS ALVES DE ARAUJO COSTA, FERNANDA GABRIELLA MARQUES BUENO, GABRIELA FONSECA COSTA, HEDHUY TENÓRIO VIEIRA, ISABELLA OLIVEIRA DE CARVALHO, KESLEY PEREIRA DA SILVA, LAÍS SILVA QUEIROZ ROCHA, LARISSA THAIANE DE ABREU PEREIRA, LAYS CRISTINE GOMES DA SILVA, MARIA LUYNE SILVA ARAÚJO, MARIANA SILVA DA NÓBREGA, NATHÁLIA ESTELA VARGAS, OMARA MARIA SOARES DA SILVA, RIBAMAR MARTINS DA SILVA, TIAGO KIRIXI RAMOS GOMES MUNDURUKU, TUANNY APARECIDA DE CARVALHO DE OLIVEIRA.
Impactos sociais, econômicos, políticos e culturais: o mundo sob estado de alarme
A pandemia do novo Coronavírus está mudando o planeta. Os hábitos da população mundial passam por rígidas transformações. Não apenas em ordem epidemiológica por meio dos protocolos de saúde. A vida social, a vida econômica, as relações de trabalho, a mobilidade, o consumo. A necessidade do isolamento como principal medida de precaução à expansão desenfreada do vírus impôs novas rotinas, novas práticas, novas rotinas. A desigualdade mostrou sua face mais cruel, os desníveis materiais e tecnológicos ficaram expostos. Entre quatro paredes velhos fantasmas eclodiram, como o sofrimento mental e a violência doméstica. De outra sorte, uma percepção mais refinada de solidariedade e fraternidade ganharam evidência. O esforço narrativo que vem a seguir busca registrar e ajudar na compreensão dessa Terra em transe.
Reuters-Aly Song- Testes feitos em profissionais da bolsa de valores de Tóquio
O ponto de partida
Os primeiros casos do coronavírus tiveram origem no mercado de frutos do mar na cidade de Wuhan, na China. As primeiras ocorrências foram relatadas na virada do ano, em 31/12/2019. A incidência aumentou de maneira exponencial nas primeiras semanas. A doença provocada pela variação do vírus Sars – síndrome de insuficiência respiratória grave -, dois meses depois (11/02/2020) de detectada em Wuhan, foi nomeada oficialmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como Covid-19.
Rovena Rosa/Agência Brasil- Médicos em treinamento para o combate a covid-19 no hospital de campanha no complexo esportivo do Ibirapuera.
A resposta universal
O desconhecimento sobre as características do vírus lançou a ciência em uma corrida para conhecê-lo e encontrar antídotos. Como estratégia para ganhar tempo, a receita eficiente recomendada pela autoridades de saúde foi o distanciamento social. A medida terminou adotada pela grande maioria dos países como forma de conter a disseminação do coronavírus (Sars-CoV-2), especialmente para desafogar a pressão no atendimento dos sistemas de saúde de cada país que, independente da sua posição na geração de PIB – Produto Interno Bruto – , não tinham estrutura para um atendimento em escala. Paralelamente foi deflagrada uma campanha que precisou estimular a civilização humana na retoma de um hábito básico de higiene pessoal, lavar as mãos. E passou a ser obrigatório o uso de máscaras em qualquer ambiente coletivo, especialmente na rua. O fato é que a pandemia está mudando os hábitos da população mundial, criando uma nova dinâmica, uma nova realidade.
O novo normal, como passou a ser chamado o conjunto de mudanças das rotinas da vida da pessoas, está incorporado no dia a dia do brasileiro.
Diferença entre distanciamento, isolamento social e quarentena
Distanciamento social é a diminuição de interação entre as pessoas de uma comunidade para diminuir a velocidade de transmissão do vírus.
Isolamento é uma medida que visa separar as pessoas doentes (sintomáticos respiratórios, casos suspeitos ou confirmados de infecção por coronavírus) das não doentes, para evitar a propagação do vírus. O isolamento pode ocorrer em domicílio ou em ambiente hospitalar, conforme o estado clínico da pessoa.
Quarentena é a restrição de atividades ou separação de pessoas que foram presumivelmente expostas a uma doença contagiosa, mas que não estão doentes (porque não foram infectadas ou porque estão no período de incubação). (Fonte: TelessaúdeRS – UFRGS).
SOLIDARIEDADE
A nova ordem mundial
O isolamento social se transformou em um momento desafiador para todos, ricos e pobres, escolarizados e analfabetos, crentes e ateus. Não importa a etnia, a região, de uma hora para outra todos foram separados da sua vida “normal”. As restrições resultaram em consequências mais agudas para grupos de risco (idosos, doentes crônicos) e para quem já tinha poucos recursos ou nada para viver. Muitos ficaram sem nenhuma renda. Governos e organizações começaram a se mobilizar para ajudar e amparar o grande número de pessoas que ainda estão vulneráveis. Uma onda de solidariedade vai ocupando o planeta. Começando com coisas simples como uma ida ao supermercado para o vizinho que faz parte do grupo de risco. Surgiu assim, em todo Brasil, um movimento chamado “vizinhança solidária”. Foi só o começo.
Doações para moradores de ruas, durante o período da pandemia –FolhaPress Tércio Teixeira
Cesta do bem
No Distrito Federal um movimento comunitário do Jardim Botânico desenvolve um trabalho de arrecadação e distribuição de cestas básicas. O projeto, chamado de Cesta do Bem, é uma iniciativa de uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). As doações são entregues em vouchers e a família podem retirar os produtos em mercados de São Sebastião.
A solidariedade em tempos de pandemia tem sido a maior mudança de perspectiva, as pessoas têm se mobilizado cada vez mais para ajudar quem precisa. Em meio à crise, ações colaborativas surpreendem famílias e grupos em vulnerabilidade. A Distribuição de alimentos, doação de produtos de higiene pessoal, álcool em gel e máscaras aumentou. Em todo Brasil comunidades de fé, ongs, empresas e vizinhanças mostram que, em tempos difíceis, compartilhar se torna a palavra de ordem.
Campanha: Vamos precisar de todo mundo
Organizada por Brasil Popular e Povo Sem Medo a campanha tem como objetivo divulgar iniciativas de solidariedade, receber doações e dar suporte para quem precisar de ajuda.
A Rede Solidária é uma ação da Associação Brasileira de ONGs (Abong) em parceria com a Conectas Direitos Humanos para dar suporte e divulgar iniciativas de solidariedade. Nela é possível ter acesso a palestras, atividades, lives e outros conteúdos.
Movimentos Contra a Covid-19
A campanha Movimentos Contra a Covid-19, da Central de Movimentos Populares (CMP) disponibiliza acesso ao cadastro e divulgação de pontos de recebimento e distribuição de alimentos e produtos de higiene e limpeza em ocupações, favelas e periferias de todo país.
Agência Brasília- Professores da Escola Classe 831 de Samambaia com as cestas básicas doadas para a comunidade (rede solidária de educação).
O movimento de apoio e ajuda sensibiliza cada vez mais pessoas, é o caso do Solidarte que reúne artistas e voluntários.
O novo normal incluiu a “live”, manifestações ao vivo pela Internet, que começou como solidariedade e virou maneira de sobrevivência.
Projeto Dividir
O Projeto Dividir é uma iniciativa de catadores e catadoras de Brasília, nele são arrecadadas doações de mantimentos, itens de higiene e de limpeza, além de quantias em dinheiro para serem distribuídos às pessoas carentes. As doações devem ser realizadas diretamente no Objeto Encontrado (102 Norte), de meio-dia às 20h ou por transferência bancária.
Lúcio Bernardo Jr. / Agência Brasília – Doações de cestas básicas para famílias em estado de vulnerabilidade no DF.
Violência – velhos problemas que persistem
Com grande parte do mundo sob quarentena, emergiu um velho desafio social: a violência doméstica que não cessa. Ao contrário, aumenta. Crianças e adultos que vivem em ambientes com abuso tiveram sua vulnerabilidade ampliada. Os fantasmas, que se revelavam entre quatro paredes, voltaram com força. Essas vítimas passaram a incluir a lista de consequências da pandemia do coronavírus.
No mundo inteiro existem pessoas que sofrem com a violência em casa. O convívio diário tem deixado os agressores mais violentos e as agressões constantes. As vítimas estão confinadas com os agressores. Em muitos países da América Latina cresceram os pedidos de ajuda em casos de violência doméstica.
Em São Paulo, no centro dos casos de COVID-19 no Brasil, durante os primeiros dez dias de quarentena, as denúncias aumentaram em 30%. Os dados são do Observatório de Igualdade de Gênero da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal).
A fuga dessa situação de violência torna-se ainda mais difícil em razão da restrição de serviços e de movimentação na quarentena. E se agrava pela diminuição de renda. No Brasil, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos constatou alta de quase 9% nas denúncias dos casos de violência doméstica realizadas pelo Disque 180.
O Globo/Ilustração- André Mello- Figura representativa da violência contra a mulher
A quem recorrer?
As mulheres têm buscado os canais de emergência da PM, PC e GCM quando conseguem fazer contato durante o processo da agressão ou logo após. A maior dificuldade das vítimas é para registrar a ocorrência e pedir uma medida protetiva. Esse processo deve ser iniciado nas Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAMs), Defensoria Pública, Ministério Público e advogados. Como elas não podem sair de casa, o acesso a esses canais é limitado. Mesmo assim, uma rede de apoio vem sendo ativada para dar suporte às vítimas. São grupos de mulheres que atuam em redes sociais. Não silencie. Veja alguns contatos que podem ser acionados.
Núcleo de assistência jurídica de defesa da mulher: (61) 999350032
Centro de atendimento à mulher: (61) 33237264
Polícia Militar: 190
Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos: Disque 100
Disque Denúncia – 180
Casa da Mulher Brasileira – (61) 32265024 – (61) 32245295
Programa de prevenção a violência doméstica da Polícia Militar: (61) 39101349
Todos os sistemas produtivos e de consumo sentiram o impacto
A pandemia de coronavírus afetou todos os setores, levando alguns – como a saúde, por exemplo – a beira de um colapso. Os efeitos na economia são devastadores. O consumo, com as pessoas sem sair de casa, teve uma redução drástica. O sistema econômico congelou. Desemprego, falências, desativação de indústrias viraram rotina. Em todo o mundo, em especial nos países emergentes, houve fuga maciça de capitais estrangeiros e, em consequência, perda da capacidade de investimentos.
AP/CLARÍN- Nova York deserta devido ao isolamento decretado pelo prefeito
O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem recebido solicitações de países emergentes que buscam por auxílio financeiro para salvar suas economias. De acordo com a diretora-gerente do Fundo, Kristalina Georgieva, o mundo sofreu uma paralisia instantânea da economia.
“Nossa estimativa atual para as necessidades financeiras gerais dos mercados emergentes é de US$ 2,5 trilhões”.
O mercado financeiro, considerado um dos principais indicativos da saúde econômica do mundo globalizado, sofreu fortes quedas. Na bolsa brasileira, houve uma redução média de 30% em todas as empresas que negociam suas ações. Setores do varejo foram os mais afetados como shoppings, lojas de shoppings, lojas de eletrodoméstico, empresas aéreas.
Brasil
No Brasil, especialistas estimam que o país viverá recessão econômica pós Covid-19. O Produto Interno Bruto (PIB) deve fechará negativo em 5%. Conforme o IBGE o desemprego já atingia 12,3 milhões no trimestre computado em fevereiro. Setores de máquinas, micro empresas, varejo e bares e restaurantes projetam cortes de até 3 milhões de vagas ainda neste semestre. A CNC -Confederação Nacional do Comércio, aponta que as demissões no setor podem alcançar a marca de 1,8 milhão de vagas até o final do ano. (fonte:https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/22/desemprego-provocado-por-covid-19-comeca-a-ser-medido-por-empresas.htm)
Do menor ao maior comércio, tudo vazio. O consumo congelou. Foto:Tânia Rego /Agência Brasil- Bares na zona sul do Rio de Janeiro com funcionamento discreto.
A situação do país é delicada, em especial pelas especificidades da economia local. Segundo especialistas, o Brasil viveu uma década perdida. A economia do país dava sinais, antes da pandemia, de instabilidade com crescimento abaixo da média. Porém, com a chegada do novo vírus, o país caminha para fechar o período de 2011 a 2020 com o menor crescimento médio de uma série histórica de 120 anos.
Fotos: Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília- Higienização do Shopping Popular de Ceilândia.Alina Souza/Correio do Povo- Centro de Porto Alegre com ambulantes em toda parte. Fernando Frazão/Agência Brasil- Lotérica na Barra da Tijuca, Rio, funcionando com o distanciamento social.
Medidas Governamentais
O Governo Federal tem executado medidas na tentativa de dar fôlego aos estados e municípios. Adotou também ações de transferência de renda, como o auxílio emergencial de R$ 600,00. A maioria dos economista brasileiros entende que o governo demorou para apresentar medidas concretas e claras à população e mesmo ao parlamento.
Em 20 de março o Congresso Nacional – Câmara e Senado -, aprovaram decreto legislativo reconhecendo o estado de calamidade pública no Brasil. Com a medida, o Governo Federal não precisa, temporariamente, cumprir com a regra de ouro, podendo aumentar os gastos correntes acima dos valores aprovados no orçamento. Uma prerrogativa que deu ao governo condições legais para adotar medidas de emergência que exigissem mais despesas.
Diante da autorização, algumas ações da equipe econômica do governo Bolsonaro, comandada por Paulo Guedes, foram apresentadas. São destinadas a diversas áreas de atuação. Vão desde a liberação de dinheiro a estados e municípios até a transferência de renda diretamente para pessoas dos cadastros sociais ou que ficam sem qualquer atividade remunerada, como o caso do ambulantes e empreendedores individuais.
O governo lançou um programa de proteção ao emprego. Com ele, as empresas podem congelar salários e diminuir jornadas, desde que mantenha o funcionário empregado. O governo também lançou o financiamento de 85% das folhas de pagamento das empresas, com garantia do Tesouro Nacional.
O FGTS também será utilizado no combate à pandemia. A partir de junho, o Governo Federal vai liberar saques de até R$ 1.050,00 por conta que o trabalhador tiver. Além disso, também foi criado o Auxílio Emergencial, em conjunto com o Poder Legislativo, que já está realizando pagamentos desde abril de R$ 600,00 aos trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados.
Serão pagas três parcelas. Segundo estimativas do próprio governo, mais de 46,2 milhões de brasileiros já receberam o auxílio.
O socorro aos estados e municípios
O Plenário da Câmara dos Deputados aprovou, em maio (5/5/2020), em sessão virtual, o texto-base do Projeto de Lei Complementar (PLP) 39/20, do Senado, que prevê ajuda de R$ 125 bilhões para os estados, o Distrito Federal e os municípios em razão da pandemia de Covid-19. Foram 437 votos a 34. Após acordo com a equipe econômica, o texto do Senado proíbe a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios de concederem qualquer tipo de aumento salarial até o final de 2021, assim como a realização de concursos e a criação de cargos. Ficarão de fora dessas regras as categorias de servidores civis e militares envolvidos diretamente no combate à Covid-19.
“Se vira!! O novo normal no sistema econômico exige capacidade de inventar e se reinventar para seguir adiante.
Distrito Federal
Na Capital Federal um dos setores mais afetado é o de Hotéis, Restaurantes e Bares. Segundo o sindicato da categoria, estima-se que até o final do isolamento mais de 11,2 mil trabalhadores sejam demitidos somente do setor.
Sindicatos, empresários e empregados vem cobrando mais urgência do governo na apresentação de medidas para proteger os empregos. Recentemente, o BRB – Banco Regional de Brasília- reabriu uma linha de crédito chamada Supera-DF, que atende pessoas físicas e jurídicas com empréstimos a juros baixos, mas sabe-se que com tantas solicitações, não será possível atender a todos.
A área cultural foi duramente atingida. Uma cadeia que envolve profissionais de trabalhos artesanais, técnicos e especializados ficou sem atividade. Muitos recorreram às alternativas online. Em Brasília várias iniciativas mobilizaram artistas e o público a distância. Mas muitos ainda dependem do apoio do Estado.
Nas agências do trabalhador, que estão presentes em algumas cidades do Distrito Federal, a oferta de vaga caiu de 400 para menos 100, de acordo com uma consulta realizada pelo Jornal de Brasília.
Educação
Todas as telas a serviço do ensino
A Covid-19 vem trazendo impactos decisivos no futuro de muita gente. Os efeitos podem ser percebidos na educação dos brasileiros que tem sido modificada pela tecnologia, em virtude do ensino a distância. No entanto, nem todos estão aptos ou adeptos a nova rotina. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), metade dos estudantes do mundo estão sem aula. Os que sonham em realizar um concurso, e vestibular neste ano, vivem na incerteza de não saber quando serão aplicadas as provas.
Devido ao Coronavírus, no dia 18 de março o Ministério da Educação (MEC) autorizou a substituição de aulas presenciais das instituições federais de ensino por aulas no formato de ensino a distância. A medida foi publicada em portaria no Diário Oficial da União e vale até durar a pandemia. A autorização é válida para as universidades federais, os institutos federais, e faculdades privadas. A portaria, porém, veda a medida aos cursos de Medicina e às práticas profissionais de estágios e de laboratório dos demais cursos.
A outra mudança determinada pelo governo federal foi à suspensão da obrigatoriedade de escolas e de instituições ensino de cumprirem 200 dias de aula, correspondente ao ano letivo. A medida provisória (MP), decretada pelo Presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), foi publicada no Diário Oficial da União (DOU), em abril.
Impactos
A segunda etapa do levantamento da empresa de pesquisas educacionais Educa Insights, divulgado em parceria com a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), realizada entre os dias 27 e 30 de abril revelou que após 45 dias do início do isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19 no Brasil, 78% das instituições de ensino superior particulares do país migraram suas atividades presenciais para aulas virtuais. As outras 22% preferiram optar por suspender as aulas ou o semestre.
O estudo foi feito com 1.513 pessoas, em todas as regiões brasileiras, e dentre as instituições que migraram suas atividades para o ambiente virtual, 89% delas já desenvolvem suas atividades de forma síncrona, a chamada “aula ao vivo”, ou assíncronas (gravadas). Ao analisar o percentual de estudantes que estão tendo aulas exclusivamente ao vivo, o número chega a surpreendentes 61%. Outras 28% utilizam tanto o formato simultâneo quanto atividades assíncronas. Enquanto que 11% utilizam exclusivamente o formato assíncrono, que é usado tradicionalmente na modalidade de Educação a Distância (EAD).
Aulas remotas, a sala de aula digital
Ensino Superior
A Universidade Católica de Brasília (UCB) faz parte das 89% das instituições que desenvolvem as aulas gravadas e ao vivo. O professor e doutor em Comunicação, Robson Dias exerce a disciplina de Comunicação Organizacional pelo Hangouts Meet, em que as aulas são transmitidas ao vivo, e são gravadas. O professor contou que há uma diferenciação na preparação do conteúdo, principalmente para voltar à atenção do aluno à aula.
“O conteúdo online é completamente diferente porque existe a mediação pelo computador. Há um estímulo maior que tem que ser feito para o aluno prestar atenção, porque há estudantes que desligam a tela, deixando apenas o microfone ligado, e vão fazer outras coisas”.
Desse modo, a metodologia do professor vai da aula expositiva ao teatro e dramatização de vivências. As outras ferramentas utilizadas são os formulários do Google: Google – Mapa mental; Kami – Discussão de textos; Padlet – Mural Eletrônico; Mentimeter – Nuvem de Palavras e/ou Jogos; Kahoot – Jogos. Para Robson a tecnologia está sendo muito eficaz, e deu significado a palavra superior que o ensino possui.
“Para mim a tecnologia usada está sendo útil. Diante a uma calamidade pública em que estamos vivendo, a educação como um todo contribuiu bem nessas medidas do remoto. Isso mostra que temos professores e alunos qualificados, e que a educação superior, é superior mesmo”.
Diego Anatálio, 20 anos, é estudante de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), e está tendo cinco disciplinas pela plataforma Microsoft Teams, em que as aulas funcionam ao vivo com direito a chamada. Para o estudante, a experiência está sendo proveitosa, apesar de ter tido dificuldades para se adaptar.
“A ferramenta utilizada é boa, e as aulas são produtivas. No entanto, é um momento muito atípico e uma situação diferente de uma aula presencial e de tudo que estamos acostumados. No início foi difícil se acostumar, mas estou me dando bem. Porque não quero perder um semestre. Então faço o possível”.
A Universidade de Brasília (UNB) está entre as 22% das instituições de ensino brasileiras, que suspenderam as atividades, conforme foi divulgado pelo estudo da ABMES. A justificativa da contraposição foi de que grande parte dos alunos não têm acesso à internet de qualidade. Sendo assim, o primeiro semestre de 2020 foi suspenso. De acordo com a instituição, o conteúdo será reposto quando a situação se normalizar. Raíssa Benvindo, 22 anos, estudante do 9° semestre do curso de física na Universidade de Brasília (UNB), faz parte da grande demanda do grupo de estudantes que não teriam suporte em casa para acessar as matérias à distância.
” Eu não me sinto prejudicada com a suspensão do semestre. Pelo contrário, com o início das aulas EAD ao invés da presencial eu me senti muito prejudicada, porque a atual situação financeira da minha família não permitiu pagar a conta da internet. Além disso, a minha casa não tem estrutura. Sempre tive o hábito de estudar na UNB”.
Raíssa contou que as aulas virtuais a ajudariam. No entanto, discordou que o método é eficiente para suprir as necessidades dos universitários.
” Eu sempre fui de estudar sozinha. Se eu tivesse como ter internet, e um local adequado para estudo eu com certeza acharia uma boa ideia ter essas aulas. Mas o mundo não é ideal assim, e não existe estrutura para suprir esses déficits de todos os estudantes que precisam. Inclusive, os da UNB”.
A adoção de aulas remotas para evitar a suspensão das atividades acadêmicas exigiu um esforço de estudantes e professores.
Enem
A COVID-19 trouxe mudanças até para aqueles que ainda pretendem entrar em uma instituição de ensino. Em abril, uma decisão liminar da Justiça Federal de São Paulo chegou a determinar que o calendário do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) fosse alterado para ser adequado à realidade do ano letivo de 2020 após a pandemia do novo coronavírus. O exame digital estava marcado para os dias 11 e 18 de outubro e a aplicação de provas físicas seriam nos dias 1 e 8 de novembro.
O pedido de ação civil pública proposta pela DPU (Defensoria Pública da União), e assinado pela juíza Marisa Claudia Gonçalves Cucio, da 12ª Vara Cível determinava que o calendário de prova tivesse que ser adequado à realidade do ano letivo, que está suspenso em muitos locais por conta de políticas de isolamento determinadas pelos estados ou mesmo pelo governo federal. Desse modo o ENEM ficou sem data fixa. No entanto o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) derrubou a liminar, e manteve o calendário do vestibular. Após o ocorrido o MEC (Ministério da Educação) alterou apenas a prova digital para 22 e 29 de novembro.
Assim como as instituições de ensino que aderiram às aulas a distância, os cursinhos para a preparação do ENEM também se adequaram a novidade. O estudante Pedro Nascimento, 21 anos, que antes tinha a preparação presencial, e agora, está estudando para o exame por aulas remotas, é um exemplo. São cinco horas de aulas, com três a quatro matérias por dia com aulas gravadas e outras ao vivo. O rapaz contou que era contra ao EAD, mas que se acostumou, e está encontrando benefício.
Nunca gostei de ensino a distância. Mas, precisei me adaptar, e tem sido interessante fazer meus próprios horários. A vantagem é que se eu não tiver entendido alguma coisa, posso voltar quantas vezes quiser”.
Entre as aulas presenciais, e agora as onlines, Pedro prefere a EAD pela acessibilidade. Além disso, falou como está sendo para os demais colegas que não têm acesso.
“Depois de me adaptar, hoje prefiro à distância pela flexibilidade. A nossa turma se ajuda. todos têm whatsapp, aí temos grupos divididos por matéria em que um ajuda o outro, compartilhando pdfs e resumos”.
Diferente de Pedro, nem todos os estudantes se adequaram aos novos métodos de estudo. Uma pesquisa realizada pela Casa Fluminense – organização que estuda a vida urbana nas periferias – constatou que há mais de 2,3 milhões candidatos que não têm computador em casa, quase a metade dos inscritos. O estudo apontou também que a maioria dos estudantes frequentam escolas públicas e vivem em estados do Norte e do Nordeste do País.
Ensino de educação básico
Foto/Portal da Cidade- Escolas aderiram às aulas online, para continuar as atividades escolares
As escolas públicas do Distrito Federal decidiram usar a tecnologia para transmitirem as aulas de um modo diferente: teleaulas, desde que o governador Ibaneis Rocha (MDB- DF) publicou decreto suspendendo as aulas para evitar a disseminação do coronavírus na capital. A iniciativa que tem o nome de Escola em Casa DF teve início no começo de abril sendo transmitido pela TV Justiça, que pode ser assistida na tevê aberta no canal 53, mais adiante na TV Gênesis, e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que cede os estúdios para as gravações.
Os vídeos educativos são exibidos das 9h às 12h, e tem conteúdo que vai desde a educação infantil até o ensino médio. As escolas públicas e particulares estão fechadas desde 12 de março, após decreto publicado no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF). De acordo com o governador Ibaneis Rocha (MDB), está previsto que as aulas retornem somente em agosto.
Saúde
O desafio não cessa
Solidão na crise
A Public Health publicou um artigo em sua revista de 2017 com base em 40 estudos realizados entre 1950 a 2016. A partir do quais o texto revela uma associação significativa entre o isolamento e a solidão. A conclusão sugere que estes fatores contribuem para um agravamento na saúde mental das pessoas. Um componente que contribuiria para o quadro de causas combinadas que pode levar a morte.
Durante a pandemia do novo Coronavírus, a medida geral recomendada pelas autoridades de saúde foi o isolamento social. E mesmo quando precisassem sair, as pessoas deveriam manter o distanciamento social. A situação impôs, principalmente para pessoas que vivem sozinhas e mesmo aquelas que estão no grupo de risco, o desafio de lidar com a solidão e o afastamento.
Rovena Rosa/Agência Brasil- Médicos em treinamento para o combate a covid-19 no hospital de campanha no complexo esportivo do Ibirapuera.
Para Vera Augusta , 73 anos, administrar o isolamento está sendo bastante difícil. Acostumada a sair todos os dias para resolver o que precisa, ela confessa que tem medo do vírus. Adotou o auto-isolamento restringindo visitas de familiares e amigos. No início de Março, Vera perdeu seu filho mais novo em decorrência de uma embolia pulmonar. Quatro dias depois o governo decretou o fechamento dos estabelecimentos comerciais e o isolamento social. O luto e a solidão se somaram entres os desafios do dia a dia. Vera optou pelo retiro em uma área rural da família onde recorreu à interação com o ambiente de plantas e animais.
Mas a maioria não tem essa opção. A alternativa vem sendo manter contatos virtuais, interações mediadas pela tecnologia. É o caso das mensagem de texto, chamadas de voz, videochamadas. Outra alternativa que tem sido cultivada nas regiões de condomínios e prédios residenciais é a conversa de janela com vizinhos. Nos casos em que, mesmo com essas medidas, o desafio do isolamento parecer insuperável, a alternativa que vem ganhando adeptos é a terapia online. .
A falta de uma rotina regrada gera nas pessoas ansiedade e depressão. O isolamento e distanciamento social te agravado esse quadro e as pessoas estão procurando cada vez mais fazer terapia. Terapeutas, psicólogos e psicanalistas mudaram a forma de atendimento durante a pandemia do COVID-19.
Desde 2018, o CFP (Conselho Federal de Psicologia) liberou a prática de atendimento online. O terapeuta precisava apenas informar ao órgão. Com o novo Coronavírus e apenas os serviços considerados essenciais estando abertos, o CFP liberou todos os profissionais a tratarem seus clientes durante os meses de Março e Abril sem informação prévia ao órgão.
A terapia presencial e a online não apresentam diferença, o vínculo e o acolhimento estabelecidos não mudam, todo feedback, intervenção, palavra e troca são os mesmos durante a terapia.
A recomendação do Conselho Federal é que o paciente confira as credenciais dos profissionais antes de partir para a terapia e que encontre um profissional que seja da sua confiança.
Médicos com atendimento a distância
BBC/Hospital Albert Einstein- Profissionais da Saúde recebem o Cardiologista Fábio Grunspun Pitta, que foi infectado pela Covid-19
Telemedicina é o uso das tecnologias modernas para o fornecimento de informação e atenção médica a pacientes e outros profissionais de saúde situados em locais distantes. É uma subárea da telessaúde e sua principal área atualmente é a cibermedicina, medicina por Internet ou intranet. Outros meios de comunicações utilizados incluem telefones fixos, celulares, tablets, e robôs.
A telemedicina se tornou muito importante durante a pandemia do novo Coronavírus, o Ministério da Saúde, durante a gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, liberou a telemedicina como excepcional e válida enquanto o país estiver em emergência de Saúde Pública. Sites como o Médico 24h, Dr.Consulta online, Telemed Saúde e Morsh são plataformas da telemedicina que usam aplicativos ou ligações para agendamento, consulta, diagnóstico e retorno de onde o paciente estiver.
FOTO: AILEN DIAZ/AGENCIAUNO- Médico do Hospital Del Salvador, Juan Eduardo Vera, com vestimenta para cumprir o protocolo de proteção contra o coronavírus.
A portaria do ministério autoriza cinco tipos de práticas da telemedicina. São elas:
Atendimento pré-clínico: triagem, na qual o paciente informa sintomas e sinais vitais;
Consultas: conversa entre paciente e médico;
Diagnóstico: conclusão do médico sobre o problema do paciente e seu tratamento;
Suporte assistencial: consulta de retorno, na qual o médico acompanha a evolução do paciente;
Monitoramento: acompanhamento mais frequente de febre, sinais vitais, etc.
Caso possua alguma dúvida, entre em contato com um médico de confiança e se puder, faça o teleatendimento.
O mundo pós-pandemia
O cenário atual é preocupante, existe uma grande incerteza sobre o futuro. Todo esse efeito da pandemia vai mudar todos os hábitos e costumes que a população mundial estava acostumada, é possível observar mudanças em todas as áreas como a interação das pessoas, o mercado de trabalho se reinventando, a educação se adaptando a novas tecnologias, novas formas de trabalhar.
Mãe de primeira viagem em meio a pandemia
(relato de Maria Luyne Araujo, estudante)
O ano de 2020 não está sendo fácil para ninguém, a pandemia do novo coronavírus e o crescente número de casos no Brasil vem causando insegurança e medo para todos nós. Para as mamães de primeira viagem, como eu, e para as gestantes é ainda mais preocupante, pois estamos trazendo novas vidas ao mundo, em meio a este caos. Segundo estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ainda não há comprovação de que mulheres gestantes têm mais chance de contrair o vírus, ou seja, elas não fazem parte do grupo de risco. Mas é importante ressaltar que durante a gestação, com as mudanças naturais que acontecem com o corpo da mulher, pode ocorrer queda de imunidade, deixando-a mais suscetível a contrair o vírus.
Além de toda a preocupação que se tem com bebês, todo o receio dessa nova experiência, se vamos ser boas mães, se vamos dar conta dessa aventura tão difícil que é cuidar e criar de uma criança, agora temos mais uma preocupação, um medo constante de contrair essa doença. No dia 05 de abril, meu filho, Arthur, veio ao mundo, foram 10 horas de trabalho de parto, até finalmente ver o rostinho dele. Enquanto estava na sala de parto, ouvi uma discussão no corredor entre médicos e enfermeiras, havia uma mulher no quarto ao lado que estava com suspeita de ter contraído o vírus. Naquele instante o medo já tomou conta de mim, e se alguém que teve contato com ela acabar espalhando COVID pelo hospital inteiro? E se chegar até mim?
Após o parto, tive que ir para o centro cirúrgico por causa de uma complicação, e internada por alguns dias a mais, pois perdi muito sangue e fiquei anêmica. Quando fui para o quarto, era compartilhado com mais três mulheres, e a regra era a seguinte, dar alta em no máximo 48 horas após o parto, porque não queriam deixar as puérperas e os recém nascidos em um ambiente hospitalar em meio a pandemia.
Tinham algumas pacientes que recebiam alta com 24 horas, eu via mulheres entrando e indo embora para suas casas todos os dias, e eu permaneci lá por 8 dias. As visitas estavam reduzidas, só era permitido uma visita por dia durante 15 minutos, quando a visita entrava o acompanhante não podia ficar no quarto, para não aglomerar.
Quando finalmente recebi alta para me recuperar em casa, os médicos me recomendaram a não receber nenhuma visita. Apesar de entender que é necessário para o bem do bebê, eu e meu marido ficamos tristes, pois queríamos que muitas pessoas queridas, família, amigos e parentes conhecem o Arthur. Alguns ainda pediram para ir visitar, falaram que iam tomar todos os cuidados e ir de máscara, mas mesmo assim, tivemos que dizer não, e muitas vezes foi difícil negar a pessoas tão especiais para nós, porém, não queremos expor nosso filho a esse risco.
É uma doença muito nova. Há ainda estudos inconclusivos. Não existem evidências de que seja possível passar o vírus para o bebê durante a gravidez e nem durante a amamentação, entretanto, é importante que haja uma maior precaução esses casos. Alguns países como os Estados Unidos e Inglaterra iniciaram testes para uma vacina contra o novo coronavírus, e isso me dá muita esperança para que logo tudo volte ao normal, e meu filho tenha uma vida normal e não confinado dentro de casa em quarentena.
Testes massivos e a chegada de uma vacina seguem como desejos de todo o planeta. Fique em casa! Divulgação- Testes rápidos da Covid-19 feitos em drive-thru na cidade do Gama.
Disciplina do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília (UCB). O material aqui publicado tem caráter unicamente experimental. Faz parte dos exercícios da disciplina Redação Digital.
Estudantes realizadores: ANDRESSA DO NASCIMENTO GONÇALVES, EUGENIA MARTINS ALVES DE ARAUJO COSTA, FERNANDA GABRIELLA MARQUES BUENO, GABRIELA FONSECA COSTA, HEDHUY TENÓRIO VIEIRA, ISABELLA OLIVEIRA DE CARVALHO, KESLEY PEREIRA DA SILVA, LAÍS SILVA QUEIROZ ROCHA, LARISSA THAIANE DE ABREU PEREIRA, LAYS CRISTINE GOMES DA SILVA, MARIA LUYNE SILVA ARAÚJO, MARIANA SILVA DA NÓBREGA, NATHÁLIA ESTELA VARGAS, OMARA MARIA SOARES DA SILVA, RIBAMAR MARTINS DA SILVA, TIAGO KIRIXI RAMOS GOMES MUNDURUKU, TUANNY APARECIDA DE CARVALHO DE OLIVEIRA.
Professor Responsável: Alexandre Kieling – Estagiária Docente: Rachel Porfírio
A crise mundial provocada pela dissipação do novo coronavírus, ou Covid 19, como ficou classificado, junto com os esforços planetários para conter ou suavizar os impactos da pandemia trouxe o isolamento social que induziu uma brusca redução na mobilidade e na socialização da população em geral.
Foto do Jornal la Tercera, imagem sobre teste de sangue no controle do Covid-19
A cobertura Jornalística na Pandemia
A rotina dos jornalistas mudou e o jornalismo profissional ganha força.
O jornalismo na sua essência é uma representação discursiva da vida humana, sendo assim, o jornalismo tem sua origem mais remota aos tempos imemoriais em que os seres humanos começaram a transmitir informações, novidades e contar histórias.
A cobertura jornalística é uma invenção da Modernidade, ligado à aparição da tipografia que incentivou a periodicidade da imprensa pois o costume de troca de notícias é um fenômeno sócio-cultural. Nascido no século XIX, a cobertura jornalística que deu origem ao jornalismo que conhecemos hoje surgiu com a massificação dos jornais, dispositivos auxiliares que facilitaram a transmissão da informação a distância como o telégrafo.
E obtenção mecânica de imagens – as máquinas fotográficas, também tiveram imenso impacto. Sendo assim, a necessidade de notícias permitiu a aparição das agências noticiosas internacionais, que tornaram o jornalismo ser como conhecemos.
Campanha dos jornais impressos valorizando a informação profissional como forma de enfrentamento da pandemia
Durante anos, o jornalismo e a cobertura jornalística passaram por diversos estilos e formas de ser feito. No século XX, o jornalismo enfrentou os grandes momentos da humanidade como a aceleração do desenvolvimento e progresso da sociedade, a ascensão e queda dos regimes totalitários, as duas Grandes Guerras e o terrorismo, a multipolaridade entre as nações e o agravamentos dos problemas ambientais. Tudo isso impactou na forma que o jornalismo no século XXI seria feito, pois o surgimento da internet impactou diretamente nessa profissão. Os jornais impressos se adaptaram a chegada da fotografia, da rádio, da televisão e também estão se adaptando a internet. Os grandes veículos tem a versão web e também apareceram veículos exclusivos da web, além disso, o mais recente é o jornalismo feito nas redes sociais. Observando todas essas mudanças devido aos fatos históricos, o momento atual em que o mundo enfrenta a pandemia da COVID-19 (Coronavírus) o jornalismo profissional ganha mais audiência e espaço, renovando-se na cobertura de uma Pandemia.
Pesquisa do Jornal Folha de São Paulo por meio do Instituto Data Folha da mesma empresa sobre credibilidade da população quantos aos meios de difusão de informações.
Pandemia da Covid-19
O Coronavírus é uma grande família viral que causam infecções respiratórias em humanos e animais, o sintoma comum geralmente se assemelha a um resfriado comum, o COVID-19 ou como é popularmente conhecido o novo coronavírus é uma mutação do vírus que causa febre, tosse, dificuldade para respirar e falta de ar, o vírus é transmitido de pessoa para pessoa e pode ser fatal em casos em que as pessoas possuam doenças respiratórias, diabetes hipertensão, insuficiência renal, cardíaca, fumantes e idosos. O coronavírus foi classificado como pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de fevereiro após ser detectado em todos os continentes, com isso, empresas e instituições começaram a tomar medidas de prevenção para diminuir a disseminação do vírus, como o isolamento social em diversos estados do Brasil, onde muitas empresas adotaram o modelo de Home Office para trabalho.
Reuters- Aeroporto em Frankfurt, durante a pandemia do coronavírus
Números da Pandemia
O Brasil é o país latino-americano que registra mais infecções por coronavírus, até o momento (12/4), são 20.964 casos confirmado, uma incidência de 99,2 casos a cada um milhão de pessoas. O país já registrou 1.141 mortes até a presente data, nenhum caso de pessoas recuperadas. Ainda na América latina, o Equador possui 7.257 casos confirmados, uma incidência de 415,71 casos a cada um milhão de pessoas, recuperações 411 e 315 mortes. Na Argentina 2.142 pessoas foram confirmadas com o vírus, 440 recuperadas e 89 mortes. A Europa é o Continente mais afetado pela pandemia do Coronavírus. A Itália possui 152.271 casos, 32.534 recuperações e 19.468 mortes. Na Espanha 166.019 foram diagnosticadas, 62.391 recuperadas e 16.972 mortes. Na França 93.790 casos, 26.391 recuperações e 13.832 mortes. No Reino Unido 78.991 casos, nenhuma incidência de recuperação e 9.875 mortos. Esses quatro países lideram o ranking de casos na Europa. A Alemanha possui 125.452 casos confirmados, dos quais 51.853 obtiveram recuperação e 2.871 mortes. Em Portugal 15.987 pessoas infectadas, 266 recuperadas e 470 mortes.Os Estados Unidos possui o maior recorde de mortes em um dia até agora, 1.920 mortes em 24 horas contabilizando 20.601 mortes no país e 533.378 casos confirmados. No Canadá, 23.318 pessoas foram confirmadas com o novo Coronavírus, 6.458 recuperadas e 653 mortes. (dados apurados até o dia 12/04)
Jordi Riera BBC- Paciente na UTI, utilizando aparelhos de ventilação em Barcelona.
Países sem registros do Coronavírus
Segundo um levantamento realizado pela revista Superinteressante, com base nos dados coletados pela Universidade Johns Hopkins, 15 nações não registraram casos do novo coronavírus (Covid-19) até 10 de abril. São eles Samoa, Lesoto, Coreia do Norte, Turcomenistão, Tajiquistão, Nauru, Tuvalu, Palau, Micronésia, Tonga, Vanuatu, Comores, Kiribati, Ilhas Marshall e Ilhas Salomão. Alguns outros territórios (que não são considerados países) como Antártida e Ilhas Christmas também ainda não tiveram registro de casos.
Mundo
Até o momento, em todo o mundo, já foram contabilizados 1.807.939 contaminados, 109.823 mortes e 416.620 curados do novo coronavírus.
BBC Bruna Prado- Checagem de passageiros de voos internacionais no aeroporto do Rio de Janeiro.
Como o jornalismo se comportana pandemia?
Serviços considerados essenciais para a vida não puderam parar como mercados, farmácias, padarias, açougues, hospitais e clínicas, mas como fica o jornalismo nesses serviços?
O modelo de cobertura jornalística precisou mudar, o cuidado e higiene redobradas passa a ser obrigação, revezamento de pessoas dentro das redações, o distanciamento entre entrevistador e entrevistado passou a ser primordial e o uso de dois microfones também, assim como a limpeza dos equipamentos, jornalistas com mais de 60 anos são orientados a ficar em casa.
As adaptações nas rotinas dos jornalistas
Medidas de segurança contra o vírus
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) emitiu um alerta de segurança para que os jornalistas possam seguir e se proteger do COVID-19 como:
Usar luvas de proteção se estiver em locais infectados;
Nunca coloque o equipamento no chão;
sempre lave bem as mãos com água quente e sabão antes, durante e depois de sair;
Evite encostar a mão no rosto, nariz, boca e ouvidos;
evite aperto de mãos, abraços e beijos;
Limpe bem seus óculos com água e sabão, bem como jóias;
Entrevistas a distância
Cuidado dos profissionais Existem muitas recomendações a serem tomadas durante as reportagens, portanto, cada emissora tem orientado seus repórteres e equipes quais medidas de prevenção se adequar, qual a distância recomendada para informações, além de até mesmo jornais ao vivo começarem a se adequar ao home office, e jornalistas fazerem a transmissão de seus jornais de casa como tem acontecido na CNN Brasil.
Cuidado dos profissionais II
Assim como em toda a população brasileira, o jornalismo também tem que se adequar aos decretos de isolamento, distância e prevenção. Em muitos jornais impressos estão fazendo escalas para que as redações não fiquem muito cheias e vários jornalistas estão em suas casas fazendo home office. Os jornalistas maiores de 60 anos ou que se encaixam no grupo de risco estão sendo enviados para casa, isso está valendo para todos os estilos jornalísticos como TV, rádio, web, impresso. Na televisão também além das entrevistas, vários comentaristas estão fazendo os links ao vivo de casa. Nas rádios, os locutores estão trabalhando de casa, fazendo da sala ou quarto de estúdio.Em muitos jornais impressos estão fazendo escalas para que as redações não fiquem muito cheias e vários jornalistas estão em suas casas fazendo home office. Os jornalistas maiores de 60 anos ou que se encaixam no grupo de risco estão sendo enviados para casa, isso está valendo para todos os estilos jornalísticos como TV, rádio, web, impresso. Na televisão também além das entrevistas, vários comentaristas estão fazendo os links ao vivo de casa. Nas rádios, os locutores estão trabalhando de casa, fazendo da sala ou quarto de estúdio.
Editores comandam equipes de casa
FAKE NEWS e a cobertura jornalística
As notícias falsas geram desinformação e dificultam a divulgação de informações e orientações pelas autoridades à população. Notícias bombásticas, prometendo remédios ou soluções milagrosas circulam com facilidade no ambiente online e principalmente em aplicativos como Whatsapp e nas redes sociais como Facebook. E para ajudar, o aplicativo implementou uma medida para conter as mensagens, não é possível encaminhar mensagens para mais de uma pessoa.
1.BBC News- Cloroquina, medicamento que está sendo testado para o combate do COVID-19 2. Marcos Serra Lima/G1 – Mulher no Zona Sul, fazendo uso de Máscara para proteção no Rio de Janeiro 3.Ricardo Moraes – Reuters- Limpeza das Ruas em Niterói, com composto que foi utilizado na limpeza das ruas da China. 4. BBC- H1N1- Durante o surto da doença a h1n1 ficou caracterizada pelo grande contágio de crianças, adolescentes e jovens adultos. 5. El Clarín- Cemitério no Equador, recebendo mortos pelo novo Covid-19 6.Istoé- Pacientes usam máscaras para se proteger do H1N1 em pronto-socorro público lotado em 2010
Mesmo com a cobertura jornalística sendo eficaz e algumas emissoras têm dobrando o tempo da programação para aumentar o tempo de jornalismo sobre a COVID-19, o Whatsapp é um dos principais meios de difusão de notícias falsas, segundo o Relatório de Notícias Digitais do Instituto Reuters, a rede social tem mais de 130 milhões de usuários brasileiros. Muitos áudios adaptados supostamente relacionados a autoridades de saúde são divulgados em massa nesse veículo.
Em um momento sensível, a saúde pública e a economia estão em evidência e é fundamental que a que a sociedade mantenha a imprensa fortalecida pois é uma das únicas barreiras que impedem a desinformação e o agravamento da crise. Para isso, alguns veículos que dentro da programação encaixam quadros para desmentir as notícias falsas e alertar a população.
EL CLARÍN – Missa de Páscoa celebrada na Basílica de São Pedro no Vaticano, sem nenhum fiel por conta da propagação do vírus.
Transparência
O diretor executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan, afirmou na última sexta-feira (11) que “os países terão que manter sistemas de monitoramento constante do coronavírus, porque podem vir várias ondas de contágio”. Essa afirmação veio após um questionamento sobre a avaliação do Brasil no tratamento das informações da pandemia.
A informação é forte aliada no combate ao novo coronavírus, em especial no combate a desinformação e às fake news. No mundo, os países têm demonstrado forte atuação para combater as notícias falsas. No Brasil, o Ministério da Saúde criou uma página em seu site para dirimir a desinformação.
Dentre os países mais afetados na Europa, a Itália possui a melhor avaliação de transparência, devido a um site criado especificamente com dados atualizados sobre os casos no país. O site possui informações detalhadas sobre novos casos, curas e número de mortes por cada região, além de apresentar gráficos com a evolução da pandemia.
A consultoria Open Knowledge Brasil (OKBR) criou um índice de transparência do Covid-19, que avalia a qualidade e efetividade das informações da pandemia pela União e estados brasileiros. O Governo Federal ficou na sétima posição do ranking comparado aos estados. O estado de Pernambuco registrou a melhor colocação do ranking, sendo o único entre os demais com a avaliação alta.Os Estados Unidos, atual epicentro da pandemia, já ultrapassou mais de 200 mil casos e tem enfrentado dificuldades em realizar balanços nacional sobre os casos. Segundo apurou a BBC, o país conta atualmente com os esforços dos governos dos estados, que tem realizado levantamentos regionais junto a equipes específicas e instituições como universidades.
As pesquisas não cessam em redes de cientistas espalhadas pelo mundo
Comparação entre a cobertura do H1N1 em 2009 e a cobertura do COVID – 19 em 2020.
Analisando as coberturas jornalísticas das pandemias de H1N1 em 2009 e a cobertura do COVID- 19 atualmente, podemos notar duas grandes diferenças. A primeira é a participação ativa do leitor/ consumidor da informação. Nos dias atuais a sociedade não só consome conteúdos, mas também produz. A facilidade e rapidez com a qual as notícias falsas se espalham e tomam proporções alarmantes, faz com que a cobertura da pandemia atual seja totalmente diferente em muitos aspectos da cobertura da pandemia de H1N1 (gripe suína) em 2009. Casos como esses influenciam diretamente no imaginário coletivo, provocando medo, risco e desamparo, a enxurrada de informações falsas e incompletas que circulam na internet são como uma distorção e para o jornalismo fica a responsabilidade de desmentir informações falsas e apresentar com clareza informações verdadeiras.
A segunda diferença é a necessidade de adaptação pela qual o jornalismo tem passado. Recursos que antes eram ferramentas opcionais, como videochamadas, transmissões ao vivo e uso das redes sociais, agora são imprescindíveis para a produção jornalística. Isso porque o COVID- 19 tem maior transmissibilidade e letalidade do que o H1N1. A necessidade de isolamento social fez com que houvesse uma mudança na estruturação da produção jornalística, as redações foram substituídas pelo home office e cada vez mais a participação de entrevistados por meio de transmissões ao vivo é utilizada.
1. BBCNEWS-NYC HEALTH + HOSPITALS/BELLEVUE- O Bellevue ficou célebre por abrigar os melhores cirurgiões do país, que tratavam de pacientes pobres, personagens importantes e até presidentes. Até a década de 1840, as cirurgias eram feitas sem anestesia. 2. BBC/NYC HEALTH + HOSPITALS/BELLEVUE O hospital Bellevue foi o primeiro do país a ter uma escola profissional de enfermagem, estabelecida em 1873. Na foto, enfermeiras na década de 1880.
Cobertura jornalística do coronavírus X AIDS no rádio
No auge da AIDS as coberturas jornalísticas feitas pelo rádio, eram usadas somente uma vez na semana, sem o ao vivo, atualizações com o número de mortes, e incentivo de campanhas. Atualmente, para a Covid-19 há maior demanda de informações, e entradas ao vivo com autoridades, facilitando o repórter a ter maior acesso aos dados, ao contrário dos anos 80 que havia certas omissões.
Há mais de duas décadas no jornalismo e rádio, o professor, e chefe de reportagem da Rádio BandNews, Cládio Marcos, falou sobre a sua percepção do novo jornalismo na cobertura do coronavírus se comparada a da AIDS. ” O jornalismo de hoje, está voltado para a prestação de serviços, em que há a maior procura de informação pelas pessoas. O jornalismo de antes não se compara com o de hoje. A notícia está na informação do repórter, na orientação do apresentador, e nos intervalos comerciais. Colocamos entradas ao vivo do ministro da Saúde e outras autoridades. Há um engajamento total da rede ” destacou.
A crise mundial de saúde pela qual o mundo está passando, evidenciada pelo novo coronavírus (Covid-19), mudou o curso de diversos segmentos da economia. A ambientação on-line, espaço web completamente híbrido e mutável, diante da pandemia, se transformou em uma solução para dar continuidade ao trabalho das empresas de todos os segmentos, públicos ou privados.
A cobertura jornalística no jornal impresso
O editor executivo do jornal Correio Braziliense, Vicente Nunes, falou como está sendo a cobertura da Covid-19 do veículo impresso e online, cuidados, e as diferenças apresentadas no trabalho realizado em meio a pandemia.
De 150 a 200 matérias. Estes são os números diários de produção do Correio Braziliense sobre o coronavírus, em que uma grande demanda vai para o impresso, e tudo para o site. Divirta-se Mais, com dicas de tudo o que acontece na cidade, e o caderno de Turismo foram suspensos para toda redação se voltar para a Covid-19. Todas as editorias trazem conteúdo sobre o tema, que vai desde o Congresso a assuntos internacionais, e matérias exclusivas.
Vicente revelou que a cobertura da Covid-19 está sendo inovadora, e trouxe diferenças.”Nunca tivemos uma cobertura como esta. Nas demais pandemias, criava-se um núcleo especial para tratar do tema. Agora, toda a redação está envolvida na cobertura. A boa notícia: as vendas do jornal aumentaram e o site está registrando recordes seguidos de audiência. Isso é compensador” , afirmou.
Cuidados
A imprensa como trabalho imprescindível no combate do coronavírus, está na ativa, mas seguindo as recomendações. Vicente contou que quando é preciso, os repórteres vão para a rua. ” Quando é extremamente necessário, há a participação dos profissionais em entrevistas. Os jornalistas estão trabalhando em home office, e também fazemos conferências. Só há no jornal, as pessoas para atualizar o site e baixar o material. No local está tendo higienização, uso de máscara, e álcool em gel por toda redação”, disse.
Disciplina do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília (UCB). O material aqui publicado tem caráter unicamente experimental. Faz parte dos exercícios da disciplina Redação Digital.
Estudantes realizadores: ANDRESSA DO NASCIMENTO GONÇALVES, EUGENIA MARTINS ALVES DE ARAUJO COSTA, FERNANDA GABRIELLA MARQUES BUENO, GABRIELA FONSECA COSTA, HEDHUY TENÓRIO VIEIRA, ISABELLA OLIVEIRA DE CARVALHO, KESLEY PEREIRA DA SILVA, LAÍS SILVA QUEIROZ ROCHA, LARISSA THAIANE DE ABREU PEREIRA, LAYS CRISTINE GOMES DA SILVA, MARIA LUYNE SILVA ARAÚJO, MARIANA SILVA DA NÓBREGA, NATHÁLIA ESTELA VARGAS, OMARA MARIA SOARES DA SILVA, RIBAMAR MARTINS DA SILVA, TIAGO KIRIXI RAMOS GOMES MUNDURUKU, TUANNY APARECIDA DE CARVALHO DE OLIVEIRA.
Professor Responsável: Alexandre Kieling – Estagiária Docente: Rachel Porfírio